As ruínas de Anhalter Bahnhof

Berlin Anhalter Bahnhof

If the ‘arcade’ counts as the best material witness to nineteenth-century Paris, as Benjamin famously argued in his massive historiographic fragment, The Arcades Project, surely the railway – perhaps Berlin’s Anhalter train station – would have to count as the best material witness to German/Jewish modernity. It was, after all, the railway that literally unified Germany in the late nineteenth century and connected Berlin to Western and Eastern Europe in the twentieth – in splendor, emancipation, and horror(…)

Both the railway and the arcade thus became the symbols and proof of their epochs: railways represented progress because they were the technological realization of mobility, speed, and exchange. They also became the first mode of transportation to move the masses, from the formation of mass politics to the implementation of mass deportations. And, finally, both the arcades and the railways eventually fell out of favor, overtaken by some other formation imagined to be faster, more fashionable, more progressive, more opulent, and more destructive. The heady heydays of the arcades and the railway may be over, but their constitutive dreams are still legible in the surviving remains. The physical ruins of the Anhalter Bahnhof and its varied cultural testimonies may be all we are left with, but it is from these remains that we can map the cultural geographies of German/Jewish modernity. The Anhalter Bahnhof represents a paradigm of modernity, one that is already grafted, as a dialectical image, onto these cultural geographies.

PRESNER, Todd. Mobile Modernity: Germans, Jews, Trains. New York: Columbia University Press. 2007. p. 2-3

Imaginação

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“A ligação estabelecida por Walter Benjamin entre a ‘iluminação profana’ e a técnica fotográfica nos mostra que a inundação de embriaguez não seria nada – nada que valha, nada que dure, nada que tenha valor crítico – sem a construção de suas imagens no tempo. Construção da duração que não existiria sem alguma mediação técnica. O que a embriaguez faz surgir como iluminação ou ‘instante utópico’ da imagem cabe à imaginação – desde então vislumbrada como duração utópica da imagem – fazendo dela uma experiência para o pensamento, uma imagem de pensamento. Pois ela é um jogo, pois ela não cessa de desmontar todas as coisas, a imaginação é construção imprevisível e infinita, retomada perpétua dos movimentos comprometidos, contraditórios, surpreendidos pelas novas bifurcações. Essa construção se dá bem, dialeticamente, sobre dois enquadramentos: ela dispõe as coisas para melhor expor as relações. Ela cria relações com as diferenças, ela lança pontes por cima dos abismos que ela mesma abre. Ela é, portanto, montagem, atividade onde a imaginação se torna uma técnica – um artesanato, uma atividade manual e de aparelhos – que produz pensamento em um ritmo incessante de diferenças e relações.”

DIDI-HUBERMAN, Georges. Quand les images prennent position. L’oeil de l’histoire, 1. Paris: Les éditions de minuit, 2009. p. 238-239.

O flâneur observa

A une passante – Charles Baudelaire

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet ;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair… puis la nuit ! – Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité ?

Ailleurs, bien loin d’ici ! trop tard ! jamais peut-être !
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais !

O Anjo da História

Angelus Novus, Paul Klee

Tese sobre a História número 9, de Walter Benjamin.

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Nele está desenhado um anjo que parece estar na iminência de se afastar de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, seu queixo caído e suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu semblante está voltado para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as arremessa a seus pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que o anjo não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele volta as costas, enquanto o amontoado de ruínas diante dele cresce até o céu. É a essa tempestade que chamamos progresso.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012.

Escrevo isso algumas horas do domingo, 17 de abril, na iminência de um dia que será, inevitavelmente, catastrófico para nossa história política. Espero que Benjamin e o seu Anjo da História possam nos ajudar a iluminar esse acúmulo de ruínas aos nossos pés, em nome de um suposto progresso que não passa, na verdade, de uma ilusão e de um golpe. Como diria o próprio Benjamin, devemos lutar contra essa noção positivista de progresso e despertar, através de um olhar para o passado, as centelhas da esperança. “Tampouco os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.” (p. 244)

Mapas medievais

Mapa T, Isidoro de Sevilha

Pietro Vesconte mappamundi

“O mapa compreende qualitativamente o espaço. Ele se funda sobre ideias de hierarquia, de correspondência, de oposição; ele provoca uma leitura tendenciosa – à maneira, diz-se, da heráldica. Ele é assim peregrinação interior. A riqueza da tradição cartográfica medieval não resulta menos de sua extrema diversidade: por vez na visão da representação, e na forma geral que lhe é dada. Ela manifesta a variedade de pontos de vista determinando a percepção como também a concepção do espaço. Em outros termos, entre os diversos tipos de mapas medievais, a diferença é mais semântica do que formal. A figuração tende menos a uma veracidade absoluta que a uma utilidade particular, relativa a uma situação. Essa instabilidade aparece tão natural ao espírito desse tempo que os manuscritos onde a mesma mão desenha mapas de aparência contraditória não são raros.” (p. 322)

ZUMTHOR, Paul. La mesure du monde: representation de l’espace au moyen âge. Paris: éditions du seuil, 1993.

O caráter narrativo dos mapas medievais foi suprimido pela emergência de uma linguagem cartográfica com pretensões científicas. Creio que a arte contemporânea tenha resgatado um pouco dessa abertura narrativa, resgatando, portanto, o imaginário ficcional sobre o espaço que foi reprimido por tanto tempo.

Documentos de cultura, documentos de barbárie

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PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO QUE LÊ
Brecht, 1935

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?

A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam
gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou?

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou,
quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.

