É fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?

philosoraptor

“O espetáculo, como a sociedade moderna, está ao mesmo tempo unido e dividido. Como a sociedade, ele constrói sua unidade sobre o esfacelamento. Mas a contradição, quando emerge no espetáculo, é, por sua vez, desmentida por uma inversão de seu sentido; de modo que a divisão é mostrada unitária, ao passo que a unidade é mostrada divida.” (p. 37)

Ganha um biscoito tostines quem conseguir me explicar o que esse cara disse.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de janeiro: Contraponto, v. 102, p. 85-102, 1997.

As impurezas da pós-modernidade

Bauman

“O serviço de separar e eliminar esse refugo do consumismo é, como tudo o mais no mundo pós-moderno, desregulamentado e privatizado. Os centros comerciais e os supermercados, templos do novo credo consumista, e os estádios, em que se disputa o jogo do consumismo, impedem a entrada dos consumidores falhos a suas próprias custas, cercando-se de câmeras de vigilância, alarmes eletrônicos e guardas fortemente armados; assim fazem as comunidades onde os consumidores afortunados e felizes vivem e desfrutam de suas novas liberdades; assim fazem os consumidores individuais, encarando suas casas e seus carros como muralhas de fortalezas permanentemente sitiadas.” (p.24)

A menos que esse refugo seja incorporado à própria lógica do jogo: tornam-se consumistas, compram eletrodomésticos, pagam consórcio e frequentam shoppings. Mas, ainda sim, continuam sendo “outros”, que não se misturam com os do lado de cá da fronteira. A falsa integração só ocorre pela força do consumismo.

Acho que é mais ou menos isso aí que vem ocorrendo no Brasil nos últimos 15 anos.

“A modernidade viveu num estado de permanente guerra à tradição, legitimada pelo anseio de coletivizar o destino humano num plano mais alto e novo, que substituísse a velha ordem remanescente, já esfalfada, por uma nova e melhor. Ela devia, portanto, purificar-se daqueles que ameaçavam voltar sua intrínseca irreverência contra os seus próprios princípios. (…) A pós-modernidade, por outro lado, vive num estado de permanente pressão para se despojar de toda interferência coletiva no destino individual, para desregulamentar e privatizar. (…) A mais odiosa impureza da versão pós-moderna da pureza não são os revolucionários, mas aqueles que, ou desrespeitam a lei, ou fazem a lei com suas próprias mãos – assaltantes, gatunos, ladrões de carro e furtadores de loja, assim como seus alter egos – os grupos de punição sumária e os terroristas. (…) A busca da pureza moderna expressou-se diariamente com a ação punitiva contra as classes perigosas; a busca da pureza pós-moderna expressa-se diariamente com a ação punitiva contra os moradores das ruas pobres e das áreas urbanas proibidas, os vagagundos e indolentes.” (p. 26)

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

O embate teórico

Stuart Hall

“A única teoria que vale a pena reter é aquela que você tem de contestar, não a que você fala com profunda fluência.”

“Lembro-me de ter lutado com Althusser. Lembro-me de, ao ver a ideia de ‘prática teórica’ em Lendo o Capital, pensar: ‘já li o suficiente’. Disse a mim mesmo: não cederei um milímetro a esta tradução pós-estruturalista mal feita do marxismo clássico, a não ser que ela consiga me vencer, a não ser que consiga me derrotar no espírito. Terá que caminhar sobre o meu cadáver para me convencer. Declarei-lhe guerra, até a morte.”

HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. (p. 204)

O trecho acima foi retirado de um ensaio de Hall sobre os legados teóricos dos estudos culturais. Hall descreve como as pesquisas do CCCS de Birmingham haviam herdado marcos conceituais do marxismo, como as noções de poder e exploração, classe social, política e teoria econômica. Por outro lado, o próprio marxismo foi motivo de questionamento por parte dos pesquisadores do centro, principalmente por seu caráter doutrinário, determinista e eurocentrista.

A citação demonstra, ao mesmo tempo, uma postura interessante do autor para com seus “anjos”: um respeito que convive com uma contestação crítica quase “petulante.”

Taí uma postura que ainda preciso desenvolver: olhar para uma obra e um autor com a devida consideração, mas, ao mesmo tempo, desejar derrubá-la e criticá-la.

Em fevereiro de 2014, ele faleceu, aos 82 anos.

E aí, já encontrou seu ‘embate teórico’?

