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A iconologia dos intervalos

Atlas Mnemosyne, Aby Warburg

A nossa experiência das imagens, ainda que monstruosas, deve ficar a cargo de uma verdadeira experimentação sobre a mesa de trabalho do pensador, do artista ou do historiador da arte. É isto que justifica um projeto como o atlas Mnemósine: que os monstros da Phantasie sejam ao mesmo tempo reconhecidos e criticados sobre a mesa de trabalho, ou de montagem, de um investigador capaz de fazer coincidir as imagens no laboratório de uma longa iconologia das civilizações. (p. 142)

DIDI-HUBERMAN, Georges. Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta. Lisboa: KKYM+ EAUM, 2013.

Redescobrindo Paul Otlet

Parece que novos pesquisadores estão redescobrindo o belga Paul Otlet como um dos pensadores que contribuiu de maneira mais relevante com o conceito de compartilhamento de documentos em rede. Em reportagem publicada hoje no New York Times, o jornalista Alex Wright traz uma nova reflexão sobre o autor, confira alguns trechos:

“In 1934, Otlet sketched out plans for a global network of computers (or “electric telescopes,” as he called them) that would allow people to search and browse through millions of interlinked documents, images, audio and video files. He described how people would use the devices to send messages to one another, share files and even congregate in online social networks. He called the whole thing a “réseau,” which might be translated as “network” — or arguably, ‘web.'”

“Although Otlet’s proto-Web relied on a patchwork of analog technologies like index cards and telegraph machines, it nonetheless anticipated the hyperlinked structure of today’s Web. ”

“Otlet’s version of hypertext held a few important advantages over today’s Web. For one thing, he saw a smarter kind of hyperlink. Whereas links on the Web today serve as a kind of mute bond between documents, Otlet envisioned links that carried meaning by, for example, annotating if particular documents agreed or disagreed with each other. That facility is notably lacking in the dumb logic of modern hyperlinks.”

Confira também este link: “International organisation and dissemination of knowledge : selected essays of Paul Otlet

Os filtros de informação

Leia mais sobre Douglas Engelbart.

O mundo digital “é o planeta nativo dos filtros de informação (…) Informação digital sem filtros é coisa que não existe, por razões que ficarão cada vez mais claras. À medida que parte cada vez maior da cultura se traduzir na linguagem digital de zeros e uns, esses filtros assumirão importância cada vez maior, ao mesmo tempo que seus papéis culturais se diversificarão cada vez mais, abrangendo entretenimento, política, jornalismo, educação e mais. O que se segue é uma tentativa de ver esses vários desenvolvimentos como exemplos de uma idéia mais ampla, uma nova forma cultural que paira em algum lugar entre meio e mensagem, uma metaforma que vive no submundo entre o produtor e o consumidor de informação. A interface é uma maneira de mapear esse território novo e estranho, um meio de nos orientarmos num ambiente desnorteante. Décadas atrás, Doug Engelbart e um punhado de outros visionários reconheceram que a explosão da informação poder ser tanto libertadora quanto destrutiva – e sem uma metaforma para nos guiar por esse espaço-informação, correríamos o risco de nos perder no excesso de informação.” (p. 33)

JOHNSON, Steven. Cultura da interface: como o computador transforma nossa maneira de criar e comunicar. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

Arquitetura da informação e estruturas hipertextuais

Desde um pouco antes do EBAI, tenho me interessado em investigar as mudanças e a evolução da arquitetura da informação a partir da introdução de novos conceitos descentralizados de organização da informação, como por exemplo a Folksonomia.

Vejam esses dois links, ajudam a situar um pouco o que eu estou dizendo:

a) Apresentação do Fred sobre o “samba do crioulo doido

b) Ontology is Overrated: Categories, Links, and Tags (acho até que já coloquei esse link aqui antes…)

Tenho visto muita gente estudar Ontologia e Web semântica em busca de uma solução para o problema do desordenamento e caos informacional e para a construção mais “inteligente” de dados articulados entre si. Acho que são estudos muito pertinentes, mas que se aplicam a universos restritos, como por exemplo, comunidades que compartilham vocabulários mais ou menos comuns, estruturas mais rígidas e hierárquicas de informação, etc.

Particularmente, tenho mais interesse em estudar estruturas e fenômenos bottom-up de navegação e organização da informação. Acho que modelos como a folksonomia refletem algo de muito valor, que é a “rede viva”, orgânica, fluida, construída e mantida pelos seus próprios usuários e entusiastas. Algo parecido com o movimento do software livre e o creative commons, no sentido de dar poder à própria comunidade de definir seus valores e rumos.

Sobre estruturas não hierárquicas e fluidas de navegação em conteúdo hipermídia, destaco mais um trecho das minhas recentes leituras:

As estruturas textuais modulares e as multitemáticas que usam uma variedade de modos de organização e cruzamentos de informações verbais e visuais, pensadas em estruturas multidimensionais, por seu lado, são mais representativas do hipertexto, em comparação a estruturas hierárquicas e lineares e alta coesão.

“Embora nada impeça que um hipertexto se estruture hierarquicamente, as estruturas modulares e multitemáticas é que são capazes de fazer jus ao seu potencial multidimensional. É esse potencial que tem levado muitos estudiosos a comparar o funcionamento por meio de conexões associativas do hipertexto com o modo como o cérebro trabalha, isto é, um tipo de organização que mimetiza a estrutura da memória. Evidentemente, esse funcionamento só se perfaz porque o design lógico de um hipertexto deve prever a margem de liberdade interativa do usuário. O que deve haver, portanto, é um equilíbrio entre os dispositivos de orientação para a leitura e o potencial para as escolhas poliseqüenciais do leitor. É em virtude disso que o labirinto tem sido a mais hábil entre todas as metáforas para descrever o hipertexto, pois no labirinto, o prazer de se perder só pode ser intensificado quando apoiado na expectativa persistente de que a promessa de um alvo a ser atingido será eventualmente cumprida.”

