Arquivo mensais:julho 2008

Emergência e Caos

Na última quinta-feira, assisti a uma palestra excelente no Itaú Cultural com um (artista? matemático? designer?) colombiano chamado Santiago Ortiz. Trata-se do evento Emoção Art.ficial 4.0 com o tema “emergência”, com exposição de obras digitais, simpósio e workshops.

O cara é muito bom. Apresentou de maneira muito clara, sempre com exemplos, os conceitos básicos da teoria do caos e complexidade. Ele utiliza princípios básicos da emergência em sistemas dinâmicos, tais como a a interação local entre componentes simples para gerar padrões gerais de comportamento, para construir interfaces interativas (disponíveis na internet).

O mais legal é perceber que as pesquisas em teorias da complexidade são transdiciplinares e conseguem transitar tranquilamente entre a biologia, a matemática, a física, a linguística e o design. Os exemplos trazidos na palestra, basicamente, consistiam em visualizações não-lineares de fenômenos complexos, sejam redes sociais, evolução genética de bactérias ou comportamento de partículas. O cara se apóia na visualização de dados para demonstrar todos esses fenômenos. Interessante também registrar o objetivo de construir interfaces que sejam úteis aos indivíduos para compreender melhor alguma situação complexa, e não simplesmente criar projetos experimentais.

Alguns modelos:

6pli

6pli – um sistema de visualização para o Del.icio.us

mitozoos.gif

Mitozoos –  modelo interativo que simula a vida artificial de criaturas criadas digitalmente. O modelo contempla evolução genética, competição por alimento, reprodução e mutação.

social.gif

Automatas – um modelo bastante didático, que ilustra muito bem o comportamento de elementos dentro de um sistema dinâmico. Com apenas duas variáveis (amor x ódio), somos capazes de estabelecer regras de funcionamento de atração e repulsa mútua entre os componentes, tal como uma telenovela.

Borges e a Biblioteca de Babel: o conhecimento e o excesso de informações

Segue abaixo mais um trecho da minha pesquisa.

No seu famoso conto intitulado Biblioteca de Babel, Jorge Luis Borges (2007) nos apresenta uma imensa biblioteca, organizada em galerias hexagonais, repleta de prateleiras abarrotadas de livros.

A biblioteca é total, e suas prateleiras registram todas as possíveis combinações dos vinte e tantos símbolos ortográficos, ou seja, tudo o que é dado expressar: em todos os idiomas. Tudo: a história minuciosa do futuro, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da Biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catálogo verdadeiro, o evangelho gnóstico de Basílides, o comentário desse evangelho, o comentário do comentário desse evangelho, o relato verídico da tua morte, a versão de cada livro em todas as línguas, as interpolações de cada livro em todos os livros, o tratado que Beda pôde escrever (e não escreveu) sobre a mitologia dos saxões, os livros perdidos de Tácito. (BORGES, 2007)

O acervo dessa biblioteca é infinito e supõe registrar nos seus volumes toda a realidade existente. Não há, nesta biblioteca, dois livros idênticos. Há sim, inúmeras referências cruzadas a outros livros.

Quando se proclamou que a biblioteca abrangia todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade. Todos os homens se sentiram senhores de um tesouro intacto e secreto. Não havia problema pessoal ou mundial cuja eloqüente solução não existisse: em algum hexágono. O universo estava justificado, o universo bruscamente usurpou as dimensões ilimitadas da esperança. (…) Também se esperou então o esclarecimento dos mistérios da humanidade: a origem da Biblioteca e do tempo. É verossímil que esses graves mistérios possam ser explicados em palavras: se a linguagem dos filósofos não bastar, a multiforme Biblioteca produzirá o idioma inaudito que for necessário, e os vocabulários e gramáticas desse idioma. (BORGES, 2007)

Como não ficarmos eufóricos diante da possibilidade concreta de se alcançar todo o conhecimento produzido pelo homem? Bastaria apenas localizar a referência certa, em alguma determinada prateleira, para solucionar a inquietude imediata causada pela falta de informação. Não haveria problema caso essa referência não estivesse em um formato adequado para leitura, pois a própria Biblioteca, entendida como um organismo quase vivo, encarregaria-se de indicar a gramática necessária para se compreender a linguagem, para então o leitor retornar à pesquisa inicial. Por outro lado,

