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Cinco aflições de um estudante de doutorado

Vamos lá, direto ao ponto. Baseado em fatos empíricos.

1) A síndrome do impostor. É aquela sensação de que não sabemos o suficiente e que estamos, na verdade, enganando toda a comunidade acadêmica (que, muito em breve, irá nos desmascarar). Ou seja, quanto mais estudamos, menos sabemos.

2) O efeito montanha russa. Num dia, somos gênios, a tese é incrível e a certeza de que temos uma proposta realmente autêntica para a humanidade nos enche de vaidade. No dia seguinte, uma simples busca no Google Scholar nos revela um paper publicado há 5 anos ou uma outra tese propondo exatamente a mesma coisa que você, só que de uma maneira muito mais elegante e didática.

3) O paradoxo da empregabilidade. Em nosso caso (pelo menos na área de humanidades, eu acho), a conquista de um título não representa uma maior chance de se conseguir um emprego, pelo contrário. Sem contar que nossa atividade profissional depende diretamente de políticas governamentais, o que, no atual cenário, torna o futuro ainda mais desesperador.

4) Egothesiscentrismo, ou a nítida sensação de que todo o universo gira em torno da sua tese. É a premissa (ingênua) de que sua esposa, seu orientador, seu cachorro e todos os seus amigos sabem qual é a sua hipótese, seu objeto, sua questão de pesquisa, sua divisão de capítulos…

5) A maldição do Rolando Lero. A incapacidade de conseguir dizer para qualquer pessoa na rua, de maneira clara e objetiva, em uma frase, o que você estuda. Busquei superar essa síndrome. Mas, sempre que tentei, fiquei decepcionado com a minha performance. Acabei mudando a estratégia: quando que me perguntam numa festa de família, digo que estudo semiótica. Ou seja, nem a pessoa (nem eu) sabemos direito do que se trata. É uma maneira eficiente de encerrar o assunto.

Neste link, você encontra mais informações sobre esse tema.

 

O Anjo da História

Angelus Novus, Paul Klee

Tese sobre a História número 9, de Walter Benjamin.

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Nele está desenhado um anjo que parece estar na iminência de se afastar de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, seu queixo caído e suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu semblante está voltado para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as arremessa a seus pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que o anjo não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele volta as costas, enquanto o amontoado de ruínas diante dele cresce até o céu. É a essa tempestade que chamamos progresso.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012.

Escrevo isso algumas horas do domingo, 17 de abril, na iminência de um dia que será, inevitavelmente, catastrófico para nossa história política. Espero que Benjamin e o seu Anjo da História possam nos ajudar a iluminar esse acúmulo de ruínas aos nossos pés, em nome de um suposto progresso que não passa, na verdade, de uma ilusão e de um golpe. Como diria o próprio Benjamin, devemos lutar contra essa noção positivista de progresso e despertar, através de um olhar para o passado, as centelhas da esperança. “Tampouco os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.” (p. 244)

Mapas medievais

Mapa T, Isidoro de Sevilha

Pietro Vesconte mappamundi

“O mapa compreende qualitativamente o espaço. Ele se funda sobre ideias de hierarquia, de correspondência, de oposição; ele provoca uma leitura tendenciosa – à maneira, diz-se, da heráldica. Ele é assim peregrinação interior. A riqueza da tradição cartográfica medieval não resulta menos de sua extrema diversidade: por vez na visão da representação, e na forma geral que lhe é dada. Ela manifesta a variedade de pontos de vista determinando a percepção como também a concepção do espaço. Em outros termos, entre os diversos tipos de mapas medievais, a diferença é mais semântica do que formal. A figuração tende menos a uma veracidade absoluta que a uma utilidade particular, relativa a uma situação. Essa instabilidade aparece tão natural ao espírito desse tempo que os manuscritos onde a mesma mão desenha mapas de aparência contraditória não são raros.” (p. 322)

ZUMTHOR, Paul. La mesure du monde: representation de l’espace au moyen âge. Paris: éditions du seuil, 1993.

