Arquivo mensais:janeiro 2008

The information becomes the interface

Iphone screen

Tufte faz uma breve análise da interface touch-screen do iphone. Em seguida, ele apresenta alguns conceitos de distribuição e visualização de informação em ambientes interativos, detalhados em seu livro Visual Explanations (1997).

Destaco alguns pontos interessantes:

– Se a informação é caótica, não comece simplesmente “jogando” informações. Ao invés disso, torne o design mais apropriado.
– Um erro comum: a arquitetura de informação mimetizar a estrutura hierárquica da burocracia que produz o design.
– Dedicar grande parte da interface a comandos de administração, e não ao conteúdo que realmente interessa.

“The iPhone platform elegantly solves the design problem of small screens by greatly intensifying the information resolution of each displayed page. Small screens, as on traditional cell phones, show very little information per screen, which in turn leads to deep hierarchies of stacked-up thin information–too often leaving users with “Where am I?” puzzles. Better to have users looking over material adjacent in space rather than stacked in time.”

A interface gráfica bottom-up

“Os princípios do design por trás da interface gráfica basearam-se em previsões a cerca das faculdades gerais dos sistemas humanos cognitivos e perceptuais. Por exemplo, nossa memória espacial é mais poderosa do que a textual; portanto, as interfaces gráficas enfatizam ícones em detrimento de comandos. Temos um talento natural para pensamento associativo, graças às formidáveis habilidades da rede distribuída do cérebro em comparar padrões; portanto a interface gráfica tomou emprestadas as metáforas visuais do mundo real: áreas de trabalho, pastas e arquivos, lixeiras. Assim como algumas drogas são projetadas especificamente para desbloquear a neuroquímica de nossa massa cinzenta, a interface gráfica foi desenhada para explorar os talentos inatos da mente humana e confiar o mínimo possível em nossas deficiências. (…)

Na verdade, os talentos da leitura de mentes da interface gráfica são impiedosamente genéricos. Janelas rolantes e metáforas de áreas de trabalho são baseadas em previsões sobre a mente humana, não a mente de um usuário específico. São teorias de tamanho-único-para-todos e lhes falta qualquer mecanismo real de feedback que as torne mais familiarizadas com as aptidões específicas de um usuário específico. Além disso, suas previsões são decididamente um produto de engenharia top-down. O software não aprendeu sozinho que somos uma espécie visual; pesquisadores na Xerox-PARC e no MIT já tinham conhecimento de nossa memória visual e usaram esse conhecimento para criar a primeira geração de metáforas espaciais. Essas limitações, porém, logo terão o destino dos tubos a vácuo dos cartões perfurados. Nosso software desenvolverá modelos evoluídos e com nuances dos nossos estados mentais, e esse conhecimento emergirá de um sistema bottom-up.”

JOHNSON, Steven. Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. P. 154

Convergência, metadados e auto-organização

“O papel mais significativo da Web em tudo isso não envolverá sua capacidade de escoar imagens de vídeo de alta qualidade o ecoar estrondos de som surround; de fato é bem possível que o conteúdo real da revolução da convergência chegue por meio de alguma outra plataforma de transmissão. Por sua vez, a Web contribuirá com os metadados que permitirão a auto-organização desses grupos. Ela será o armazém central e o mercado para todos os nossos padrões de comportamento mediado. (…) os consumidores poderão explorar por si mesmos esse monte de produtos, para criar mapas comunitários de todos os entretenimentos e dados disponíveis on-line. (…) O grupo construirá uma teoria de sua mente, e essa teoria será um projeto de grupo, reunido pela Web a partir de um inimaginável número de decisões isoladas. Cada teoria e cada grupo serão mais especializados do que qualquer coisa que já tenhamos experimentado no mundo top-down dos meios de comunicação. Essas habilidades de leitura de mentes surgirão porque, pela primeira vez, nossos padrões de comportamento serão expostos – como as calçadas com que começamos – para o espaço público compartilhado da própria Web.” (p. 165)

JOHNSON, Steven. Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. P. 164-165

Cérebros, cidades e softwares

Um trecho longo, mas, seu eu fosse você, não deixava de ler.