 

História de fantasmas

Walter Benjamin

Aby Warburg

 

 

 

 

 

 

 

“Ainda que Benjamin, errante e pobre, tenha pressentido a distância social que o separava do erudito idoso e afortunado [Warburg], ele se reconheceu no pesquisador judeu, isolado, sem cátedra – tendo sido negada a ambos a habilitação universitária -, perfeitamente anacrônico em seu interesse não positivista pelos ‘restos da história’, em sua busca não evolucionista dos ‘tempos perdidos’ que estremecem a memória humana em sua longa duração cultural. (…) Mas, para além do prestígio ético, para além da figura do pensador erudito, é no terreno dessa problemática que Benjamin pôde se sentir próximo de Warburg (ele teria se sentido ainda mais próximo, é certo se tivesse tido acesso à intimidade da pesquisa warburguiana, ao estilo exploratório dos inéditos, a suas fórmulas de pensamento, ao seu humor e também ao seu desespero). Como Warburg, Benjamin colocou a imagem no centro nevrálgico da ‘vida histórica’. Como ele, compreendeu que esse ponto de vista exigia a elaboração de novos modelos de tempo: a imagem não está na história como um ponto sobre uma linha. Ela não é nem um simples evento no devir histórico, nem um bloco de eternidade insensível às condições desse devir. Ela possui – ou melhor, produz – uma temporalidade com dupla face: o que Warburg havia apreendido em termos de ‘polaridade’ observáveis em todas as etapas da análise, Benjamin, por sua vez, acabaria por apreendê-lo em termos de ‘dialética’ e de ‘imagem dialética’.”

DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015. p. 106.

Imagem dialética, imagem sobrevivente

Rue Jeanne d'Arc, 13ème arrondissement, Paris

Rue Jeanne d’Arc, 13ème arrondissement, Paris

“A imagem dialética à qual nos convida Benjamin consiste, antes, em fazer surgirem os momentos inestimáveis que sobrevivem, que resistem a tal organização de valores, fazendo-a explodir em momentos de surpresa. Busquemos, então, as experiências que se transmitem ainda para além de todos os espetáculos comprados e vendidos a nossa volta (…) Somos ‘pobres em experiência’? Façamos dessa mesma pobreza – dessa semiescuridão – uma experiência.(…) O valor da experiência caiu de cotação, mas cabe somente a nós, em cada situação particular, erguer essa queda à dignidade, à nova beleza de uma coreografia, de uma invenção de formas. Não assume a imagem, em sua própria fragilidade, em sua intermitência de vaga-lume, a mesma potência, cada vez que ela nos mostra sua capacidade de reaparecer, de sobreviver?”

DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. P. 127

Índices e rastros

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“Observar um rastro no chão, um bilhete de uma viagem feita no passado, uma fotografia, assim como contemplar um espaço em ruína, pode envolver o esforço de pensar na existência à luz das perdas: são situações em que um fragmento, um resto do que existiu pode ajudar a entender o passado de modo amplo e, mais do que isso, entender o tempo como processo, em que o resto é também imagem ambígua do que será o futuro. A politização da interpretação do conceito de rastro sugere seu entendimento como um termo de mediação.” (p. 109)

GINZBURG, Jaime. A interpretação do rastro em Walter Benjamin. In: SEDLMAYER, Sabrina; GINZBURG, Jaime (orgs.). Walter Benjamin: rastro, aura e história. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012.

O rastro é um índice do passado. Como “presença de uma ausência”, ele imediatamente nos remete a uma memória sensorial. O índice acima me remete ao chão molhado, as azulejos encardidos, ao vendedor de milho assado e ao cheiro particular do RER na entrada da estação Cité Universitaire.

Qual é o motivo da inundação de registros indiciais, especialmente os fotográficos, nas redes sociais? (“estive aqui”, “comi isso”, “comi alguém” etc.). Se o índice nos faz pensar na “nossa própria existência à luz das perdas”, como na citação acima, talvez o excesso dos índices digitais nos indique justamente a fugacidade das experiências contemporâneas, que teimam em se eternizar em nossos celulares. No fundo, por medo de “perder o momento”, não aceitamos que o tempo “é um processo” e que passado já foi.

Na verdade, acho que sempre foi assim… a diferença é que agora tentamos, cada vez mais, transferir nossa memória para os dispositivos digitais (como se eles fossem capazes de registrar toda a sensorialidade envolvida em uma experiência passada…)

Uma análise semiótica dos mapas da “Guerra dos Tronos”

Nesta semana, apresentei um artigo no V ComCult, congresso organizado pelos colegas do CISC que ocorreu na Cásper Libero. Vi muitas pesquisas excelentes, pena que não pude acompanhar todo os dias do congresso.

Segue o resumo da minha apresentação. O artigo completo está disponível aqui.

The North of Westeros, by J.E. Fullerton

Cartografia Literária: uma abordagem Cartossemiótica sobre A Guerra dos Tronos

Resumo
A cartografia é a ciência que estuda a representação do espaço, cujo principal objeto de investigação é o mapa. Por sua vez, a cartografia literária é o ramo de estudos que investiga as relações dos mapas com o espaço dos textos literários. Neste artigo, é feita uma breve análise semiótica de um dos mapas da série A Guerra dos Tronos. A metodologia de análise está baseada na teoria dos signos desenvolvida por Charles Peirce. A semiótica de Peirce afirma que os mapas se constituem como um tipo especial de signo que pode revelar analogias estruturais do objeto representado. Assim, parte-se da hipótese de que os mapas literários tornam visíveis as articulações descritas na narrativa e funcionam como dispositivos de raciocínio.

Palavras-chave: Mapas. Semiótica. Literatura. Cartografia. A Guerra dos Tronos.