Arquivo mensais:maio 2013

Imagens técnicas

Somos testemunhas, colaboradores e vítimas da revolução cultural cujo âmbito apenas adivinhamos. Um dos sintomas dessa revolução é a emergência das imagens técnicas em nosso torno. Fotografias, filmes, imagens de TV, de vídeo e dos terminais de computador assumem o papel de portadores de informação outrora desempenhado por textos lineares. Não mais vivenciamos, conhecemos e valorizamos o mundo graças a linhas escritas, mas agora graças a superfícies imaginadas. Como a estrutura da mediação influi sobre a mensagem, há mutação na nossa vivência, nosso conhecimento e nossos valores. O mundo não se apresenta mais enquanto linha, processo, acontecimento, mas enquanto plano, cena, contexto – como era o caso na pré-história e como ainda é o caso para iletrados. No entanto, o presente ensaio procurará demonstrar que não se trata de retorno a situação pré-alfabética mas de avanço ruma a situação nova, pós-histórica, sucessora da história e da escrita. Nossa tese: as novas imagens não ocupam o mesmo nível ontológico das imagens tradicionais, porque são fenômenos sem paralelo no passado. As imagens tradicionais são superfícies abstraídas de volume, enquanto as imagens técnicas são superfícies construídas por pontos.

A leitura que tenho feito dos textos do Flusser tem bastante afinidade com o que eu já havia lido do Castells, sobre as mudanças de paradigma da sociedade a partir do desenvolvimento das tecnologias da informação e das comunicações em rede. Porém, Castells fala de aspectos econômicos e sociais. O que estou achando muito interessante do Flusser é a interpretação do mesmo contexto histórico sob o ponto de vista da filosofia da imagem. Ambos olham para o mesmo objeto (a sociedade pós-industrial), porém usam repertórios e argumentos diferentes. Legal também que o Flusser dialoga com o McLuhan (“o meio é a mensagem”).

Resgatei alguns links sobre Castells que eu coloquei por aqui há algum tempo (há 6 anos!!). Vejam:

a) Este trecho é bacana: segundo ele, não custa lembrar que a tecnologia não determina a sociedade, muito embora seja um elemento essencial em nossa história.

b) Reforçando esta mesma opinião, “a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas.

c) Opa, olha aí ele chamando o McLuhan pra roda.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008. (p. 15)

Aparelho-arma

Pope - Vatican Square

Pope - Vatican Square

O aparelho é brinquedo sedento por fazer sempre mais fotografias. Exige de seu possuidor (quem por ele está possesso) que aperte constantemente o gatilho. Aparelho-arma. Fotografar pode virar mania, o que evoca o uso de drogas. Na curva desse jogo maníaco, pode surgir um ponto a partir do qual o homem-desprovido-de-aparelho se sente cego. Não sabe mais olhar, a não ser através do aparelho. De maneira que não está face ao aparelho (como o artesão frente ao instrumento), nem está rodando em torno do aparelho (como o proletário roda a máquina). Está dentro do aparelho, engolido por sua gula. Passa a ser prolongamento automático do seu gatilho. Fotografa automaticamente.

A mania fotográfica resulta em torrente de fotografias. Uma torrente memória que a fixa. Eterniza a automaticidade inconsciente de quem fotografa. Quem contemplar álbum de fotógrafo amador, estará vendo a memória de um aparelho, não a de um homem. Uma viagem para a Itália, documentada fotograficamente, não registra as vivências, os conhecimentos, os valores do viajante. Registra os lugares onde o aparelho o seduziu para apertar o gatilho. Álbuns são memórias privadas apenas no sentido de serem memórias de aparelho. Quanto mais eficientes se tornam os modelos dos aparelhos, tanto melhor atestarão os álbuns, a vitória do aparelho sobre o homem.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma Futura Filosofia da Fotografia. São Paulo: Annablume, 2011. (P. 78-79)

Informações indicativas, imperativas e optativas

Todas as informações podem ser subdivididas em classes. Por exemplo, informações indicativas (“A é A”); imperativas (“A deve ser A”); optativas (“que A seja A”). O ideal clássico dos indicativos é a verdade; dos imperativos, a bondade; dos optativos, a beleza. Na realidade, porém, a classificação é insustentável. Todo indicativo científico tem aspectos políticos e estéticos; todo imperativo político tem aspectos científicos e estéticos; todo gesto optativo (obra de arte) tem aspectos científicos e políticos. De maneira que toda classificação de informação é mera teoria.

