Arquivo mensais:julho 2015

A realidade insiste

Desabafo acadêmico: já estou na versão 25 do meu projeto de pesquisa (e contando). Após quase um ano, já visitei alguns amigos por aí: Stuart Hall, Michel Maffesoli, Morin, fui e voltei em Deleuze, Foucault, Didi-Huberman…  Uma hora eu acho um amigo para brincar com Peirce.

“Boy, you gonna carry that weight. For a long time.”

A ilha misteriosa do conhecimento

Atlas Mirador Internacional

“Quem não consultou página à página seu imenso atlas e, virtualmente, não percorreu através do conhecido e do desconhecido das terras ou das ciências, ilhas misteriosas porém mais que reais?”

SERRES, Michel. Atlas. Madri: Coleccíon Teorema, 1994. (P. 14)

Narrativas cartográficas

Westeros map

“A associação dos conceitos de mapa e narrativa pressupõe a expansão da definição amplamente aceita de narrativa como expressão da natureza temporal da experiência humana em um tipo de significado que envolve as quatro dimensões do espaço-tempo continuum. A dimensão temporal da narrativa não se manifesta de forma pura, tal como na música, mas em conjunção com o ambiente espacial. A mente do leitor seria incapaz de imaginar eventos narrativos sem relacioná-los aos participantes, e sem situá-los num espaço concreto. O processamento cognitivo da narrativa, portanto, envolve a criação de uma imagem mental de um mundo narrativo, uma atividade que requer o mapeamento de características relevantes desse mundo. Mas a relação entre narrativas e mapas não está limitada à pura formação de imagens mentais.”

RYAN, Marie-Laure. Narrative cartography: Toward a visual narratology. In: KINDT, Tom; MÜLLER, Hans-Harald (org.). What is narratology? Questions and answers regarding the status of a theory. Walter de Gruyter, 2003. p. 333-364

Eu diria que taí 70% do que pretendo estudar em minha tese. :-)

Fenomenologia do olhar

Fra Angelico – Anunciação

“No entanto há uma alternativa a essa incompleta semiologia. Ela se baseia na hipótese geral de que as imagens não devem sua eficácia apenas à transmissão de saberes – visíveis, legíveis ou invisíveis – mas que sua eficácia, ao contrário, atua constantemente nos entrelaçamentos ou mesmo no imbróglio de saberes transmitidos e deslocados, de não-saberes produzidos e transformados. Ela exige, pois, um olhar que não se aproximaria apenas para discernir e reconhecer, para nomear a qualquer preço o que percebe – mas que primeiramente se afastaria um pouco e se absteria de clarificar tudo de imediato. Algo como uma atenção flutuante, uma longa suspensão do momento de concluir, em que a interpretação teria tempo de se estirar em várias dimensões, entre o visível apreendido e a prova vivida de um desprendimento. Haveria assim, nessa alternativa, a etapa dialética – certamente impensável para um positivismo – que consiste em não apreender a imagem e em deixar-se antes ser apreendido por ela: portanto, em deixar-se desprender do seu saber sobre ela.O risco é grande, sem dúvida. É o mais belo risco da ficção. Aceitaríamos nos entregar às contingências de uma fenomenologia do olhar, em perpétua instância de transferência (…) ou de projeção (…) Para isso é preciso voltar ao mais simples, isto é, às obscuras evidências do ponto de partida. É preciso deixar por um momento tudo que acreditamos ver porque sabíamos nomeá-lo, e voltar a partir daí ao que nosso saber não havia podido clarificar. É preciso, portanto, voltar, aquém do visível representado, às condições mesmas de olhar, de apresentação e de figurabilidade que o afresco nos propôs desde o início.”

DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante da Imagem. São Paulo: Editora 34, 2013. P. 24

O referente espacial na literatura

Fernando Pessoa

O espectro de Ulisses é próprio ao amanhecer do referente. O herói literário precede o navegador nas regiões mais remotas do mundo, enquanto o imaginário estiver adiantado sobre a realidade. E o referente se projeta e se desenha em função do discurso. O mundo era ainda relativamente vazio (…) Hoje, é o escritor que chega na segunda posição: ele é sempre precedido por aqueles que fixaram o referente, que são, ocasionalmente, os próprios escritores. Como escrever uma linha sobre Lisboa sem os óculos de Pessoa?

WESTPHAL, Bertrand. La Géocritique: réel, fiction, espace. Paris: Les Éditions de Minuit, 2007. P. 138-139