Month: November 2007

O papel do livro sem papel

kindle

Muito tem sido discutido nas listas na internet sobre o “lançamento” do Kindle, o leitor portátil de livros da Amazon. Em paralelo às opiniões sobre o design do aparelho (para alguns, “quadrado e angular demais, semelhante a eletrônicos japoneses dos anos 80″), a restrição de formatos e até mesmo questões ambientais suscitadas pela redução do consumo de celulose, gostaria de debater o papel do livro (trocadilho proposital) em tempos de mobilidade e ubiqüidade.

Como podem notar, essas últimas semanas estou profundamente contaminado pelas reflexões trazidas pela Santaella no seu livro novo. Seguem alguns trechos:

“Depois da invenção de Gutenberg, durante pelo menos quatro séculos, a cultura do livro e do texto impresso reinou soberana. Estendendo-se do século XV ao XIX, essa foi a era das letras, na qual o texto escrito dominou como produtor e difusor do saber e da cultura. O livro impresso, feitos de registros facilmente duplicáveis e transmissíveis, transformou a informação em objeto transportável, rompendo com os mistérios do conhecimento reservado a poucos privilegiados, eruditos religiosos e nobres, e expandindo a capacidade de leitura.”

Bom, a questão mais superficial que aparece quando se fala em livros eletrônicos e leitura no computador, é a de que o livro tradicional tende a acabar ou ser substítuido por gadgets. Acho que todos sabemos que não é bem assim… Mais um trecho legal:

“Vale lembrar, ademais, que a perda da hegemonia do livro não significa que qualquer mídia possa substituí-lo. Se pudesse, o livro já teria desaparecido. Justamente porque não pode, os livros continuaram não só a existir, mas a se multiplicar. Na realidade, quando surge um novo meio de comunicação, ele não substitui o anterior ou os anteriores, mas provoca um refuncionalização no papel cultural que era desempenhado pelos meios precedentes. Via de regra, um período inicial de impacto é seguido por uma readaptação gradativa até que um novo desenho de funções se instale.”

SANTAELLA, Lucia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007.

A pintura não desapareceu com o advento da fotografia, que também não desapareceu com o surgimento do cinema, que também não desapareceu com a televisão e o vídeo. O livro está aí, e tais invenções (como o próprio Kindle), só reforçam o poder da mobilidade e a intensiva intimidade das interfaces computacionais em nosso cotidiano (quem já teve a oportunidade de brincar um pouco com o Iphone já sentiu isso de maneira muito evidente), mas, no entanto, sem a pretensão de engolir o hábito de ler no papel. Por outro lado, se os inventores do Kindle forem pretensiosos a esse ponto, logo o produto cairá em desuso.

Os gadgets introduzem novos comportamentos culturais para lidar com a informação. O foco, falando como arquiteto de informação, deve estar voltado justamente para identificar esses movimentos para pensar sempre em propostas mais adequadas de navegação e organização da informação.

Acho que não me sinto desconfortável em ler no computador.

Obs. pós-post: não deixem de ler abaixo o comentário do Thiago.

Estética da remixabilidade

Três leis básicas da cibercultura remix:

“1. A liberação do pólo de emissão: o excesso e a circulação virótica da informação representam a emergência de vozes e discursos anteriormente reprimidos pela edição de informação nas mídias de massa.

2. A rede está em todos os lugares. Trata-se do princípio de conectividade generalizada que teve início com a transformação do computador pessoal em computador coletivo, desde o surgimento da Internet, e o atual computador coletivo móvel nesta era da ubiqüidade e da computação pervasiva permitidas pelos celulares e redes wi-fi.

3. A lei da reconfiguração. Não apenas uma mídia reconfigura a outra, mas também modificam-se as estruturas sociais, as instituições e as práticas comunicacionais.”

Santaella, dialogando com André Lemos.

SANTAELLA, Lucia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007. P 270.

Seminário cidade em rede

Divulgação de um seminário com o pessoal da PUC-SP. Muito interessante, estarei lá!

MOTOMIX 2007
Mostra de Arte Multimídia MOTOMIX
Data: de 28 de novembro a 3 de dezembro
Onde: Cinemateca Brasileira
Endereço: Largo Senador Raul Cardoso, 207 Vila Clementino
SEMINÁRIO CIDADE EM REDE
http://www.motomix2007.com/blog2/

Programação

Ciclo de Palestras “Cidade em rede”

Quarta-feira 28 de novembro das 20h às 21h45
Maria Lúcia Santaella: “Imagens Líquidas”
Stanza: “Sensity”
Moderador: Fernando Velázquez

Quinta-feira 29 de novembro das 20h às 21h45
Marcos Ferreira dos Santos: “Os nomadismos e os fluxos no imaginário”
Nelson Brissac Peixoto: “Cidade em fluxo”
Moderador: Magaly Prado

Sexta-feira 30 de novembro das 20h às 21h45
Marcelo Tramontano: “A cidade e as novas mídias”
Lucia Leão: “Os Neo-nômades”
Moderador: Júlia Blumeschein

Visualização de dados dinâmicos

Tenho pesquisado bastante sobre visualização de dados dinâmicos. Acho que é um tema que se aproxima bastante da arquitetura e do design da informação, por tratar da organização da complexidade de novas maneiras.