SANTAELLA, Lucia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007. P. 314.

Arquiteturas líquidas

“No ciberespaço, qualquer informação e dados podem se tornar arquitetônicos e habitáveis, de modo que o ciberespaço e a arquitetura do ciberespaço são uma só e mesma coisa. Entretanto, trata-se de uma arquitetura líquida, que flutua. Por isso, o ciberespaço altera as maneiras pelas quais se concebe e percebe a arquitetura, de modo que torne nossa concepção da arquitetura cada vez mais musical. Pela primeira vez, o arquiteto não desenha um objeto, mas os princípios pelos quais o objeto é gerado e varia no tempo. (…) Uma arquitetura desmaterializada, dançante, difícil, etérea, temperamental, transmissível a todas as partes do mundo simultaneamente, só indiretamente tangível, feita de presenças sempre mutáveis, líquidas.”

SANTAELLA, Lucia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007. P. 17

Cartografias em mutação

“Talvez o problema maior da biblioteca não seja o excesso de livros, mas sim a necessidade de novas cartografias. Cartografias mutantes, cartografias reveladoras. Cartografias tão flexíveis e coerentes com as nossas necessidades subjetivas e objetivas que, ao contrário do império borgiano, não as julgaremos inúteis, mas sim vitais para o processo de interação no ciberespaço.”

LEÃO, Lucia. Cartografias em mutação: por uma estética do banco de dados. In: LEÃO, Lucia (org.). Cibercultura 2.0. São Paulo: U.N. Nojosa, 2003.

As we may think

“Nossa incapacidade de obter um registro é amplamente causada pela artificialidade dos sistemas de indexação. Os dados de qualquer natureza, quando estocados, são arquivados numericamente ou alfabeticamente, e a informação é encontrada num movimento vertical de pesquisa, passando de subclasse em subclasse. O objeto pode estar apenas em um único lugar, a menos que cópias duplicadas sejam utilizadas. Deve haver regras para percorrer tais caminhos, no geral lentas e ineficientes.

A mente humana, por outro lado, não trabalha desta maneira. Ao tomar um item, somos levados instantaneamente a outro item que é sugerido pela imediata associação de pensamentos, de acordo com intrigadas redes de trilhas carregadas pelas células do nosso cérebro.

Por outro lado, o homem não espera duplicar, de maneira completa, esse processo mental artificialmente, mas certamente ele pode aprender algo com isso. A primeira idéia, por sua vez, pode ser desenhada a partir da analogia relativa à seleção. A seleção por associação, não por indexação, pode ser mecanizada. Não podemos esperar, por sua vez, velocidade e flexibilidade igual à mente ao seguir uma trilha associativa, mas poderia ser possível, decisivamente, bater a mente quanto à permanência (capacidade de retenção e memória) e quanto à clareza dos itens recuperados do armazenamento.”

Vannevar Bush, em 1945.

BUSH, Vannevar. As we may think. In: MONTFORT, Nick; WARDRIP-FUIN, Noah. (org.) The New Media Reader. London: MIT Press. 2003

1º Encontro Brasileiro de Arquitetura da Informação

Este final de semana aqui em SP vai o rolar o 1º Encontro Brasileiro de Arquitetura da Informação.

Banner do 1º Encontro Brasileiro de Arquitetura da Informação

Trata-se de uma excelente iniciativa da comunidade de AI brasileira. Enfim vamos reunir todo o pessoal que só conheço pelo Gmail. A proposta é organizarmos um evento atutal, nos moldes do IA Summit e assim nos mobilizar sempre para a discussão e a troca de experiências.

Escrevi um artigo para este evento e fui selecionado para fazer uma palestra. Fiquei muito feliz, não estava com tantas esperanças. Achei que meu artigo estava um pouco superficial, mas recebi bons “feedbacks” da comissão revisora, o que me deixou mais empolgado.

Vou tratar do tema “Personalização e colaboração na Web 2.0: novos caminhos para a Arquitetura da Informação”. Segue abaixo o resumo:

“Este estudo posiciona a Arquitetura da Informação no contexto da chamada “Web 2.0”, tendo em vista a tendência de colaboração e personalização da informação. Para isso, pretende discutir o conceito de interface cultural para expressão de novos valores da cultura contemporânea, apontando modelos de navegação e organização de conteúdo na Internet. ”

Segue abaixo a minha apresentação:

Paul Otlet

Wikipedia:

Paul Otlet (b. August 23, 1868, BelgiumDecember 10, 1944) was the founding father of documentation, the field of study now more commonly referred to as information science. He created the Universal Decimal Classification, one of the most prominent examples of faceted classification. Otlet was responsible for the widespread adoption in Europe of the standard American 3×5 inch index card used until recently in most library catalogs around the world, though largely displaced by the advent of online public access catalogs (OPAC). Otlet wrote numerous essays on how to collect and organize the world’s knowledge, culminating in two books, the Traité de documentation (1934) and Monde: Essai d’universalisme (1935).

Otlet, along with his friend and colleague Henri La Fontaine, founded the now-bankrupt Institut International de Bibliographie in 1895 which later became in English the International Federation for Information and Documentation (FID). In 1910, following a huge international conference, they created the Union of International Associations, which is still located in Brussels. They also created a great international center called at first Palais Mondial (World Palace), later, the Mundaneum to house the collections and activities of their various organizations and institutes.”