Imagem dialética, imagem sobrevivente

Rue Jeanne d'Arc, 13ème arrondissement, Paris

Rue Jeanne d’Arc, 13ème arrondissement, Paris

“A imagem dialética à qual nos convida Benjamin consiste, antes, em fazer surgirem os momentos inestimáveis que sobrevivem, que resistem a tal organização de valores, fazendo-a explodir em momentos de surpresa. Busquemos, então, as experiências que se transmitem ainda para além de todos os espetáculos comprados e vendidos a nossa volta (…) Somos ‘pobres em experiência’? Façamos dessa mesma pobreza – dessa semiescuridão – uma experiência.(…) O valor da experiência caiu de cotação, mas cabe somente a nós, em cada situação particular, erguer essa queda à dignidade, à nova beleza de uma coreografia, de uma invenção de formas. Não assume a imagem, em sua própria fragilidade, em sua intermitência de vaga-lume, a mesma potência, cada vez que ela nos mostra sua capacidade de reaparecer, de sobreviver?”

DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. P. 127

Índices e rastros

poche

“Observar um rastro no chão, um bilhete de uma viagem feita no passado, uma fotografia, assim como contemplar um espaço em ruína, pode envolver o esforço de pensar na existência à luz das perdas: são situações em que um fragmento, um resto do que existiu pode ajudar a entender o passado de modo amplo e, mais do que isso, entender o tempo como processo, em que o resto é também imagem ambígua do que será o futuro. A politização da interpretação do conceito de rastro sugere seu entendimento como um termo de mediação.” (p. 109)

GINZBURG, Jaime. A interpretação do rastro em Walter Benjamin. In: SEDLMAYER, Sabrina; GINZBURG, Jaime (orgs.). Walter Benjamin: rastro, aura e história. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012.

O rastro é um índice do passado. Como “presença de uma ausência”, ele imediatamente nos remete a uma memória sensorial. O índice acima me remete ao chão molhado, as azulejos encardidos, ao vendedor de milho assado e ao cheiro particular do RER na entrada da estação Cité Universitaire.

Qual é o motivo da inundação de registros indiciais, especialmente os fotográficos, nas redes sociais? (“estive aqui”, “comi isso”, “comi alguém” etc.). Se o índice nos faz pensar na “nossa própria existência à luz das perdas”, como na citação acima, talvez o excesso dos índices digitais nos indique justamente a fugacidade das experiências contemporâneas, que teimam em se eternizar em nossos celulares. No fundo, por medo de “perder o momento”, não aceitamos que o tempo “é um processo” e que passado já foi.

Na verdade, acho que sempre foi assim… a diferença é que agora tentamos, cada vez mais, transferir nossa memória para os dispositivos digitais (como se eles fossem capazes de registrar toda a sensorialidade envolvida em uma experiência passada…)

Uma análise semiótica dos mapas da “Guerra dos Tronos”

Nesta semana, apresentei um artigo no V ComCult, congresso organizado pelos colegas do CISC que ocorreu na Cásper Libero. Vi muitas pesquisas excelentes, pena que não pude acompanhar todo os dias do congresso.

Segue o resumo da minha apresentação. Em breve, compartilharei o artigo completo.

The North of Westeros, by J.E. Fullerton

Cartografia Literária: uma abordagem Cartossemiótica sobre A Guerra dos Tronos

Resumo
A cartografia é a ciência que estuda a representação do espaço, cujo principal objeto de investigação é o mapa. Por sua vez, a cartografia literária é o ramo de estudos que investiga as relações dos mapas com o espaço dos textos literários. Neste artigo, é feita uma breve análise semiótica de um dos mapas da série A Guerra dos Tronos. A metodologia de análise está baseada na teoria dos signos desenvolvida por Charles Peirce. A semiótica de Peirce afirma que os mapas se constituem como um tipo especial de signo que pode revelar analogias estruturais do objeto representado. Assim, parte-se da hipótese de que os mapas literários tornam visíveis as articulações descritas na narrativa e funcionam como dispositivos de raciocínio.

Palavras-chave: Mapas. Semiótica. Literatura. Cartografia. A Guerra dos Tronos.

O limiar extremo, ou a fronteira da morte

The Walter Benjamin Memorial, em Portbou

“A última fronteira nesta viagem é uma fronteira real. Regresso a Port Bou, 26 de Setembro de 1940, ao limiar absoluto perante o qual Benjamin, fugitivo a caminho de uma terra americana prometida, mas não verdadeiramente desejada, se viu na última fronteira, num lugar no qual é possível encontrar hoje uma obra que será uma das mais conseguidas réplicas do pensamento suspenso, da busca de limiares e da permanência neles como terreno mais fértil desse tipo de pensamento num autor como Benjamin.

