Arquivo mensais:agosto 2008

Estética da interface

Neste trecho, Manovich fala da mudança de concepção das interfaces digitais e justifica a relevância do design da experiência neste novo contexto.

“Something else has happened in this process. Until this decade the design of user interfaces was often ruled by the idea that the interface shoud be invisible. In fact, the really successful interface was supposed to be the one which the user does not notice. This paradigm made sense until the middle of the 1990s – that is, during the period when, outside of work, people used information devices on a limited basis. But what happens when the quantity of these interactions greatly increases and information devices become intimate companions of people’s lives? The more you use a mobile phone, a computer, a media player or another personal information device, the more you “interact with an interface” itself.

Regardless of whether the designers realize this consciously or not, today the design of user interaction reflects this new reality. The designers no longer try to hide the interfaces. Instead, the interaction is treated as an event – as opposed to “non-event”, as in the previous “invisible interface” paradigm. Put differently, using personal information devices is now conceived as a carefully orchestrated experience, rather than only a means to an end. The interaction explicitly calls attention to itself. The interface engages the user in a kind of game. The user is asked to devote significant emotional, perceptual and cognitive resources to the very act of operating the device.”

MANOVICH, Lev. Information as an Aesthetic Event. 2007. Disponível em http://www.manovich.net

Ciberestética

“Na era digital, surge a ciberestética, ramo recente da disciplina, que estuda os processos de percepção e as formas de sentir ao agir em conexão com o ciberespaço. As raízes epistemológicas da disciplina estética ficam reafirmadas pelo design digital e a presença de interfaces que acoplam os órgãos sensoriais a sistemas artificiais, sendo a experiência estética determinada pelos comportamentos vividos nas conexões. O resultado desse acoplamento é que o ato estético provoca uma cibridização dos sentidos orgânicos, em pleno funcionamento, agindo incorporados à capacidade multissensorial de interfaces (chips, transistores, dispositivos hápticos, sonoros, de respiração, etiquetas de radiofreqüência, câmeras ópticas e de rastreamento, tecnologias wireless como bluetooth, GPS, entre tantos dispositivos) e de cálculos computacionais de programas que respondem à ação do corpo conectado ao ciberespaço. Dotadas da capacidade de sentir e de trocar informações num fluxo de exteriorização dos sentidos e de interiorização de informações provenientes de mundos de silício, as interfaces hibridizam cálculos computacionais e sinais elétricos com as informações enviadas pelos humanos.”

DOMINGUES, Diana. Ciberestética e a engenharia dos sentidos na software art. In ARANTES, Priscila. SANTAELLA, Lucia (orgs.). Estéticas tecnológicas: novos modos de sentir. São Paulo: Educ, 2008

Arte e linguagem nas estéticas tecnológicas

“Cada período da história é marcado por meios de produção de linguagem que lhe são próprios. Quando novos meios surgem, seus potenciais e usos, ainda desconhecidos, têm de ser explorados. É a alma inquieta dos artistas que os leva, invariavelmente, a tomar a dianteira nessa exploração. (…) Um dos desafios do artista é dar corpo novo para manter acesa a chama dos meios e das linguagens que lhe foram legados pelo passado. O artista pode dar a qualquer meio datado uma versão contemporânea. Mas cada fase da história tem seus próprios meios de produção da linguagem. Vem daí o outro desafio do artista, que é o de enfrentar a resistência ainda bruta dos materiais e meios de seu próprio tempo, para encontrar a linguagem que lhes é própria, reinaugurando as linguagens da arte.

Os meios do nosso tempo, neste início do terceiro milênio, estão nas tecnologias digitais, nas memórias eletrônicas, nas hibridizações dos ecossistemas com os tecnossistemas e nas absorções inextricáveis das pesquisas científicas pela criação artística, tudo isso abrindo ao artista horizontes inéditos para a exploração de novos territórios da sensorialidade e sensibilidade. Isso não significa que não seja sempre possível utilizar meios precedentes, reinventando-os.”

SANTAELLA, Lucia. A estética das linguagens líquidas. IN: ARANTES, Priscila. SANTAELLA, Lucia (orgs.). Estéticas tecnológicas: novos modos de sentir. São Paulo: Educ, 2008

Arquiteturas líquidas do ciberespaço

“No ciberespaço, qualquer informação e dados podem se tornar arquitetônicos e habitáveis, de modo que o ciberespaço e a arquitetura do ciberespaço são uma só e mesma coisa. Entretanto, trata-se de uma arquitetura líquida, que flutua. Por isso, o ciberespaço altera as maneiras pelas quais se concebe e percebe a arquitetura, de modo que torne nossa concepção da arquitetura cada vez mais musical. Pela primeira vez, o arquiteto não desenha um objeto, mas os princípios pelos quais o objeto é gerado e varia no tempo. (…) Uma arquitetura desmaterializada, dançante, difícil, etérea, temperamental, transmissível a todas as partes do mundo simultaneamente, só indiretamente tangível, feita de presenças sempre mutáveis, líquidas.”

SANTAELLA, Lucia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007. P. 17

Há algum tempo venho pensando na metáfora da “arquitetura líquida” para tratar dessas formas fluidas de navegação, sustentadas pela colaboração e personalização. Segue abaixo um trecho de um material que escrevi. (e pretendo publicá-lo em alguma revista científica… alguma sugestão para um periódico legal?)

A própria metáfora dos conceitos líquidos somente poderia ser aplicada ao design dos sistemas de informação quando consideramos a interferência do usuário na construção do conteúdo coletivo. Tal como analisado nos sistemas emergentes, é necessário basear-se em uma massa crítica de dados gerada pela ação de cada indivíduo localmente a partir de regras e instrumentos simples. Essa lógica produz algo maior, um conhecimento que, enfim, começa a concretizar os ideais da inteligência coletiva, mas que ainda encontrará muitos desdobramentos com o desenvolvimento das ciências cognitivas e da inteligência artificial.

Tecnologia, sociedade e transformação histórica

Castells abre suas reflexões sobre a Sociedade em Rede defendendo a idéia de que vivemos, nesta transição de milênio, uma verdadeira revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação. O autor desenvolve seu argumento de uma maneira envolvente, e abrange a questão da informação e das redes sob pontos de vista distintos: culturais, econômicos, sociais e políticos.

Queria destacar um trecho legal, que inclusive pode ajudar quem pretende iniciar alguma reflexão sobre o papel da tecnologia na sociedade. Num contexto onde estamos profundamente dependentes de artefatos e conexões informacionais, ingenuamente somos tentados a posicionar a tecnologia como agente transformador da sociedade. Veja o que Castells tem a nos dizer:

“Devido a sua penetrabilidade em todas as esferas da atividade humana, a revolução da tecnologia da informação será meu ponto inicial para analisar a complexidade da nova economia, sociedade e cultura em formação. Essa opção metodológica não sugere que novas formas e processos sociais surgem em conseqüência de transformação tecnológica. É claro que a tecnologia não determina a sociedade. Nem a sociedade escreve o curso da transformação tecnológica, uma vez que muitos fatores, inclusive a criatividade e iniciativa empreendedora, intervém no processo de descoberta científica, inovação tecnológica e aplicações sociais, de forma que o resultado final depende de um complexo padrão interativo. Na verdade, o dilema do determinismo tecnológico é, provavelmente, um problema infundado, dado que a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas.”

CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. A era da informação: economia, sociedade e cultura. 6ª. Edição. São Paulo: Paz e Terra, 1999. P.43