O caráter narrativo dos mapas medievais foi suprimido pela emergência de uma linguagem cartográfica com pretensões científicas. Creio que a arte contemporânea tenha resgatado um pouco dessa abertura narrativa, resgatando, portanto, o imaginário ficcional sobre o espaço que foi reprimido por tanto tempo.

Documentos de cultura, documentos de barbárie

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PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO QUE LÊ
Brecht, 1935

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?

A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam
gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou?

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou,
quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.

 

Imagem dialética, imagem sobrevivente

Rue Jeanne d'Arc, 13ème arrondissement, Paris

Rue Jeanne d’Arc, 13ème arrondissement, Paris

“A imagem dialética à qual nos convida Benjamin consiste, antes, em fazer surgirem os momentos inestimáveis que sobrevivem, que resistem a tal organização de valores, fazendo-a explodir em momentos de surpresa. Busquemos, então, as experiências que se transmitem ainda para além de todos os espetáculos comprados e vendidos a nossa volta (…) Somos ‘pobres em experiência’? Façamos dessa mesma pobreza – dessa semiescuridão – uma experiência.(…) O valor da experiência caiu de cotação, mas cabe somente a nós, em cada situação particular, erguer essa queda à dignidade, à nova beleza de uma coreografia, de uma invenção de formas. Não assume a imagem, em sua própria fragilidade, em sua intermitência de vaga-lume, a mesma potência, cada vez que ela nos mostra sua capacidade de reaparecer, de sobreviver?”

DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. P. 127

Uma análise semiótica dos mapas da “Guerra dos Tronos”

Nesta semana, apresentei um artigo no V ComCult, congresso organizado pelos colegas do CISC que ocorreu na Cásper Libero. Vi muitas pesquisas excelentes, pena que não pude acompanhar todo os dias do congresso.

Segue o resumo da minha apresentação. O artigo completo está disponível aqui.

The North of Westeros, by J.E. Fullerton

Cartografia Literária: uma abordagem Cartossemiótica sobre A Guerra dos Tronos

Resumo
A cartografia é a ciência que estuda a representação do espaço, cujo principal objeto de investigação é o mapa. Por sua vez, a cartografia literária é o ramo de estudos que investiga as relações dos mapas com o espaço dos textos literários. Neste artigo, é feita uma breve análise semiótica de um dos mapas da série A Guerra dos Tronos. A metodologia de análise está baseada na teoria dos signos desenvolvida por Charles Peirce. A semiótica de Peirce afirma que os mapas se constituem como um tipo especial de signo que pode revelar analogias estruturais do objeto representado. Assim, parte-se da hipótese de que os mapas literários tornam visíveis as articulações descritas na narrativa e funcionam como dispositivos de raciocínio.

Palavras-chave: Mapas. Semiótica. Literatura. Cartografia. A Guerra dos Tronos.

O limiar extremo, ou a fronteira da morte

The Walter Benjamin Memorial, em Portbou

“A última fronteira nesta viagem é uma fronteira real. Regresso a Port Bou, 26 de Setembro de 1940, ao limiar absoluto perante o qual Benjamin, fugitivo a caminho de uma terra americana prometida, mas não verdadeiramente desejada, se viu na última fronteira, num lugar no qual é possível encontrar hoje uma obra que será uma das mais conseguidas réplicas do pensamento suspenso, da busca de limiares e da permanência neles como terreno mais fértil desse tipo de pensamento num autor como Benjamin.

No memorial do israelita Dani Karavan, suspenso sobre o mar à entrada do cemitério de Port Bou (nos Pirinéus Orientais), onde Benjamin estará enterrado, materializou-se, na fronteira, a ideia do limiar. Aí, limiar e fronteira confundem- se, encontram-se de novo. Benjamin, o pensador dos limiares, transpôs o derradeiro num lugar de fronteira.

