O cinema e o espírito do tempo

Kracauer, analisando o contexto cinematográfico alemão que antecedeu a ascensão do nazismo.

Aquí se plantea una contradicción. Por un lado, una mayoría de alemanes – en particular de la clase media – trataban de rechazar las nociones socialistas, insistiendo en el concepto idealista del individuo autónomo. Por otro lado, esa misma gente estaba ansiosa de renunciar a la autonomía individual a favor de una total dependencia del gobernante autocrático, siempre que – claro está – evitara cualquier intrusión en la propiedad privada. Esta paradoja, nacida del interés en salvaguardar privilegios vitales, parecía ser inevitable (p. 115)

KRACAUER, Siegfried. De Caligari a Hitler: Una historía psicológica del cine alemán Barcelona: Ediciones Paidós, 1985.

A semelhança com o nosso contexto brasileiro atual não poderia ser mais escancarada. Enquanto isso, notamos, perplexos, a história se repetir.

Benjamin, por Martín-Barbero

Folheando, despretensiosamente, o livro do Martín-Barbero, encontro algumas preciosas reflexões sobre Benjamin, o pensador “marginal” da Escola de Frankfurt.

“A ruptura está no ponto de partida. Benjamin não investiga a partir de um lugar fixo, pois toma a realidade como algo descontínuo. (…) Essa dissolução do centro como método é o que explica seu interesse pelas margens, esses impulsos que trabalham as margens seja em política ou em arte.” (p. 80)

“Benjamin foi o pioneiro a vislumbrar a mediação fundamental que permite pensar historicamente a relação da transformação nas condições de produção com as mudanças no espaço da cultura, isto é, as transformações do sensorium dos modos de percepção, da experiência social. Mas para a razão ilustrada a experiência é o obscuro, o constitutivamente opaco, o impensável. Para Benjamin, pelo contrário, pensar a experiência é o modo de alcançar o que irrompe na história com as massas e a técnica. Não se pode entender o que se passa culturalmente com as massas sem considerar a sua experiência. Pois, em contraste com o que ocorre na cultura culta, cuja chave está na obra, para aquela outra a chave se acha na percepção e no uso.” (p. 80)

“Benjamin se propõe então a tarefa de pensar as mudanças que configuram a modernidade a partir do espaço da percepção, misturando para isso o que se passa nas ruas com o que se passa nas fábricas e nas escuras salas de cinema e na literatura, sobretudo na marginal, na maldita.” (p. 81)

 

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. 7.ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2015.

Cartography and Art

Leonardo da Vinci’s Plan of Imola, 1502

Em parceria com o prof. Sébastien Caquard, publicamos um tópico sobre Arte e Cartografia no projeto Geographic Information Science GIS&T Body of Knowledge, Agradecemos ao prof. Robert Roth pelo convite.

Esta publicação é um dos frutos do meu estágio de pesquisa no Geomedia Lab da Concordia University em Montréal, Canadá. Agradeço ao Global Affairs Canadá que financiou meu estágio através da bolsa ELAP. Agradeço também ao prof. Sébastien por ter me recebido em sua equipe entre outubro de 2016 e abril de 2017.

Cartography and Art

Abstract:

The intersections between art and cartography go far beyond the notions of design and illustration, since mapmaking invariably has multiple cultural, social, and political dimensions. Considering this broader perspective, this entry provides a review of these different contemporary intersections, by exploring three main types of relationships: 1) cartography influenced by artistic practices; 2) map art or maps embedded in artistic practices; and 3) cartography at the interface between art and places. These will be discussed in detail following a brief overview of the main historical markers from which these types of relationships between art and cartography have emerged.

Author and Citation Info:

Ribeiro, D. M, and Caquard, S. (2018). Cartography and Art. The Geographic Information Science & Technology Body of Knowledge (1st Quarter 2018 Edition), John P. Wilson (ed). DOI:10.22224/gistbok/2018.1.4.

O que é arte?