À desmedida esperança sucedeu, como é natural, uma depressão excessiva. A certeza de que alguma prateleira em algum hexágono encerrava livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis, pareceu quase intolerável. (…) A certeza de que tudo está escrito nos anula ou faz de nós fantasmas. (BORGES, 2007)

A inacessibilidade de referências precisas, representadas em linguagens muitas vezes incompreensíveis, levou insatisfação aos freqüentadores da Biblioteca. Ao saber que as possibilidades de conhecimento eram quase infinitas, mas que éramos incapazes de absorvê-las, o homem se frustrou. Constatou-se que tal biblioteca não seria capaz de revelar os mistérios do conhecimento humano.

Tal metáfora da Biblioteca de Babel se torna pertinente ao analisarmos a atual condição da informação no ciberespaço, onde o excesso de dados não necessariamente induz novos conhecimentos.

Em plena era da informação, quando o ciberespaço se apresenta a nós como uma grande biblioteca, uma biblioteca com todos os livros e todos os documentos, sistemas de mapeamento lógico tornam-se indispensáveis. Como não nos perderemos e não ficamos exaustos diante de tanta profusão de dados? (LEÃO, 2003)

Como usuários diários do ciberespaço, tornamo-nos dependentes de seu conteúdo, ao estabelecermos fortes laços de relacionamento uns cons outros por meio da comunicação mediada pelo computador. Quantas vezes não nos perdemos em seu labirinto de referências, ou mesmo não conseguimos o conhecimento adequado, mesmo diante de inúmeras bases de dados, a apenas poucos links de distância?

Que conhecimento queremos obter a partir da chamada sociedade da informação? Reconhecemos que a informação em rede ganhou velocidade, fluidez, penetração, mas, principalmente, tornou-se colaborativa, socialmente compartilhada. Por outro lado, o ciberespaço também permitiu a abertura de fissuras, a imposição de barreiras de acessibilidade, a invasão da privacidade, a aceleração do tempo.

Ao nos fazer crer que o acesso à Internet ao “saber universal”, que necessariamente terá sua fonte aos monopólios de saber já existentes, resolveria o problema não apenas da fratura digital, mas também o da fratura social. (…) A sociedade das redes está longe de ter colocado um fim ao etnocentrismo dos tempos imperiais. Em vez de resolver o problema, a tecnologia o desloca. Enquanto permanece a lancinante questão: como conceber e colocar em ação outros modelos de desenvolvimento? (…) A ditadura do tempo curto faz com que se atribua uma patente de novidade, e portanto de mudança revolucionária, àquilo que na verdade é produto de evoluções estruturais e de processos que estão em curso há muito tempo. (…) (devemos) refletir sobre os múltiplos entrecruzamentos das mediações sociais, culturais e educativas pelos quais se constroem os usos do mundo digital e que estão na própria origem da vida democrática. Opor-se ao fetichismo da velocidade neofordista por meio de outras relações com o tempo. (MATTELART, 2002)

Reconhece-se que estamos diante de um cenário de complexidade, independente da leitura que fizermos dos problemas ou das soluções encontradas. O excesso de dados e informações, particularmente, é um desses problemas.

Talvez o problema maior da biblioteca não seja o excesso de livros, mas sim a necessidade de novas cartografias. Cartografias mutantes, cartografias reveladoras. Cartografias tão flexíveis e coerentes com as nossas necessidades subjetivas e objetivas que, ao contrário do império borgiano, não as julgaremos inúteis, mas sim vitais para o processo de interação no ciberespaço. (LEÃO, 2003)

BORGES, Jorge Luis. Ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

LEÃO, Lucia. Cartografias em mutação: por uma estética do banco de dados. In: LEÃO, Lucia (org.). Cibercultura 2.0. São Paulo: U.N. Nojosa, 2003.

MATTELART, Armand. História da sociedade da informação. São Paulo: Edições Loyola, 2002.