O memorial, no adro do cemitério, é basicamente constituído por um túnel inclinado, de secção rectangular, que desemboca sobre o mar, por um muro em frente da entrada que funciona como estela para receber as pedrinhas que encontramos nos cemitérios judeus e, mais acima na encosta, por um caminho que vai dar a uma velha oliveira.” (p. 50)

BARRENTO, João. Walter Benjamin: limiar, fronteira e método. Olho d’água, v. 4, n. 2, 2013.

 

L’image survivante

Prancha do Altas Mnemosyne, de Warburg

“As sobrevivências advêm como imagens: é essa a hipótese warburguiana sobre a longevidade ocidental e sobre as ‘linhas divisórias entre as culturas’ (o que permitiria, por exemplo, reconhecer na substância imagética de um afresco do quattrocento italiano o fantasma ativo e sobrevivente de um antigo astrólogo árabe). As sobrevivências advêm como imagens: é isso que exige de nós algo além de uma simples história da arte. Warburg desenvolveu toda a sua ideia das imagens sobreviventes na óptica – sempre nietzschiana – de uma genealogia das semelhanças, ou seja, de um modo autenticamente crítico de contemplar o devir das formas, contrariando toda sorte de teleologias, positivismos e utilitarismos.” (p. 152)

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: História da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

A técnica do escritor em treze teses – Walter Benjamin

I – Quem quiser lançar-se a escrever uma obra de fôlego, instale-se comodamente e conceda a si próprio ao fim de cada dia de trabalho tudo aquilo que não prejudique a sua continuação.

II – Fale do que escreveu, se quiser, mas não leia nada a ninguém enquanto o trabalho estiver em curso. Toda a satisfação que daí possa retirar retardará o seu ritmo. Seguindo esse regime, o desejo crescente de comunicação acabará por ser um estímulo à conclusão.

III – Quanto às condições de trabalho, procure fugir à mediocridade da vida cotidiana. O meio sossego, acompanhado de ruídos pouco estimulantes, é degradante. Já o ruído de fundo de um estudo musical ou da confusão de vozes pode ser tão importante para o trabalho quanto o silêncio tangível da noite. Se este afina o ouvido interior, aqueles se tornam pedra de toque de uma dicção cuja riqueza consegue absorver em si até esses ruídos excêntricos.

IV – Evite servir-se do primeiro instrumento de trabalho que tenha à mão. É útil o apego pedante a determinados tipos de papel, canetas, tintas. Sem luxos, mas com a indispensável abundância desses utensílios.

V – Não deixe que nenhum pensamento passe por você incógnito, e use o seu bloco de notas com o mesmo rigor com que os serviços oficiais fazem o registro dos estrangeiros.

VI – Torne a sua caneta avessa à inspiração, e ela a atrairá a si com a força de um ímã. Quanto mais refletir antes de passa a escrito uma intuição, tanto mais amadurecida ela se te oferecerá. A fala conquista o pensamento, mas a escrita domina-o.

VII – Nunca deixe de escrever pelo fato de não o ocorrer mais nada. Um dos mandamentos da honra literária é o de interromper a escrita apenas quando há de respeitar uma hora marcada (uma refeição, um encontro) ou quando damos o trabalho por terminado.

VIII – Preencha os momentos de falta de inspiração passando a limpo o que já escreveu. Entretanto, a inspiração despertará.

IX – Nulla dies sine linea – mas semanas sim.

X – Nunca dê uma obra por acabada sem ter mergulhada nela uma vez mais, desde o serão até o nascer do dia.

XI – Não escreva a conclusão do trabalho no lugar onde habitualmente trabalha. Aí, perderia a coragem de fazê-lo.

XII – Graus da elaboração da obra: pensamento – estilo – escrita. A finalidade do pasar a limpo é a de que agora toda a atenção se concentre na caligrafia. O pensamento mata a inspiração, o estilo aprisiona o pensamento, a escrita recompensa o estilo.

XIII – A obra é a máscara mortuária da sua concepção.

BENJAMIN, Walter. Rua de mão única: infância berlinense: 1900. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.