“Eu diria simplesmente que algo é visto como arte quando é transmitido pelas mídias da arte. Tomemos uma fotografia da chegada do homem à Lua. É uma fotografia feita automaticamente. Nenhum fotógrafo estava lá. Nós nos lembramos de duas pegadas na areia na Lua. Afirmo que essa fotografia é pura arte quanto é exposta em uma galeria de arte. Essa fotografia é pura ciência quando é examinada em um laboratório astronômico. Essa fotografia é pura política quando está pendurada em um consulado americano. A classificação em ciência, arte e política não é feita pelos produtores, mas pelas mídias (p. 175)”

No trecho acima, Flusser comenta que autoridade de uma obra de arte não é intrínseca ao objeto, não é parte dele. Essa atribuição parte de uma autoridade externa (“as mídias”). A sacada de Duchamp foi essencial para escancarar isso, ao colocar um objeto do cotidiano no espaço institucionalizado do museu. Arte, então, passa a ser o que as autoridades artísticas dizem que é.

Um pouco mais adiante, Flusser dialoga com Benjamin, referindo-se aos textos sobre a “Reprodutibilidade da obra de arte” e do “Autor como produtor”.

“Quando cai a aura da obra de arte, no momento da reprodutibilidade técnica, caem o autor e a autoridade. No lugar do autor surge a criatividade gerada por competências cruzadas entre homens e inteligências artificiais. No lugar da autoridade entram as mídias. Essa talvez seja a essência da revolução na comunicação. É uma crítica cultural importante, graças à comunicologia” (p. 178).

FLUSSER, Vilém. Comunicologia: reflexões sobre o futuro. São Paulo: Martins Fontes – selo Martins, 2014. p. 175

Cartossemiótica

Saiu mais um artigo meu na revista Dispositiva da PUC-Minas. Agradeço, em especial, ao prof. Winfried Nöth, sem o qual este artigo não poderia ter sido concebido.

CARTOSSEMIÓTICA: uma abordagem peirciana dos mapas e da cartografia

RIBEIRO, D. M.. Cartossemiótica: uma abordagem peirciana dos mapas e da cartografia. Dispositiva – Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, v. 6, p. 1-18, 2017.

Download do pdf do artigo.

Resumo

O objetivo deste estudo é apresentar uma síntese da cartossemiótica – ramo da semiótica aplicada ao estudo dos mapas e da cartografia. Vamos enfatizar a cartossemiótica de origem peirciana, tomando como referência o trabalho de Winfried Nöth. Entendida como sinônimo de lógica, a semiótica de Peirce parte de categorias fenomenológicas primordiais para propor uma gramática que explica o funcionamento geral dos signos. Defendemos que a tríade signo, objeto e interpretante, proposta por Peirce, contempla os elementos fundamentais que envolvem o processo de representação e interpretação dos mapas. Neste estudo, os fundamentos da semiótica serão utilizados para esclarecer os seguintes aspectos da cartografia: (a) os mapas e seus dois objetos; (b) o mapa como representação; (c) o aspecto comunicacional dos mapas; (d) as propriedades icônicas, indiciais e simbólicas dos mapas; (e) o mapa como um diagrama.

Walter Benjamin e os mapas

Segue abaixo o resumo da minha apresentação realizada no Benjaminiana 2017 – I Encontro dos Pesquisadores de Walter Benjamin. Trata-se de um trecho da minha tese de doutorado. Em breve o artigo deve ser publicado nos anais do evento.

Mesa Experiência, tempo e história I – Benjaminiana 2017, UFRJ

 

Walter Benjamin e os mapas: o olhar cartográfico sobre a cidade

Daniel Melo Ribeiro – Comunicação e Semiótica PUC-SP

Este estudo explora o interesse de Walter Benjamin pelos mapas e pela cartografia. Segundo Willi Bolle, “o mapa como gênero foi um dos recursos prediletos de Benjamin para falar do espaço urbano enquanto lugar público e referência afetiva”. Partindo dessa aproximação, sugerimos que, embora o tema dos mapas não tenha sido desenvolvido em profundidade por Benjamin, sua obra pode ser entendida como uma espécie de mapeamento ou cartografia da modernidade.