Vejam alguns links muito interessantes:

Iconographic news headlines
Paula Scher: Maps series
Data visualisation of a social network
Generative art
Delicious discover

Dois ótimos sites com referências:
http://www.visualcomplexity.com
http://infosthetics.com/

Literatura cyberpunk

“De modo geral, as histórias cyberpunks estão alocadas em um futuro próximo em que é descrita uma sociedade caótica, governada por gangues de rua, corporações multinacionais e mercenários, todos residindo em megacidades, nas quais extrema pobreza e alta tecnologia usualmente coexistem. Nessa literatura, a tecnologia não é um privilégio das classes dominantes, mas, uma vez pirateada e transformada, é fundamentalmente subversiva, sempre corruptível para fins não previstos pelo poder. Ela é assim um meio de liberação por facilitar a sobrevivência física e financeira. As tecnologias cyberpunk são flexíveis, plásticas, comuns, sempre alojadas com segurança no corpo humano – wetware, software e hardware, todos ao mesmo tempo. Essa biologização da tecnologia permite ao cyberpunks conceber as tecnologias da comunicação (computadores, inteligência artificial, vida artificial, Internet, etc.) como componentes fundamentais (se não fundantes) da biosfera. (…) Os dois termos juntos, ciber e punk ‘referem-se ao casamento da subcultura high-tech com as culturas marginalizadas das ruas, ou à tecnoconsciência e à cultura que fundem tecnologia de ponta com a alteração dos sentidos, da mente e da vida presente nas subculturas boêmias.’”

SANTAELLA, Lucia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007. P.36

Arquiteturas líquidas

“No ciberespaço, qualquer informação e dados podem se tornar arquitetônicos e habitáveis, de modo que o ciberespaço e a arquitetura do ciberespaço são uma só e mesma coisa. Entretanto, trata-se de uma arquitetura líquida, que flutua. Por isso, o ciberespaço altera as maneiras pelas quais se concebe e percebe a arquitetura, de modo que torne nossa concepção da arquitetura cada vez mais musical. Pela primeira vez, o arquiteto não desenha um objeto, mas os princípios pelos quais o objeto é gerado e varia no tempo. (…) Uma arquitetura desmaterializada, dançante, difícil, etérea, temperamental, transmissível a todas as partes do mundo simultaneamente, só indiretamente tangível, feita de presenças sempre mutáveis, líquidas.”

SANTAELLA, Lucia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007. P. 17

Mobilidade: a era da conexão

Ontem brinquei um pouco com o Ipod Touch do Z. Muito legal, além da interface facílima de navegar com toques na tela, possui outros recursos além do “Mp3 player”, tais como integração com o Youtube, conexão Wi-fi e um browser.

ipod touch

Hoje estava lendo um artigo do André Lemos sobre Cibercultura e mobilidade, onde ele coloca alguns pontos interessantes:

“A cidade contemporânea torna-se, cada vez mais, uma cidade da mobilidade onde as tecnologias móveis passam a fazer parte de suas paisagens.”

“‘As tecnologias mais profundas são aquelas que desaparecem. Elas se entrelaçam no tecido da vida cotidiana até se tornarem indistinguíveis.’ (Weiser, 1991). Trata-se de colocar as máquinas e objetos computacionais imersos no cotidiano de forma onipresente (…) Trata-se de uma fusão, do surgimento de práticas híbridas entre espaço físico e o espaço eletrônico. Essa nova configuração vai disseminar práticas de nomadismo tecnológico onde as tecnologias tornam-se cada vez mais pervasivas, transparentes e ubíquas. A era da conexão configura a cultura da mobilidade contemporânea.”

“Pensar a sociedade é pensar em termos de territorializações e desterritorializações, em termos de mobilidade urbana, de não-lugares intercambiáveis, de cidades globais.”

LEMOS, André. Cibercultura e mobilidade: a era da conexão. IN: LEÃO, Lucia. (org.). Derivas: cartografias do ciberespaço. São Paulo: Annablume, 2004, 225p.