Codificação e decodificação

“A realidade existe fora da linguagem, mas é constantemente mediada pela linguagem ou através dela: e o que nós podemos saber e dizer tem de ser produzido no discurso e através dele. O ‘conhecimento’ discursivo é o produto não da transparente representação do ‘real’ na linguagem, mas da articulação da linguagem em condições e relações reais. Assim, não há discurso inteligível sem a operação de um código. Os signos icônicos são, portanto, signos codificados também – mesmo que aqui os códigos trabalhem de forma diferente daquela de outros signos. Não há grau zero em linguagem. Naturalismo e ‘realismo’ – a aparente fidelidade da representação à coisa ou ao conceito representado – é o resultado, o efeito, de uma certa articulação específica da linguagem sobre o ‘real’. É o resultado de uma prática discursiva.”

HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

Neste trecho, Hall dialoga, de maneira explícita, com a Semiótica de Peirce para descrever seu modelo de codificação e decodificação dos meios de comunicação.

Fiquei um pouco aliviado em saber disso… Estava um pouco aflito em usar ambos os autores na minha tese, pois achava que se tratava de duas correntes bem disconexas.

Conhecendo um pouco melhor o histórico de Hall, isso parece começar a fazer algum sentido. Afinal, sua formação acadêmica foi na área linguística.

Globo terrestre

“Avant de savoir faire le tour de la terre, de circonscrire en jours et en heures la sphère de l’habitat human, nous avions mis le globe terrestre au salon pour le tâter et le faire pivoter sus nos yeaux.”
ARENDT, Hannah. Vita Activa: condition de l’homme moderne. Paris: Pocket, 1994, p. 317-318.
O globo terrestre é uma ficção cartográfica que permite ter sob as mãos, em casa, à escala que nos convém, uma imagem tridimensional do planeta sobre a qual fomos colocados. O globo oferece uma visão da terra como se estivéssemos situados em seu exterior, em pleno espaço sideral, a uma altura considerável. É a terra vista do alto, de um universo, por sua vez, desprovido de alto e baixo
Representar o real em uma outra escala é verdadeiramente acessar à realidade?
MONSAINGEON, Guillaume. Mappamundi: art et cartographie. Marseille: Éditions Parenthèses, 2013.

Les autoroutes de l’information

A internet não comporta nenhum sistema de segurança. Uma mensagem enviada pela internet navega sucessivamente sobre várias redes onde ela pode ser interceptada e lida impunemente. Mesmo os servidores insuficientemente protegidos foram sustentados em um passado recente de numerosas invasões após terem sido conectados à rede. Sua confiança também está em causa. O encaminhamento das mensagens não é garantido. Os congestionamentos podem bloquear a rede durante longos minutos ou mesmo de horas e conduzir, dessa maneira, à perda de mensagens. Enfim, não existe um catálogo de utilizadores ou de serviços. O boca-a-boca constitui o modo de funcionamento mais difundido dessa rede. Além disso, não existe qualquer meio de faturamento sobre a internet sem um cadastro a um serviço que se possa acessar com uma senha. Esta rede é, portanto, mal adaptada ao fornecimento de serviços comerciais. A quantidade de negócios disponíveis no mundo corresponde a menos de um décimo dos serviços ofercidos pelo Minitel. Os limites da internet demonstram, dessa maneira, que ela não se constituirá, no longo prazo, a rede de rodovias mundial.

As rodovias da informação, relatório de Gérard Théry enviado ao primeiro ministro francês em 1994.

É necessário entender um pouco o contexto em que esse relatório foi produzido: os franceses ainda utilizavam os diversos serviços comerciais oferecidos pelo Minitel de maneira massiva. Além disso, o surgimento de uma rede descentralizada, criada pelos norte-americanos, causava bastante desconfiança dos gigantes das telecomunicações (France Telecom). Em outras palavras, essa tal de internet não ia ter a menor chance.

(desculpem pela tradução livre)

BELLANGER, Aurélien. La Théorie de L’information. Éditions Gallimard, 2012.

L’informatisation de la société

No final dos anos 70, a França começou a sentir os efeitos da crise global do petróleo e viu seu crescimento exemplar dos últimos anos pós-guerra recuar consideravelmente.

Em 1978, Simon Nora e Alain Minc preparam um relatório para o governo francês chamado L’informatisation de la société onde alertam sobre a emergência da Telemática – fusão entre comunicação e informática – e seus efeitos futuros na economia e na sociedade. O relatório, que teve repercussão também em outros países, sustentava que a era das redes digitais estava começando e que o governo deveria ter papel preponderante no controle dessa tecnologia estratégica.

O video acima é bem interessante e didático. Após um comentário “cético” do apresentador, um narrador descreve e apresenta o cenário. Destaque para o enfoque dado ao medo do “desemprego” – “o ganho de produtividade permitiria reduzir em 30% a mão-de-obra empregada em tradicionais postos de trabalho, como correios, bancos, seguradoras, etc.”

Para saber mais: Le rapport “Nora-Minc”. Histoire d’un best-seller