Month: September 2015

Arte e fotografia

Walter Benjamin

“Muito se escreveu, no passado, de moto tão sutil como estéril, sobre a questão de saber se a fotografia era ou não uma obra de arte, sem que se colocasse sequer a questão prévia de saber se a invenção da fotografia não havia alterado a própria natureza da arte.” (p. 191)

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012.

Armas e munições

Riga, Letônia

 

Tinha chegado a Riga para visitar uma amiga. Desconhecia a casa onde morara, a cidade, a língua. Ninguém me esperava, ninguém me conhecia. Andei duas horas sozinho pelas ruas. Nunca mais voltei a vê-las assim. De cada portal saía uma chama, de cada pedra angular saltavam centelhas, e cada bonde surgia como se fosse um carro de bombeiros. Ela podia a cada momento sair pelo portal, dobrar o ângulo da esquina, estar sentada no bonde. Mas eu teria a todo custo de ser o primeiro dos dois a ver o outro. Pois se ela tivesse aproximado de mim a mecha do seu olhar – eu explodiria com certeza como um depósito de munições.

BENJAMIN, Walter. Rua de mão única: infância berlinense: 1900. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.

A técnica do escritor em treze teses – Walter Benjamin

I – Quem quiser lançar-se a escrever uma obra de fôlego, instale-se comodamente e conceda a si próprio ao fim de cada dia de trabalho tudo aquilo que não prejudique a sua continuação.

II – Fale do que escreveu, se quiser, mas não leia nada a ninguém enquanto o trabalho estiver em curso. Toda a satisfação que daí possa retirar retardará o seu ritmo. Seguindo esse regime, o desejo crescente de comunicação acabará por ser um estímulo à conclusão.

III – Quanto às condições de trabalho, procure fugir à mediocridade da vida cotidiana. O meio sossego, acompanhado de ruídos pouco estimulantes, é degradante. Já o ruído de fundo de um estudo musical ou da confusão de vozes pode ser tão importante para o trabalho quanto o silêncio tangível da noite. Se este afina o ouvido interior, aqueles se tornam pedra de toque de uma dicção cuja riqueza consegue absorver em si até esses ruídos excêntricos.

IV – Evite servir-se do primeiro instrumento de trabalho que tenha à mão. É útil o apego pedante a determinados tipos de papel, canetas, tintas. Sem luxos, mas com a indispensável abundância desses utensílios.

V – Não deixe que nenhum pensamento passe por você incógnito, e use o seu bloco de notas com o mesmo rigor com que os serviços oficiais fazem o registro dos estrangeiros.

VI – Torne a sua caneta avessa à inspiração, e ela a atrairá a si com a força de um ímã. Quanto mais refletir antes de passa a escrito uma intuição, tanto mais amadurecida ela se te oferecerá. A fala conquista o pensamento, mas a escrita domina-o.

VII – Nunca deixe de escrever pelo fato de não o ocorrer mais nada. Um dos mandamentos da honra literária é o de interromper a escrita apenas quando há de respeitar uma hora marcada (uma refeição, um encontro) ou quando damos o trabalho por terminado.

VIII – Preencha os momentos de falta de inspiração passando a limpo o que já escreveu. Entretanto, a inspiração despertará.

IX – Nulla dies sine linea – mas semanas sim.

X – Nunca dê uma obra por acabada sem ter mergulhada nela uma vez mais, desde o serão até o nascer do dia.

XI – Não escreva a conclusão do trabalho no lugar onde habitualmente trabalha. Aí, perderia a coragem de fazê-lo.

XII – Graus da elaboração da obra: pensamento – estilo – escrita. A finalidade do pasar a limpo é a de que agora toda a atenção se concentre na caligrafia. O pensamento mata a inspiração, o estilo aprisiona o pensamento, a escrita recompensa o estilo.

XIII – A obra é a máscara mortuária da sua concepção.

BENJAMIN, Walter. Rua de mão única: infância berlinense: 1900. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.

A lógica do aprendizado

Pollock

“Aprender é adquirir um hábito. O que faz os homens aprenderem? Não meramente a visão daquilo que estão acostumados, mas perpétuas experiências novas, que os lança a um hábito de abandonar velhas ideias e formar novas.” (p. 142)

PEIRCE, Charles S. The New Elements of Mathematics, 4 vols., ed. EISELE, C. The Hague: Mouton, 1976.

Em outras palavras: aprender gera desconforto. A comodidade e o conservadorismo não fazem nada além de reforçar a mediocridade do mundo.

Segue um convite, portanto, a abrirmos os olhos para as qualidades ao nosso redor: uma experiência onde não há passado nem futuro, só o presente. A partir das qualidades, desse estado poroso, alimentamos nossa mente de novos signos para gerar novas conexões.

O crescimento requer o outro.