Arquivo mensais:maio 2008

A memória coletiva

“Nascemos dentro de estruturas de aprendizado e comportamento que preexistiam a nós, e as utilizamos para delas extrair informações sobre o mundo e o lugar que nele ocupamos. (…) devemos aos outros membros do nosso contexto cultural, vivos e mortos, as formas como organizamos nossas informações sobre o mundo e as maneiras como pensamos em transformá-los.

Para permitir que seres humanos se beneficiem do conhecimento e das aptidões de outros devemos dispor de algum tipo de sistema de armazenamento para transmitir esses benefícios através dos tempos. Precisamos do equivalente social de nossas próprias memórias, efetivamente, uma memória social ou cultural.

Suponhamos que esta memória coletiva se situe, de algum modo, fora das mentes dos membros individuais do grupo, ou, melhor ainda, que se possa guardar em lugar conveniente, para consultar quando preciso. Suponhamos ainda que esta memória possa ser representada em forma duradoura, de modo que seja compreendida por todos os membros do grupo. Se essas hipóteses se concretizarem, então a memória coletiva não só sobreviverá, mas também todos os membros do grupo se beneficiarão das memórias uns dos outros. Esses fatos positivos vieram a ocorrer, mas não da forma completa e ideal que planejamos. (…) A história desta atividade externalizadora mostra a engenhosidade técnica do homem e o auge de sua atividade e criador de símbolos. Abrange uma longa saga de adaptação, invenção e inovação, dos primeiros rabiscos em pedras, cacos de cerâmica e nas paredes das cavernas até a tecnologia da informação que nos rodeia. ”

McGARRY, Kevin. O contexto dinâmico da informação. Brasília: Briquet de Lemos, 1999.

Nível de fidelidade de protótipos e wireframes

Para quem está envolvido em projetos de sistemas de informações em metodologias ágeis, sugiro a leitura deste artigo, que trata de algumas estratégias para conciliar design e AI às atividades dos desenvolvedores.

Um dos tópicos que eu achei particularmente interessante, diz respeito ao nível de detalhamento sugerido para os protótipos e wireframes. Segue um trecho:

“Lower fidelity: documentation is still a good thing, but the more details you have, the longer your document takes to produce. Wireframes are the best example of this. A well-annotated, high-fidelity wireframe for one page can take a day, easy. If you need to spend less time, use fewer details. If you’ve collaborated on the design, and you’ve helped improve their design literacy, then your team won’t need all the detail. Strip your documents down to the basics and only deliver what people need. Make your wireframes more like page description diagrams or block layouts. ”

Gosto deste ponto de vista: tenho percebido que, muitas vezes, uma boa conversa com os envolvidos no projeto substitui muito bem um wireframe muito detalhado. Basta alguma referência visual, somente para guiar o raciocício. Apesar se ser legal dedicar um bom tempo para preparar uma documentação completa, noto que, na prática, nunca vamos ter tempo suficiente…

Em resumo: vamos assumir que a documentação nunca ficará completa e passemos a ter o foco nas necessidades das pessoas, aliadas às demandas do negócio.

Perspectiva comunicacional do design da informação

“Information is a tool designed by human beings to make sense of a reality assumed to be both chaotic and orderly. In the face of differences we must look for differences not in how humans, individually and collectively, see their worlds but in how they make their worlds (i.e. construct a sense of the world and how it works). For if we conceptualize the human condition as a struggle through an incomplete reality, then the similar struggles of others may well be informative for our own efforts. Information is made and unmade in communication – intrapersonal, social, organizational, nation, and global. With this view of information, information design cannot treat information as a mere thing to be economically and effectively packaged for distribution. Design to assist people to make and unmake their own nformations, their own sense. Must deal with the entire complex range of what humans do when they make sense, when they construct their movements through what is assumed to be an everchanging, sometimes, chaotic, sometimes orderly, sometimes impenetrable time-space.

We create an information system to assist people in designing their own information and in sharing with each other.”

DERVIN, Brenda. Chaos, order, and Sense-making: a proposed theory for information design. In JACOBSON, Robert (org.). Information Design. London: MIT Press, 1999.

A velocidade e a informação

Trechos de uma entrevista com Umberto Eco, publicada na Folha do dia 12/05/08.