“A seleção natural nos dotou com ferramentas cognitivas equipadas unicamente para lidar com a complexidade social dos grupos da Idade da Pedra nas savanas da África, mas, quando a revolução da agricultura introduziu as primeiras cidades ao longo das margens dos rios Tigre e Eufrates, a mente do Homo sapiens naturalmente se ressentiu, diante do tamanho dessas populações. Uma mente equipada para lidar com os feitos de menos de duzentos indivíduos encontrou-se de repente imersa em uma comunidade de 10 ou 20 mil indivíduos. Para resolver esse problema, de novo nos apoiamos nos poderes da emergência, embora a solução tenha acontecido num nível acima do cérebro humano individual: em vez de olhar para enxames de neurônios para lidar com a complexidade social, olhamos para enxames de seres humanos. (…) Administrar a complexidade tornou-se um problema a ser resolvido no nível da própria cidade.

Durante a última década, passamos a experimentar um outro patamar. Atualmente, estamos conectados a centenas de milhões de pessoas através do vasto labirinto da World Wide Web. Uma comunidade dessa escala requer uma nova solução, além de nossos cérebros e de nossas calçadas, mas novamente procuramos na auto-organização as ferramentas, desta vez construídas a partir de conjuntos de instruções de programas de software. (…)A cidade nos permitiu ver padrões de comportamento de grupo, registrando e expondo esses padrões sob a forma de comunidades. Atualmente, o mais moderno programa percorre a Web procurando padrões de atividade online, usando feedback e ferramentas que comparam padrões equivalentes para encontrar vizinhos em uma população inacreditavelmente vasta. À primeira vista, essas três soluções – cérebros, cidades e software – pareceriam pertencer a ordens de experiência completamente diferentes. Porém, são somente instâncias da auto-organização funcionando, interações locais levando à ordem global.”

JOHNSON, Steven. Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. P. 152

Autoconsciente

Seguindo com minhas leituras de final de semana, um post meio filosófico demais, mas interessante.

“Provavelmente somos conscientes de nossos próprios pensamentos apenas porque primeiro desenvolvemos a capacidade de imaginar os pensamentos dos outros. Uma mente que não consegue imaginar os estados mentais externos é como uma mente de uma criança de três anos que projeta seu próprio conhecimento para todos em volta. (…) Porém, como os filósofos há tempos notaram, ser autoconsciente significa reconhecer os limites da individualidade. Não podemos voltar atrás e refletir sobre os nossos próprios pensamentos sem reconhecer que nossos pensamentos são finitos e que outras combinações de pensamentos são possíveis. (…) Sem esses limites, certamente teríamos consciência do mundo em algum sentido básico – só que não teríamos consciência de nós mesmos, pois não teríamos nada com que nos comparar. O eu e o mundo não seriam distinguíveis.”

JOHNSON, Steven. Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. p. 148-149

O nível da rua

“Aqui, o elemento chave é a importância das calçadas, não porque proporcionem uma alternativa ecológica confiável às rodovias (embora isso seja verdade), nem porque andar é um exercício melhor do que dirigir um automóvel (o que também é verdade, aliás), nem porque as cidades centradas em pedestres sejam graciosamente antiquadas (o que é mais uma questão de moda do que uma evidência empírica). (…) O que importa é que elas são as condutoras primárias do fluxo de informações entre os habitantes. Os vizinhos aprendem uns com os outros porque passam uns pelos outros – e pelas lojas e moradia dos outros – nas calçadas. Elas permitem uma banda de comunicação relativamente larga entre totais estranhos e misturam grande número de indivíduos em configurações acidentais. Sem as calçadas as cidades seriam como formigas sem o sentido do olfato ou uma colônia com um número muito reduzido de operárias. As calçadas suprem o tipo correto e o número correto das interrelações locais. Elas são as junções da vida da cidade.”