O interesse de Benjamin pelo assunto pode ser identificado em diversos fragmentos de suas publicações, de maneira notória em trechos de Rua de mão única e no livro das Passagens. Essas menções estão ligadas, por exemplo, ao mapeamento de aspectos aparentemente banais de uma cidade. Benjamin sugere mapear não ruas, avenidas e igrejas – temas típicos de um mapa convencional – mas bancos de parque, cemitérios e bordéis – elementos da cidade que funcionam como índices diretamente ligados à sua memória subjetiva, às recordações da infância e à transição da modernidade no início do século XX. Benjamin também associa esse mapeamento à ação do flâneur, o caminhante da cidade que vagueia pelas ruas observando detalhes inusitados. Dessa maneira, Benjamin reforça a relevância do próprio processo de mapeamento na leitura da cidade, um procedimento que envolve tanto a ação do tempo quanto o deslocamento no espaço.

Para além de meras menções aos mapas e às metáforas topográficas, argumentamos que a afinidade de Benjamin pelo assunto acaba por se refletir na própria postura metodológica do autor, baseada principalmente na coleta de registros e na montagem de fragmentos, tendo a cidade como cenário de pesquisa. Assim, podemos levantar algumas questões: como o pensamento desse filósofo pode nos ajudar a refletir sobre a linguagem cartográfica? Quais seriam os critérios para se pensar um mapeamento capaz de contemplar uma visão crítica da cidade? Nosso objetivo principal é argumentar que o pensamento de Benjamin fornece caminhos metodológicos que podem ser utilizados na própria concepção de processos de mapeamento.

Identificamos que essa postura de Benjamin dialoga com uma vertente da cartografia conhecida como mapeamento profundo (deep mapping), tema que se encontra em debate no contexto tanto da geografia como da área conhecida como spatial humanities. Trata-se de uma abordagem emergente que se situa no cruzamento entre as áreas da cartografia e das ciências humanas, cujo objetivo é estudar lugares em profundidade através da mobilização de um conjunto mais amplo de informações geográficas, incluindo ficção, artes, narrativas e memórias. O grande desafio do mapeamento profundo consiste em traduzir tanto experiências qualitativas ligadas ao espaço – sensórias e mnêmicas – quanto conexões históricas temporalmente fragmentadas.

Em sintonia com o pesquisador Todd Presner, acreditamos na possibilidade de se pensar no processo de mapeamento profundo fundamentado na filosofia materialista e crítica desenvolvida por Walter Benjamin. Portanto, ao associarmos o pensamento de Benjamin à cartografia, buscamos um embasamento conceitual para propormos uma discussão sobre os processos que envolvem o mapeamento de lugares.

Benjaminiana 2017 – UFRJ

 

Benjamin em Nice, 1932

Esta semana tive o prazer de participar da Benjaminiana 2017: I Encontro de pesquisadores de Walter Benjamin. O evento ocorreu na Faculdade de Letras da UFRJ, entre os dias 6 e 8 de dezembro de 2017. Os resumos das apresentações estão disponíveis no site do evento.

Além das excelentes comunicações, destaco também as palestras do prof. Adalberto Müller, da UFF e do prof. Pedro Duarte, da PUC-Rio. Ambos propuseram reflexões sobre a obra de Benjamin aplicadas a objetos da nossa cultura. Em linhas gerais, o Adalberto falou sobre tradução em Benjamin, lembrando do trabalho pioneiro feito pelo Haroldo de Campos nessa área. Além disso, Adalberto sugeriu uma comparação muito legal: por que não pensarmos em Guimarães Rosa como o Narrador benjaminiano (já que Nikolai Leskov parece tão distante da nossa realidade)? Por sua vez, Pedro fez uma comparação muito interessante entre a Tropicália e a noção de Alegoria em Benjamin.

(Infelizmente, não consegui ver a última palestra, precisei sair mais cedo para o aeroporto).

Enfim, espero retornar no próximo encontro no ano que vem.

