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A arqueologia benjaminiana para iluminar o presente midiático

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Artigo que escrevi junto com a profa. Lucia Santaella sobre a arqueologia em Walter Benjamin. O artigo foi publicado no livro da Compós, edição de 2017.

Aprendi muito ao escrever esse artigo. Sinto-me cada vez mais envolvido com a filosofia de Walter Benjamin. Espero que gostem!

Resumo:

Entende-se a arqueologia como a ciência das ruínas que recupera fragmentos soterrados em busca de novas interpretações da história. A investigação arqueológica pode nos conduzir a uma reconstrução do nosso próprio presente, uma vez que estabelece novas conexões com o passado. Segundo Benjamin, essas conexões surgem como um “lampejo” a partir de uma tensão dialética de caráter temporal. A esse “lampejo”, Benjamin deu o nome de “imagem dialética”. Assim, defendemos a hipótese de que as imagens podem ser instrumentos heurísticos de representação da realidade, evidenciando propriedades anacrônicas da cultura. Dessa maneira, reforçamos que a postura crítica de Benjamin em relação à história gera profundas implicações para os estudos da comunicação.

SANTAELLA, Lucia. RIBEIRO, Daniel Melo. A arqueologia benjaminiana para iluminar o presente midiático. In: MUSSE, Christina Ferraz; SILVA, Herom Vargas; NICOLAU, Marcos Antonio. Comunicação, mídias e temporalidades. Edufba; Brasília, Compós, 2017. ISBN 978-85-232-1592-7.

Documentos de cultura, documentos de barbárie

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PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO QUE LÊ
Brecht, 1935

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?

A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam
gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou?

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou,
quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.

 

Imagem dialética, imagem sobrevivente

Rue Jeanne d'Arc, 13ème arrondissement, Paris

Rue Jeanne d’Arc, 13ème arrondissement, Paris

“A imagem dialética à qual nos convida Benjamin consiste, antes, em fazer surgirem os momentos inestimáveis que sobrevivem, que resistem a tal organização de valores, fazendo-a explodir em momentos de surpresa. Busquemos, então, as experiências que se transmitem ainda para além de todos os espetáculos comprados e vendidos a nossa volta (…) Somos ‘pobres em experiência’? Façamos dessa mesma pobreza – dessa semiescuridão – uma experiência.(…) O valor da experiência caiu de cotação, mas cabe somente a nós, em cada situação particular, erguer essa queda à dignidade, à nova beleza de uma coreografia, de uma invenção de formas. Não assume a imagem, em sua própria fragilidade, em sua intermitência de vaga-lume, a mesma potência, cada vez que ela nos mostra sua capacidade de reaparecer, de sobreviver?”

DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. P. 127

Uma análise semiótica dos mapas da “Guerra dos Tronos”

Nesta semana, apresentei um artigo no V ComCult, congresso organizado pelos colegas do CISC que ocorreu na Cásper Libero. Vi muitas pesquisas excelentes, pena que não pude acompanhar todo os dias do congresso.

Segue o resumo da minha apresentação. O artigo completo está disponível aqui.

The North of Westeros, by J.E. Fullerton

Cartografia Literária: uma abordagem Cartossemiótica sobre A Guerra dos Tronos

Resumo
A cartografia é a ciência que estuda a representação do espaço, cujo principal objeto de investigação é o mapa. Por sua vez, a cartografia literária é o ramo de estudos que investiga as relações dos mapas com o espaço dos textos literários. Neste artigo, é feita uma breve análise semiótica de um dos mapas da série A Guerra dos Tronos. A metodologia de análise está baseada na teoria dos signos desenvolvida por Charles Peirce. A semiótica de Peirce afirma que os mapas se constituem como um tipo especial de signo que pode revelar analogias estruturais do objeto representado. Assim, parte-se da hipótese de que os mapas literários tornam visíveis as articulações descritas na narrativa e funcionam como dispositivos de raciocínio.

Palavras-chave: Mapas. Semiótica. Literatura. Cartografia. A Guerra dos Tronos.

O limiar extremo, ou a fronteira da morte

The Walter Benjamin Memorial, em Portbou

“A última fronteira nesta viagem é uma fronteira real. Regresso a Port Bou, 26 de Setembro de 1940, ao limiar absoluto perante o qual Benjamin, fugitivo a caminho de uma terra americana prometida, mas não verdadeiramente desejada, se viu na última fronteira, num lugar no qual é possível encontrar hoje uma obra que será uma das mais conseguidas réplicas do pensamento suspenso, da busca de limiares e da permanência neles como terreno mais fértil desse tipo de pensamento num autor como Benjamin.

No memorial do israelita Dani Karavan, suspenso sobre o mar à entrada do cemitério de Port Bou (nos Pirinéus Orientais), onde Benjamin estará enterrado, materializou-se, na fronteira, a ideia do limiar. Aí, limiar e fronteira confundem- se, encontram-se de novo. Benjamin, o pensador dos limiares, transpôs o derradeiro num lugar de fronteira.

