Arquivo mensais:junho 2014

Les autoroutes de l’information

A internet não comporta nenhum sistema de segurança. Uma mensagem enviada pela internet navega sucessivamente sobre várias redes onde ela pode ser interceptada e lida impunemente. Mesmo os servidores insuficientemente protegidos foram sustentados em um passado recente de numerosas invasões após terem sido conectados à rede. Sua confiança também está em causa. O encaminhamento das mensagens não é garantido. Os congestionamentos podem bloquear a rede durante longos minutos ou mesmo de horas e conduzir, dessa maneira, à perda de mensagens. Enfim, não existe um catálogo de utilizadores ou de serviços. O boca-a-boca constitui o modo de funcionamento mais difundido dessa rede. Além disso, não existe qualquer meio de faturamento sobre a internet sem um cadastro a um serviço que se possa acessar com uma senha. Esta rede é, portanto, mal adaptada ao fornecimento de serviços comerciais. A quantidade de negócios disponíveis no mundo corresponde a menos de um décimo dos serviços ofercidos pelo Minitel. Os limites da internet demonstram, dessa maneira, que ela não se constituirá, no longo prazo, a rede de rodovias mundial.

As rodovias da informação, relatório de Gérard Théry enviado ao primeiro ministro francês em 1994.

É necessário entender um pouco o contexto em que esse relatório foi produzido: os franceses ainda utilizavam os diversos serviços comerciais oferecidos pelo Minitel de maneira massiva. Além disso, o surgimento de uma rede descentralizada, criada pelos norte-americanos, causava bastante desconfiança dos gigantes das telecomunicações (France Telecom). Em outras palavras, essa tal de internet não ia ter a menor chance.

(desculpem pela tradução livre)

BELLANGER, Aurélien. La Théorie de L’information. Éditions Gallimard, 2012.

L’informatisation de la société

No final dos anos 70, a França começou a sentir os efeitos da crise global do petróleo e viu seu crescimento exemplar dos últimos anos pós-guerra recuar consideravelmente.

Em 1978, Simon Nora e Alain Minc preparam um relatório para o governo francês chamado L’informatisation de la société onde alertam sobre a emergência da Telemática – fusão entre comunicação e informática – e seus efeitos futuros na economia e na sociedade. O relatório, que teve repercussão também em outros países, sustentava que a era das redes digitais estava começando e que o governo deveria ter papel preponderante no controle dessa tecnologia estratégica.

O video acima é bem interessante e didático. Após um comentário “cético” do apresentador, um narrador descreve e apresenta o cenário. Destaque para o enfoque dado ao medo do “desemprego” – “o ganho de produtividade permitiria reduzir em 30% a mão-de-obra empregada em tradicionais postos de trabalho, como correios, bancos, seguradoras, etc.”

Para saber mais: Le rapport “Nora-Minc”. Histoire d’un best-seller

Aparelho cibernético

Qual será a estrutura informática da sociedade telemática emergente? (…) A sociedade telemática será a sociedade cibernetizada. (…) Defino “cibernética” enquanto arte de pilotar e dirigir sistema complexo (“caixa preta”) tendo em vista a transformação dos acasos que ocorrem no interior do sistema em situações informativas. (…) Sugiro que, com a abolição de toda autoridade e com a automação de toda decisão, isto é, com a emergência das imagens técnicas, a sociedade não pode ser estruturada a não ser ciberneticamente.

Lembrando que, “cibernética” e “governo” possuem raízes etimológicas semelhantes (kybernien, do grego pilotar, controlar).

Se conseguirmos captar o fascínio que se derramará a partir dos terminais sobre a sociedade emergente, podemos começar a refletir sobre a cibernetização da sociedade. (…) Somente depois de captado o fascínio, podemos compreender porque os nossos netos se assumirão simultaneamente “artistas criativos” e “funcionários programados”, “dominados” e “dominadores”, “governo” e “governados”. Os nossos netos saberão melhor que as imagens os dominam precisamente porque são eles os que dominam as imagens. Eles saberão, melhor do que nós, o que significa “paixão criativa”, “atividade apaixonante”, “liberdade para sofrer e sofrer a liberdade”.