PERGUNTA – O que é certo é que alguns anos atrás o sr. disse que viveríamos de modo rapidíssimo, e agora vivemos em velocidades supersônicas.
ECO – E tudo o que existe agora será obsoleto dentro de pouco tempo. Até o e-mail será obsoleto, porque tudo será feito com o celular. Talvez as novas gerações se acostumem a isso, mas existe uma velocidade do processo que é de tal calibre que a psicologia humana talvez não consiga adaptar-se. Estamos em velocidade tão grande que não existe nenhuma bibliografia científica americana que cite livros de mais de cinco anos atrás. O que foi escrito antes já não conta, e isso é uma perda também quanto à relação com o passado.

PERGUNTA – A fé cega na internet, por outro lado, cria monstros.
ECO – Sim, parece que tudo é certo, que você dispõe de toda a informação, mas não sabe qual é confiável e qual é equivocada. Essa velocidade vai provocar a perda de memória.
E isso já acontece com as gerações jovens, que já não recordam nem quem foram Franco ou Mussolini! A abundância de informações sobre o presente não lhe permite refletir sobre o passado. Quando eu era criança, chegavam à livraria talvez três livros novos por mês; hoje chegam mil. E você já não sabe que livro importante foi publicado há seis meses. Isso também é uma perda de memória. A abundância de informações sobre o presente é uma perda, e não um ganho.

(…)

PERGUNTA – Tanta informação faz com que os jornais pareçam irrelevantes.
ECO – Esse é um de nossos problemas contemporâneos. A abundância de informação irrelevante, a dificuldade em selecioná-la e a perda de memória do passado -e não digo nem sequer da memória histórica. A memória é nossa identidade, nossa alma. Se você perde a memória hoje, já não existe alma; você é um animal. Se você bate a cabeça em algum lugar e perde a memória, converte-se num vegetal. Se a memória é a alma, diminuir muito a memória é diminuir muito a alma.

PERGUNTA – Qual seria hoje o papel da informação?
ECO – Creio que perdemos muito tempo nos formulando essas perguntas, enquanto as gerações mais jovens simplesmente deixaram de ler jornais e se comunicam por meio de mensagens de texto. Eu não posso me desligar dos jornais. Para mim, sua leitura é a oração matinal do homem moderno. Não posso tomar o café da manhã se não tiver pelo menos dois jornais para ler.
Mas talvez sejamos os resquícios de uma civilização, porque os jornais têm muitas páginas, mas não muita informação. Sobre o mesmo tema há quatro artigos que talvez digam a mesma coisa… Existe abundância de informação, mas também abundância da mesma informação.
Não sei se você se lembra de minha teoria sobre o “Fiji Journal”. Eu estava em Fiji coletando informações sobre os corais para meu livro “A Ilha do Dia Anterior” [ed. Record], e em meu hotel chegava todas as manhãs o “Fiji Journal”, que tinha oito páginas -seis de anúncios, uma de notícias locais e outra de notícias internacionais. No mês que passei ali, a primeira Guerra do Golfo estava prestes a estourar, e, na Itália, o primeiro governo de Berlusconi tinha caído. Inteirei-me de tudo porque em uma única página de notícias internacionais, em três ou quatro linhas, davam-me as notícias mais importantes.

PERGUNTA – Como a internet.
ECO - Vamos à internet para tomar conhecimento das notícias mais importantes. A informação dos jornais será cada vez mais irrelevante, mais diversão que informação. Já não nos dizem o que decidiu o governo francês, mas nos dão quatro páginas de fofocas sobre Carla Bruni e Sarkozy [atual presidente da França]. Os jornais se parecem cada vez mais com as revistas que havia para ler na barbearia ou na sala de espera do dentista.

A íntegra desta entrevista saiu no “El País”. Tradução de Clara Allain

O design é enganador

“A alavanca é uma máquina simples. Seu design copia o braço humano; ela é um braço artificial. Sua tecnologia provavelmente é tão antiga quanto a espécie homo sapiens, talvez ainda mais velha. E sua máquina, seu design, sua arte, sua tecnologia pretende trapacear com a gravidade, enganar as leis da natureza (…) Este é o design que é a base de toda a cultura: enganar a natureza através da tecnologia, substituir o que é natural pelo que é artificial. Em resumo: o design, por trás de toda a cultura, deve ser enganador (artificioso) o suficiente para transformar meros mamíferos condicionados pela natureza em artistas livres.”

FLUSSER, Vilém. The shape of things: a philosophy of design. Londres: Reaktion Books, 1990. (apud PFUTZENREUTER, Edson. Contribuições para a questão da formação do designer de hipermídia. In LEÃO, Lucia (org.). O chip e o caleidoscópio: reflexões sobre as novas mídias. São Paulo: Editora Senac, 2005)