O memorial, no adro do cemitério, é basicamente constituído por um túnel inclinado, de secção rectangular, que desemboca sobre o mar, por um muro em frente da entrada que funciona como estela para receber as pedrinhas que encontramos nos cemitérios judeus e, mais acima na encosta, por um caminho que vai dar a uma velha oliveira.” (p. 50)

BARRENTO, João. Walter Benjamin: limiar, fronteira e método. Olho d’água, v. 4, n. 2, 2013.

 

L’image survivante

Prancha do Altas Mnemosyne, de Warburg

“As sobrevivências advêm como imagens: é essa a hipótese warburguiana sobre a longevidade ocidental e sobre as ‘linhas divisórias entre as culturas’ (o que permitiria, por exemplo, reconhecer na substância imagética de um afresco do quattrocento italiano o fantasma ativo e sobrevivente de um antigo astrólogo árabe). As sobrevivências advêm como imagens: é isso que exige de nós algo além de uma simples história da arte. Warburg desenvolveu toda a sua ideia das imagens sobreviventes na óptica – sempre nietzschiana – de uma genealogia das semelhanças, ou seja, de um modo autenticamente crítico de contemplar o devir das formas, contrariando toda sorte de teleologias, positivismos e utilitarismos.” (p. 152)

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: História da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

A realidade insiste

Desabafo acadêmico: já estou na versão 25 do meu projeto de pesquisa (e contando). Após quase um ano, já visitei alguns amigos por aí: Stuart Hall, Michel Maffesoli, Morin, fui e voltei em Deleuze, Foucault, Didi-Huberman…  Uma hora eu acho um amigo para brincar com Peirce.

“Boy, you gonna carry that weight. For a long time.”

É fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?

philosoraptor

“O espetáculo, como a sociedade moderna, está ao mesmo tempo unido e dividido. Como a sociedade, ele constrói sua unidade sobre o esfacelamento. Mas a contradição, quando emerge no espetáculo, é, por sua vez, desmentida por uma inversão de seu sentido; de modo que a divisão é mostrada unitária, ao passo que a unidade é mostrada divida.” (p. 37)

Ganha um biscoito tostines quem conseguir me explicar o que esse cara disse.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de janeiro: Contraponto, v. 102, p. 85-102, 1997.

O embate teórico

Stuart Hall

“A única teoria que vale a pena reter é aquela que você tem de contestar, não a que você fala com profunda fluência.”

“Lembro-me de ter lutado com Althusser. Lembro-me de, ao ver a ideia de ‘prática teórica’ em Lendo o Capital, pensar: ‘já li o suficiente’. Disse a mim mesmo: não cederei um milímetro a esta tradução pós-estruturalista mal feita do marxismo clássico, a não ser que ela consiga me vencer, a não ser que consiga me derrotar no espírito. Terá que caminhar sobre o meu cadáver para me convencer. Declarei-lhe guerra, até a morte.”

HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. (p. 204)

O trecho acima foi retirado de um ensaio de Hall sobre os legados teóricos dos estudos culturais. Hall descreve como as pesquisas do CCCS de Birmingham haviam herdado marcos conceituais do marxismo, como as noções de poder e exploração, classe social, política e teoria econômica. Por outro lado, o próprio marxismo foi motivo de questionamento por parte dos pesquisadores do centro, principalmente por seu caráter doutrinário, determinista e eurocentrista.

A citação demonstra, ao mesmo tempo, uma postura interessante do autor para com seus “anjos”: um respeito que convive com uma contestação crítica quase “petulante.”

Taí uma postura que ainda preciso desenvolver: olhar para uma obra e um autor com a devida consideração, mas, ao mesmo tempo, desejar derrubá-la e criticá-la.

Em fevereiro de 2014, ele faleceu, aos 82 anos.

E aí, já encontrou seu ‘embate teórico’?

Codificação e decodificação

“A realidade existe fora da linguagem, mas é constantemente mediada pela linguagem ou através dela: e o que nós podemos saber e dizer tem de ser produzido no discurso e através dele. O ‘conhecimento’ discursivo é o produto não da transparente representação do ‘real’ na linguagem, mas da articulação da linguagem em condições e relações reais. Assim, não há discurso inteligível sem a operação de um código. Os signos icônicos são, portanto, signos codificados também – mesmo que aqui os códigos trabalhem de forma diferente daquela de outros signos. Não há grau zero em linguagem. Naturalismo e ‘realismo’ – a aparente fidelidade da representação à coisa ou ao conceito representado – é o resultado, o efeito, de uma certa articulação específica da linguagem sobre o ‘real’. É o resultado de uma prática discursiva.”

HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

Neste trecho, Hall dialoga, de maneira explícita, com a Semiótica de Peirce para descrever seu modelo de codificação e decodificação dos meios de comunicação.

Fiquei um pouco aliviado em saber disso… Estava um pouco aflito em usar ambos os autores na minha tese, pois achava que se tratava de duas correntes bem disconexas.

Conhecendo um pouco melhor o histórico de Hall, isso parece começar a fazer algum sentido. Afinal, sua formação acadêmica foi na área linguística.