Uma visão de futuro onde os nós se confundem. Os pólos se invertem a todo momento. Poderíamos, da mesma maneira, inferir a coexistência de “publicador” e “leitor”, “autor” e “crítico”, “leitor” e “escritor”, “autoridade” e “mediocridade”, ou seja, tudo que o uma rápida passagem por postagens do facebook ou comentários em notícias nos revela facilmente.

Dou um exemplo óbvio dessa emergência da consciência nova, dessa superação da distinção entre ativo e passivo: a fotografia. Quem predomina na sua produção: o fotógrafo ou o aparelho? Quem é objeto, quem é sujeito, quem ativo e quem passivo? O aparelho determina o fotógrafo ou o fotógrafo o aparelho? Obviamente, a resposta adequada à situação é esta: o fotógrafo funciona em função do aparelho, o aparelho em função do fotógrafo e ambos são funções da produção de fotografias.

Taí: a fotografia como máquina clássica da pós-história. Instrumento primeiro da pós-modernidade.

Obs.: eu gosto muito do Cartiê-Bressão!

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

Autor e criatividade

Toda informação se produz como síntese de informações precedentes, por diálogo que troca bits de informação para conseguir informação nova. O mito do autor pressupõe que o “fundador” (o gênio, o Grande Homem) produz informação nova a partir do nada (da “fonte”). (…) Atualmente, a massa das informações disponíveis adquiriu dimensões astronômicas: não cabe mais em memórias individuais, por mais “geniais” que sejam. Por mais “genial” que seja, a memória individual não pode armazenar senão parcelas das informações disponíveis. E tais parcelas armazenas aumentaram, elas também, de modo que o consumidor médio detém atualmente mais informações que o “gênio” renascentista. Tais parcelas de informação exigem processamento de dados para serem sintetizadas em informação nova: a memória humana se revela lenta demais para poder processar semelhante quantidade de dados. O diálogo interno e solitário se tornou inoperante.

Flusser “decreta” o fim do conceito de autor, como aquele criador solitário, genial e único. A criação de informações novas é sempre fruto de recombinações de informações precedentes. O criativo, portanto, seria aquele indivíduo que domina a técnica de melhor combinar as peças para formar algo inesperado, tal como um jogador.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

Telemática – comunicação digital

La photographie electrique à distance - Georges Méliès

A revolução cultural da atualidade iniciou-se nos meados do século XIX por duas tendências distintas, embora convergentes. A primeira tendência visava a computação de elementos pontuais sobre superfícies e o termo “informática” pode servir para rotulá-la. (…) A segunda tendência visava irradiar os elementos pontuais e pode ser rotulada pelo termo “telecomunicação” (…) Essas duas tendências convergem atualmente para formar uma única, designada pelo termo “telemática”. A convergência é recente. Graças a tal amálgama técnico dos conceitos “informação” e “comunicação”, as imagens técnicas começam a revelar seu verdadeiro caráter.

Segundo Flusser, foi necessário um período considerável para que as pessoas percebessem que a fotografia poderia ser “telegrafável”, e o cinema poderia ser “telefonável”, embora tais invenções tenham surgido mais ou menos na mesma época. Ou seja, somente após a invenção do video e das linhas de transmissão a cabo é que a consciência da junção entre computação e transmissão foi despertada. Embora o termo “telemática” não tenha vingado, essa convergência de tendências ilustra bem as origens da comunicação digital.

Pensando melhor, a transmissão de imagens à distância já era sonhada por alguns artistas contemporâneos das invenções do cinema e do telégrafo. Méliès, por exemplo, em 1908, já propunha uma máquina de “fotografia elétrica à distância.” Porém, vários anos foram necessários para que essa convergência de tecnologia sugerida por Flusser pudesse ser viabilizada comercialmente.

Em seguida, ele se refere à característica de “encapsulamento” da tecnologia digital, dizendo que qualquer criança, por exemplo, será capaz de gerar de sintetizar imagens no computador ignorando completamente a complexidade dos processos por trás do software e do hardware.

O que caracteriza a revolução cultural atual é precisamente o fato de que os participantes da cultura ignoram o interior das “caixas pretas” que manejam. A situação cultural precedente exigia dos seus participantes que aprendessem cultura (ler, escrever, fazer imagens);  a situação cultural emergente elimina a aprendizagem e se contenta com a programação dos seus participantes. (…) O desprezo pela técnica que sustenta a nova situação cultural está inscrito no seu programa.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008. P. 83-84