Um complemento sobre o problema das cidades centradas em automóveis:

“o potencial para interações locais é tão limitado pela velocidade e distância percorrida pelo automóvel que nenhuma ordem superior pode emergir. Por tudo o que sabemos, deve haver algum alargamento psicológico em olhar as favelas de dentro de seu Ford Explorer, mas essa experiência nada fará para melhorar a saúde da cidade, pois a informação transmitida entre os agentes é esquálida e efêmera demais. A vida da cidade depende da interação acidental entre os estranhos que muda o comportamento individual. (…) Encontrar a diversidade nada faz pelo sistema global da cidade, a menos que esse encontro tenha alguma chance de alterar um comportamento. É necessário haver feedback entre agentes, células que mudam em resposta a outras células. A 100 quilômetros por hora, a informação transmitida entre os agentes é limitada demais para interações sutis.”

JOHNSON, Steven. Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. p. 69-70

Talvez a redução da velocidade dos automóveis em São Paulo devido aos constanstes congestionamento possa gerar um efeito positivo a longo prazo: uma interação maior e mais rica entre os agentes circulantes.

Geographic Pathologies

South America

Trabalho da artista Nina Katchadourian.

Desde criança, sempre pensei nos mapas como algo “intocável”, que não poderia ser distorcido ou alterado por qualquer pessoa. Seria a visão “oficial” de algum cartógrafo, como um artista e sua obra, ou como a Casa da Moeda e suas cédulas.

Esse trabalho me causou uma sensação de transgressão muito interessante. Nunca havia pensado em brincar com as superfícies, apesar de sempre gostar de ver as formas que as fronteiras de cada estado ou país delineava.

Dinâmicas urbanas

Um tema que, só aparentemente, foge ao que costumo colocar aqui.

“A própria cidade é construída de uma maneira peculiar, de modo que uma pessoa pode morar nela durante anos, entrar e sair dela diariamente sem ter contato com um bairro popular e nem mesmo com operários – quer dizer, contanto que a pessoa se limite aos seus próprios negócios ou a passear por puro prazer. Isto decorre principalmente das circunstâncias de que, através de um acordo tácito e inconsciente, assim como de uma intenção explícita e consciente, mantêm os bairros populares totalmente separados das partes reservadas à classe média… Nunca vi em outro lugar ocultar-se com tão fina sensibilidade tudo o que pudesse ofender os olhos e os nervos da classe média.”

Engels (aquele mesmo), analisando a cidade de Manchester. Claro, poderia muito bem ser São Paulo.

ENGELS, Friedrich. A situação da classe operária na Inglaterra, São Paulo: Global, 1986

A questão envolvida neste trecho que nos interessa diretamente é a seguinte: as cidades, como outros sistemas auto-organizáveis, muitas vezes crescem “ao acaso”, sem uma política ou ordem deliberada de cima para baixo. E, ainda sim, adapta-se de acordo com uma lógica funcional.

“A cidade é complexa porque surpreende, sim, mas tambémporque tem uma personalidade coerente, uma personalidade que se auto-organiza a partir de milhões de decisões individuais, uma ordem global, construída a partir de interações locais.”

JOHNSON, Steven. Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. 231 p.

Complexidade, emergência e sistemas dinâmicos

Em breve, um post mais elaborado sobre esse tema. Seguem algumas coisas que estive lendo do Manovich.

“The new paradigm begins to emerge across a number of scientific and technical fields, eventually reaching popular culture as well. It includes a number of distinct areas, approaches, and subjects: chaos theory, complex systems, self-organization, autopoiesis, emergence, artificial life, the use of the models and metaphors borrowed from evolutionary biology (genetic algorithms, “memes”), neural networks. While distinct from each other, most of them share certain basic assumptions. They all look at complex dynamic and non-linear systems and they model the development and/or behavior of these systems as the interaction of a population of simple elements. This interaction typically leads to emergent properties – a priori unpredictable global behavior. In other words, the order that can be observed in such systems emerges spontaneously; it can’t be deduced from the properties of elements that make up the system. (…)

What is important is that having realized the limits of linear top-down models and reductionism, we are prepared to embrace a very different approach, one which looks at complexity not as a nuisance which needs to be quickly reduced to simple elements and rules, but instead as the source of life – something which is essential for a healthy existence and evolution of natural, biological, and social systems.”

MANOVICH, Lev. Abstraction and complexity. Disponível em <http://www.manovich.com>. Acessado em 10/01/2008. 2004