No memorial do israelita Dani Karavan, suspenso sobre o mar à entrada do cemitério de Port Bou (nos Pirinéus Orientais), onde Benjamin estará enterrado, materializou-se, na fronteira, a ideia do limiar. Aí, limiar e fronteira confundem- se, encontram-se de novo. Benjamin, o pensador dos limiares, transpôs o derradeiro num lugar de fronteira.

O memorial, no adro do cemitério, é basicamente constituído por um túnel inclinado, de secção rectangular, que desemboca sobre o mar, por um muro em frente da entrada que funciona como estela para receber as pedrinhas que encontramos nos cemitérios judeus e, mais acima na encosta, por um caminho que vai dar a uma velha oliveira.” (p. 50)

BARRENTO, João. Walter Benjamin: limiar, fronteira e método. Olho d’água, v. 4, n. 2, 2013.

 

Iconologia das fronteiras

Francis Alÿs – The Leak

Adriana Varejão – Contingente

“As fronteiras, como sabemos, amiúde são separações arbitrárias no ritmo geológico de uma mesma região. Que faz o clandestino quando quer cruzar uma fronteira? Usa um intervalo já existente – uma linha de fratura, uma fenda, um corredor de erosão – e que, se possível, passe despercebido aos guardas como um ‘detalhe’. Assim funciona a ‘iconologia do intervalo’, seguindo os ritmos geológicos da cultura para transgredir os limites artificialmente instituídos entre disciplinas.” (p. 418-419)

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: História da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

Le flâneur à Paris

“As ruas são a morada do coletivo. O coletivo é um ser eternamente inquieto, eternamente agitado, que, entre os muros dos prédios, vive, experimenta, reconhece e inventa tanto quanto os indivíduos ao abrigo de suas quatro paredes. Para esse ser coletivo, as tabuletas das firmas, brilhantes e esmaltadas, constituem decoração mural tão boa ou melhor que o quadro a óleo no salão do burguês; os muros com défense d’afficher são sua escrivaninha, as bancas de jornal, sua bibliotecas, as caixas de correspondência, seus bronzes, os bancos, seus móveis do quarto de dormir, e o terraço do café, a sacada de onde observa o ambiente. O gradil, onde os operários do asfalto penduram a jaqueta, isso é o vestíbulo, e o portão que, da linha dos pátios, leva ao ar livre, ao longo do corredor que assusta o burguês, é para ele o acesso aos aposentos da cidade. A galeria é o seu salão. Nela, mais do que em qualquer outro lugar, a rua se dá a conhecer como o interior mobiliado e habitado pelas massas.” (p. 194-195)

BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Obras escolhidas III. São Paulo: Brasiliense, 1991.

L’image survivante

Prancha do Altas Mnemosyne, de Warburg

“As sobrevivências advêm como imagens: é essa a hipótese warburguiana sobre a longevidade ocidental e sobre as ‘linhas divisórias entre as culturas’ (o que permitiria, por exemplo, reconhecer na substância imagética de um afresco do quattrocento italiano o fantasma ativo e sobrevivente de um antigo astrólogo árabe). As sobrevivências advêm como imagens: é isso que exige de nós algo além de uma simples história da arte. Warburg desenvolveu toda a sua ideia das imagens sobreviventes na óptica – sempre nietzschiana – de uma genealogia das semelhanças, ou seja, de um modo autenticamente crítico de contemplar o devir das formas, contrariando toda sorte de teleologias, positivismos e utilitarismos.” (p. 152)

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: História da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

Arte e fotografia

Walter Benjamin

“Muito se escreveu, no passado, de moto tão sutil como estéril, sobre a questão de saber se a fotografia era ou não uma obra de arte, sem que se colocasse sequer a questão prévia de saber se a invenção da fotografia não havia alterado a própria natureza da arte.” (p. 191)

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012.

Armas e munições

Riga, Letônia

 

Tinha chegado a Riga para visitar uma amiga. Desconhecia a casa onde morara, a cidade, a língua. Ninguém me esperava, ninguém me conhecia. Andei duas horas sozinho pelas ruas. Nunca mais voltei a vê-las assim. De cada portal saía uma chama, de cada pedra angular saltavam centelhas, e cada bonde surgia como se fosse um carro de bombeiros. Ela podia a cada momento sair pelo portal, dobrar o ângulo da esquina, estar sentada no bonde. Mas eu teria a todo custo de ser o primeiro dos dois a ver o outro. Pois se ela tivesse aproximado de mim a mecha do seu olhar – eu explodiria com certeza como um depósito de munições.

BENJAMIN, Walter. Rua de mão única: infância berlinense: 1900. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.