As antíteses dos ideiais clássicos dos indicativos, imperativos e optativos seriam, portanto, a trapaça, a imposição e incoerência?

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma Futura Filosofia da Fotografia. São Paulo: Annablume, 2011. (P. 72-73)

Objetos pós-industriais neoimperialistas

A fotografia enquanto objeto tem valor desprezível. Não tem muito sentido querer possuí-la. Seu valor está na informação que transmite. Com efeito, a fotografia é o primeiro objeto pós-industrial: o valor se transferiu do objeto para a informação. Pós-industria é precisamente isso: desejar informações e não mais objetos. Não mais possuir e distribuir propriedades (capitalismo ou socialismo). Trata-se de dispor de informações (sociedade informática). Não mais um par de sapato, mais um móvel, porém, mais uma viagem, mais uma escola. Eis a meta. Transformação de valores. (…)

A distribuição da fotografia ilustra, pois, a decadência do conceito de propriedade. Não mais quem possui tem poder, mas sim quem programa informação e as distribui. Neoimperialismo.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma Futura Filosofia da Fotografia. São Paulo: Annablume, 2011. (P. 70-71)

Quatro estruturas do discurso

Há quatro estruturas fundamentais de discurso:

  1. os receptores cercam o emissor em forma de semicírculo, como no teatro;
  2. o emissor distribui as informações entre retransmissores, que a purificam de ruídos, para retransmiti-la a receptores, como no exército ou no feudalismo;
  3. o emissor distribui a informação entre círculos dialógicos, que a inserem em sínteses de informação nova, como na ciência;
  4. o emissor emite a informação rumo ao espaço vazio, para ser captada por quem nele se encontra, como no rádio.

A todo método discursivo, corresponde determinada situação cultural: o primeiro método exige situação “responsável”; o segundo “autoritária”; o terceiro, “progressista”; o quarto, “massificada”.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma Futura Filosofia da Fotografia. São Paulo: Annablume, 2011. (P. 68-69)

Diálogo e Discurso

Mas o homem parece ser o único fenômeno capaz de produzir informações com o propósito deliberado de se opor à entropia. Capaz de transmitir e guardar informações não apenas herdadas, mas adquiridas. (…)

O processo de manipulação dessas informações é a comunicação que consiste de duas fases: na primeira, informações são produzidas; na segunda, informações são distribuídas para serem guardadas. O método da primeira fase é o diálogo, pelo qual informações já guardadas na memória são sintetizadas para resultarem em novas (há também diálogo interno que ocorre em memória isolada). O método da segunda fase é o discurso, pelo qual informações adquiridas no diálogo são transmitidas a outras memórias, a fim de serem armazenadas.

Nunca havia parado para pensar que os conceitos de produção de informação e distribuição de informação pudessem, de maneira tão clara, serem classificados como diálogo e discurso. Ultimamente, estou tão imerso no contexto da linguagem computacional que eu, superficialmente, pensaria em coisas como banco de dados, redes, bits, etc. A forma como o Flusser cria definições e conceitua seu pensamento é algo genial: sintético e, ao mesmo tempo, inesperado, quase poético.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma Futura Filosofia da Fotografia. São Paulo: Annablume, 2011. (P. 68)

A fotografia

Fotografias são imagens técnicas que transcodificam conceitos em superfícies. Decifrá-las é descobrir o que os conceitos significam. Isto é complicado, porque na fotografia se amalgamam duas intenções codificadoras: a do fotógrafo e a do aparelho. O fotógrafo visa eternizar-se nos outros por intermédio da fotografia. O aparelho visa programar a sociedade através das fotografias para um comportamento que lhe permita aperfeiçoar-se. A fotografia é, pois, mensagem que articula ambas as intenções codificadoras. Enquanto não existir crítica fotográfica que revele essa ambiguidade do código fotográfico, a intenção do aparelho prevalecerá sobre a intenção humana.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma Futura Filosofia da Fotografia. São Paulo: Annablume, 2011. (P. 64-65)