O Anjo da História

Angelus Novus, Paul Klee

Tese sobre a História número 9, de Walter Benjamin.

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Nele está desenhado um anjo que parece estar na iminência de se afastar de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, seu queixo caído e suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu semblante está voltado para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as arremessa a seus pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que o anjo não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele volta as costas, enquanto o amontoado de ruínas diante dele cresce até o céu. É a essa tempestade que chamamos progresso.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012.

Escrevo isso algumas horas do domingo, 17 de abril, na iminência de um dia que será, inevitavelmente, catastrófico para nossa história política. Espero que Benjamin e o seu Anjo da História possam nos ajudar a iluminar esse acúmulo de ruínas aos nossos pés, em nome de um suposto progresso que não passa, na verdade, de uma ilusão e de um golpe. Como diria o próprio Benjamin, devemos lutar contra essa noção positivista de progresso e despertar, através de um olhar para o passado, as centelhas da esperança. “Tampouco os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.” (p. 244)

Mapas medievais

Mapa T, Isidoro de Sevilha

Pietro Vesconte mappamundi

“O mapa compreende qualitativamente o espaço. Ele se funda sobre ideias de hierarquia, de correspondência, de oposição; ele provoca uma leitura tendenciosa – à maneira, diz-se, da heráldica. Ele é assim peregrinação interior. A riqueza da tradição cartográfica medieval não resulta menos de sua extrema diversidade: por vez na visão da representação, e na forma geral que lhe é dada. Ela manifesta a variedade de pontos de vista determinando a percepção como também a concepção do espaço. Em outros termos, entre os diversos tipos de mapas medievais, a diferença é mais semântica do que formal. A figuração tende menos a uma veracidade absoluta que a uma utilidade particular, relativa a uma situação. Essa instabilidade aparece tão natural ao espírito desse tempo que os manuscritos onde a mesma mão desenha mapas de aparência contraditória não são raros.” (p. 322)

ZUMTHOR, Paul. La mesure du monde: representation de l’espace au moyen âge. Paris: éditions du seuil, 1993.

O caráter narrativo dos mapas medievais foi suprimido pela emergência de uma linguagem cartográfica com pretensões científicas. Creio que a arte contemporânea tenha resgatado um pouco dessa abertura narrativa, resgatando, portanto, o imaginário ficcional sobre o espaço que foi reprimido por tanto tempo.

Documentos de cultura, documentos de barbárie

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PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO QUE LÊ
Brecht, 1935

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?

A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam
gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou?

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou,
quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.

 

História de fantasmas

Walter Benjamin

Aby Warburg

 

 

 

 

 

 

 

“Ainda que Benjamin, errante e pobre, tenha pressentido a distância social que o separava do erudito idoso e afortunado [Warburg], ele se reconheceu no pesquisador judeu, isolado, sem cátedra – tendo sido negada a ambos a habilitação universitária -, perfeitamente anacrônico em seu interesse não positivista pelos ‘restos da história’, em sua busca não evolucionista dos ‘tempos perdidos’ que estremecem a memória humana em sua longa duração cultural. (…) Mas, para além do prestígio ético, para além da figura do pensador erudito, é no terreno dessa problemática que Benjamin pôde se sentir próximo de Warburg (ele teria se sentido ainda mais próximo, é certo se tivesse tido acesso à intimidade da pesquisa warburguiana, ao estilo exploratório dos inéditos, a suas fórmulas de pensamento, ao seu humor e também ao seu desespero). Como Warburg, Benjamin colocou a imagem no centro nevrálgico da ‘vida histórica’. Como ele, compreendeu que esse ponto de vista exigia a elaboração de novos modelos de tempo: a imagem não está na história como um ponto sobre uma linha. Ela não é nem um simples evento no devir histórico, nem um bloco de eternidade insensível às condições desse devir. Ela possui – ou melhor, produz – uma temporalidade com dupla face: o que Warburg havia apreendido em termos de ‘polaridade’ observáveis em todas as etapas da análise, Benjamin, por sua vez, acabaria por apreendê-lo em termos de ‘dialética’ e de ‘imagem dialética’.”

DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015. p. 106.

Imagem dialética, imagem sobrevivente

Rue Jeanne d'Arc, 13ème arrondissement, Paris

Rue Jeanne d’Arc, 13ème arrondissement, Paris

“A imagem dialética à qual nos convida Benjamin consiste, antes, em fazer surgirem os momentos inestimáveis que sobrevivem, que resistem a tal organização de valores, fazendo-a explodir em momentos de surpresa. Busquemos, então, as experiências que se transmitem ainda para além de todos os espetáculos comprados e vendidos a nossa volta (…) Somos ‘pobres em experiência’? Façamos dessa mesma pobreza – dessa semiescuridão – uma experiência.(…) O valor da experiência caiu de cotação, mas cabe somente a nós, em cada situação particular, erguer essa queda à dignidade, à nova beleza de uma coreografia, de uma invenção de formas. Não assume a imagem, em sua própria fragilidade, em sua intermitência de vaga-lume, a mesma potência, cada vez que ela nos mostra sua capacidade de reaparecer, de sobreviver?”

DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. P. 127

Índices e rastros

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“Observar um rastro no chão, um bilhete de uma viagem feita no passado, uma fotografia, assim como contemplar um espaço em ruína, pode envolver o esforço de pensar na existência à luz das perdas: são situações em que um fragmento, um resto do que existiu pode ajudar a entender o passado de modo amplo e, mais do que isso, entender o tempo como processo, em que o resto é também imagem ambígua do que será o futuro. A politização da interpretação do conceito de rastro sugere seu entendimento como um termo de mediação.” (p. 109)

GINZBURG, Jaime. A interpretação do rastro em Walter Benjamin. In: SEDLMAYER, Sabrina; GINZBURG, Jaime (orgs.). Walter Benjamin: rastro, aura e história. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012.