Ele também lança uma pergunta: “onde estamos quando nos conectamos à internet numa praça ou falamos no celular em meio à multidão das ruas?”. Esse debate também circunscreve questões sobre privacidade, espaço público e espaço privado. Com muita freqüência vemos e escutamos pessoas conversando em celulares sobre assuntos particulares em ambientes públicos de concentração de pessoas, como ônibus, elevadores e salas de espera. É legal notar que as outras pessoas não mais estranham esse fato, como alguns anos atrás. Simplesmente ignoram, ainda que no fundo fiquem “de orelhas em pé” na conversa alheia, como se pudessem fazer parte daquela história. E por que não poderiam, afinal compartilham o mesmo “espaço de fluxos“?

Outro fenômeno que eu acho bem legal vem da popularização dos mp3 players portáteis, que levam as pessoas a se “isolarem” da cidade quando estão em deslocamento com seus fones de ouvido. Como se a paisagem sonora dos Mp3 que nos acompanha a partir de agora aliviasse o desgaste dos congestionamentos e da poluição sonora das cidades.

Encanador da Informação

Parte da discussão do Ebai ficou em torno do do aprofundamento da definição de Arquitetura da Informação. Houve muitos questionamentos e outras interpretações sobre o termo enquanto área de estudo e campo profissional, o que eu achei ótimo, já que revelou uma postura crítica da comunidade de arquitetos em não repetir e aceitar as definições de poucos autores. (acompanhe os debates que estão rolando na lista de AI em português.)

Uma das críticas dizia que o Arquiteto da informação é, na verdade, o editor dos tradicionais veículos de comunicação. Dêem uma olhada nestes links:

Arquitetura da informação teoriza a web sem dar importância à função editorial
AI… ai, ai: APERTEM OS CINTOS, O EDITOR SUMIU

É uma posição polêmica e interessante, mas que no meu ponto de vista é restrita ao universo editorial e não reflete a atual condição da informação digital em rede. O papel do editor, nesse caso, pressupõe a internet como os tradicionais veículos de mídia.

Entendo “mídia” de outra forma. Algumas definições que considero interessantes:

“Mídias são meios, e meios, como o próprio nome diz, são simplesmente meios, isto é, suportes materiais, canais físicos, nos quais as linguagens se corporificam e através dos quais transitam. Por isso mesmo, o veículo, meio ou mídia de comunicação é o componente mais superficial, no sentido de ser aquele que primeiro aparece no processo comunicativo. (…) Veículos são meros canais, tecnologias que estariam esvaziadas de sentido não fossem as mensagens que nelas se configuram. (…) Embora sejam responsáveis pela multiplicação dos códigos e linguagens, meios continuam sendo meios. Deixar de ver isso e, ainda por cima, considerar que as mediações sociais vêm das mídias em si é incorrer em uma ingenuidade e equívoco epistemológicos básicos, pois a mediação primeira não vem das mídias, mas dos signos, linguagem e pensamento, que elas veiculam. (…) Quaisquer mídias são inseparáveis das formas de socialização e cultura que são capazes de criar, de modo que o advento de cada novo meio de comunicação traz consigo um ciclo cultural que lhe é próprio e que fica impregnado de todas as contradições que caracterizam o modo de produção econômica em que um tal ciclo cultural toma corpo.”

SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2ª. Ed. 2003. P. 117

O que eu quero dizer com isso: reconheço a importância e o papel da tecnologia (mídia) nos processos comunicacionais. Por outro lado, prefiro estudar e compreender a função do Arquiteto de Informação além do contexto editorial.

Quem é o editor do Delicious? Do Flickr? Da Wikipedia? Eu não acho que a internet se restringe às aplicações editoriais. Sei que elas existem e ainda predominam. Mas, por outro lado, ao pensar dessa forma, não exploramos todas as possibilidades oferecidas pela interatividade, colaboração, personalização e socialização da informação que a internet nos proporciona, qualidades únicas e particulares na história das mídias. Um exemplo: replicar o formato editorial de um jornal em um site é “fácil”, afinal, trata-se de algo muito mais parecido com um jornal, só que num suporte diferente. Em outras palavras: pensar a internet de maneira editorial funciona quando a encaramos como as outras mídias anteriores.

Interesso-me pela Arquitetura da informação como o campo de estudo que investiga as formas de organização e estruturação da informação no ciberespaço. Assim, tenho concordado cada vez mais com a idéia de que “internet não é prédio“.

Esses dias estou bastante influenciado pelas “Linguagens líquidas na era da mobilidade” e quero aprofundar na “Arquitetura líquida do ciberespaço“. Bom, se a informação é líquida, como foi citado no EBAI, ela escorre, vaza, entope, inunda. Acho que aí nós entramos, talvez não mais como Arquitetos da informação, e sim como “Encanadores da informação”.

Lá em Minas Gerais, encanadores também são conhecidos como “bombeiros”.