E essa foto do Benjamin felizão com a galera aí em cima?

O mercado e o espetáculo

Há poucos anos pensava-se o olhar político como uma alternativa. O mercado desacreditou esta atividade de uma maneira curiosa não apenas lutando contra ela, exibindo-se como mais eficaz para organizar as sociedades, mas também devorando-a, submetendo a política às regras do comércio e da publicidade, do espetáculo e da corrupção.

Néstor Canclini, há mais de 20 anos, no final dos anos 90. Como se estivesse falando de hoje.

CANCLINI, Néstor Garcia. consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1995. p. 20.

Art and cartography as a critique of borders

Segue o artigo que apresentei na 28th International Cartographic Conference, realizada em Washington D.C. em julho de 2017.

Art and cartography as a critique of borders

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RIBEIRO, D. M.. Art and Cartography as a Critique of Borders. In: 28th International Cartographic Conference proceedings, Washington D.C. 2017.

Abstract:

This study focuses on the relationship between art and cartography. The main objective is to analyze how contemporary art uses maps to criticize borders. Inspired by the arguments raised by the Critical Cartography against the false neutrality of maps, we emphasize the potential of artworks to communicate different insights about how we experience and live the contemporary space. In that sense, art plays an important role not only to discuss the articulation of power and knowledge in cartography, but also to propose other categories of thought. Considering that borders are one of the most relevant visual elements on a map, we propose the following question: how the intersection between art and cartography can improve the critical thinking about borders? By questioning borders, art underlines that physical world is characterized by liminal spaces, not by absolute or strict separations. We briefly analyzed some examples of artworks that deal with political issues regarding this topic. Our findings suggest that art could re- veal the impact of imposing borders in a space, whose arbitrary delimitation reflects power relations.

Keywords: Cartography, Borders, Liminal Spaces, Threshold, Art

Neste artigo, faço uma breve análise das seguintes obras:

Area Restringida, de Mateo Maté

Area Restringida, de Mateo Maté

UPOTIA, de Nicolas Desplats

UPOTIA, de Nicolas Desplats

The Green Line, Francis Alÿs

Cinco aflições de um estudante de doutorado

Vamos lá, direto ao ponto. Baseado em fatos empíricos.

1) A síndrome do impostor. É aquela sensação de que não sabemos o suficiente e que estamos, na verdade, enganando toda a comunidade acadêmica (que, muito em breve, irá nos desmascarar). Ou seja, quanto mais estudamos, menos sabemos.

2) O efeito montanha russa. Num dia, somos gênios, a tese é incrível e a certeza de que temos uma proposta realmente autêntica para a humanidade nos enche de vaidade. No dia seguinte, uma simples busca no Google Scholar nos revela um paper publicado há 5 anos ou uma outra tese propondo exatamente a mesma coisa que você, só que de uma maneira muito mais elegante e didática.

3) O paradoxo da empregabilidade. Em nosso caso (pelo menos na área de humanidades, eu acho), a conquista de um título não representa uma maior chance de se conseguir um emprego, pelo contrário. Sem contar que nossa atividade profissional depende diretamente de políticas governamentais, o que, no atual cenário, torna o futuro ainda mais desesperador.

4) Egothesiscentrismo, ou a nítida sensação de que todo o universo gira em torno da sua tese. É a premissa (ingênua) de que sua esposa, seu orientador, seu cachorro e todos os seus amigos sabem qual é a sua hipótese, seu objeto, sua questão de pesquisa, sua divisão de capítulos…

5) A maldição do Rolando Lero. A incapacidade de conseguir dizer para qualquer pessoa na rua, de maneira clara e objetiva, em uma frase, o que você estuda. Busquei superar essa síndrome. Mas, sempre que tentei, fiquei decepcionado com a minha performance. Acabei mudando a estratégia: quando que me perguntam numa festa de família, digo que estudo semiótica. Ou seja, nem a pessoa (nem eu) sabemos direito do que se trata. É uma maneira eficiente de encerrar o assunto.

Neste link, você encontra mais informações sobre esse tema.