O rastro é um índice do passado. Como “presença de uma ausência”, ele imediatamente nos remete a uma memória sensorial. O índice acima me remete ao chão molhado, as azulejos encardidos, ao vendedor de milho assado e ao cheiro particular do RER na entrada da estação Cité Universitaire.

Qual é o motivo da inundação de registros indiciais, especialmente os fotográficos, nas redes sociais? (“estive aqui”, “comi isso”, “comi alguém” etc.). Se o índice nos faz pensar na “nossa própria existência à luz das perdas”, como na citação acima, talvez o excesso dos índices digitais nos indique justamente a fugacidade das experiências contemporâneas, que teimam em se eternizar em nossos celulares. No fundo, por medo de “perder o momento”, não aceitamos que o tempo “é um processo” e que passado já foi.

Na verdade, acho que sempre foi assim… a diferença é que agora tentamos, cada vez mais, transferir nossa memória para os dispositivos digitais (como se eles fossem capazes de registrar toda a sensorialidade envolvida em uma experiência passada…)

Uma análise semiótica dos mapas da “Guerra dos Tronos”

Nesta semana, apresentei um artigo no V ComCult, congresso organizado pelos colegas do CISC que ocorreu na Cásper Libero. Vi muitas pesquisas excelentes, pena que não pude acompanhar todo os dias do congresso.

Segue o resumo da minha apresentação. O artigo completo está disponível aqui.

The North of Westeros, by J.E. Fullerton

Cartografia Literária: uma abordagem Cartossemiótica sobre A Guerra dos Tronos

Resumo
A cartografia é a ciência que estuda a representação do espaço, cujo principal objeto de investigação é o mapa. Por sua vez, a cartografia literária é o ramo de estudos que investiga as relações dos mapas com o espaço dos textos literários. Neste artigo, é feita uma breve análise semiótica de um dos mapas da série A Guerra dos Tronos. A metodologia de análise está baseada na teoria dos signos desenvolvida por Charles Peirce. A semiótica de Peirce afirma que os mapas se constituem como um tipo especial de signo que pode revelar analogias estruturais do objeto representado. Assim, parte-se da hipótese de que os mapas literários tornam visíveis as articulações descritas na narrativa e funcionam como dispositivos de raciocínio.

Palavras-chave: Mapas. Semiótica. Literatura. Cartografia. A Guerra dos Tronos.

O limiar extremo, ou a fronteira da morte

The Walter Benjamin Memorial, em Portbou

“A última fronteira nesta viagem é uma fronteira real. Regresso a Port Bou, 26 de Setembro de 1940, ao limiar absoluto perante o qual Benjamin, fugitivo a caminho de uma terra americana prometida, mas não verdadeiramente desejada, se viu na última fronteira, num lugar no qual é possível encontrar hoje uma obra que será uma das mais conseguidas réplicas do pensamento suspenso, da busca de limiares e da permanência neles como terreno mais fértil desse tipo de pensamento num autor como Benjamin.

No memorial do israelita Dani Karavan, suspenso sobre o mar à entrada do cemitério de Port Bou (nos Pirinéus Orientais), onde Benjamin estará enterrado, materializou-se, na fronteira, a ideia do limiar. Aí, limiar e fronteira confundem- se, encontram-se de novo. Benjamin, o pensador dos limiares, transpôs o derradeiro num lugar de fronteira.

O memorial, no adro do cemitério, é basicamente constituído por um túnel inclinado, de secção rectangular, que desemboca sobre o mar, por um muro em frente da entrada que funciona como estela para receber as pedrinhas que encontramos nos cemitérios judeus e, mais acima na encosta, por um caminho que vai dar a uma velha oliveira.” (p. 50)

BARRENTO, João. Walter Benjamin: limiar, fronteira e método. Olho d’água, v. 4, n. 2, 2013.

 

Iconologia das fronteiras

Francis Alÿs – The Leak

Adriana Varejão – Contingente

“As fronteiras, como sabemos, amiúde são separações arbitrárias no ritmo geológico de uma mesma região. Que faz o clandestino quando quer cruzar uma fronteira? Usa um intervalo já existente – uma linha de fratura, uma fenda, um corredor de erosão – e que, se possível, passe despercebido aos guardas como um ‘detalhe’. Assim funciona a ‘iconologia do intervalo’, seguindo os ritmos geológicos da cultura para transgredir os limites artificialmente instituídos entre disciplinas.” (p. 418-419)

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: História da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

Le flâneur à Paris

“As ruas são a morada do coletivo. O coletivo é um ser eternamente inquieto, eternamente agitado, que, entre os muros dos prédios, vive, experimenta, reconhece e inventa tanto quanto os indivíduos ao abrigo de suas quatro paredes. Para esse ser coletivo, as tabuletas das firmas, brilhantes e esmaltadas, constituem decoração mural tão boa ou melhor que o quadro a óleo no salão do burguês; os muros com défense d’afficher são sua escrivaninha, as bancas de jornal, sua bibliotecas, as caixas de correspondência, seus bronzes, os bancos, seus móveis do quarto de dormir, e o terraço do café, a sacada de onde observa o ambiente. O gradil, onde os operários do asfalto penduram a jaqueta, isso é o vestíbulo, e o portão que, da linha dos pátios, leva ao ar livre, ao longo do corredor que assusta o burguês, é para ele o acesso aos aposentos da cidade. A galeria é o seu salão. Nela, mais do que em qualquer outro lugar, a rua se dá a conhecer como o interior mobiliado e habitado pelas massas.” (p. 194-195)

BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Obras escolhidas III. São Paulo: Brasiliense, 1991.