ARRGH… é GASTREET - Daniel Melo Ribeiro

August 4, 2008

Tecnologia, sociedade e transformação histórica

Filed under: sociedade da informação, conhecimento — Daniel @ 9:51 pm

Castells abre suas reflexões sobre a Sociedade em Rede defendendo a idéia de que vivemos, nesta transição de milênio, uma verdadeira revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação. O autor desenvolve seu argumento de uma maneira envolvente, e abrange a questão da informação e das redes sob pontos de vista distintos: culturais, econômicos, sociais e políticos.

Queria destacar um trecho legal, que inclusive pode ajudar quem pretende iniciar alguma reflexão sobre o papel da tecnologia na sociedade. Num contexto onde estamos profundamente dependentes de artefatos e conexões informacionais, ingenuamente somos tentados a posicionar a tecnologia como agente transformador da sociedade. Veja o que Castells tem a nos dizer:

“Devido a sua penetrabilidade em todas as esferas da atividade humana, a revolução da tecnologia da informação será meu ponto inicial para analisar a complexidade da nova economia, sociedade e cultura em formação. Essa opção metodológica não sugere que novas formas e processos sociais surgem em conseqüência de transformação tecnológica. É claro que a tecnologia não determina a sociedade. Nem a sociedade escreve o curso da transformação tecnológica, uma vez que muitos fatores, inclusive a criatividade e iniciativa empreendedora, intervém no processo de descoberta científica, inovação tecnológica e aplicações sociais, de forma que o resultado final depende de um complexo padrão interativo. Na verdade, o dilema do determinismo tecnológico é, provavelmente, um problema infundado, dado que a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas.”

CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. A era da informação: economia, sociedade e cultura. 6ª. Edição. São Paulo: Paz e Terra, 1999. P.43

July 1, 2008

Borges e a Biblioteca de Babel: o conhecimento e o excesso de informações

Filed under: sociedade da informação, comunicação, navegação, conhecimento — Daniel @ 6:09 pm

Segue abaixo mais um trecho da minha pesquisa.

No seu famoso conto intitulado Biblioteca de Babel, Jorge Luis Borges (2007) nos apresenta uma imensa biblioteca, organizada em galerias hexagonais, repleta de prateleiras abarrotadas de livros.

A biblioteca é total, e suas prateleiras registram todas as possíveis combinações dos vinte e tantos símbolos ortográficos, ou seja, tudo o que é dado expressar: em todos os idiomas. Tudo: a história minuciosa do futuro, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da Biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catálogo verdadeiro, o evangelho gnóstico de Basílides, o comentário desse evangelho, o comentário do comentário desse evangelho, o relato verídico da tua morte, a versão de cada livro em todas as línguas, as interpolações de cada livro em todos os livros, o tratado que Beda pôde escrever (e não escreveu) sobre a mitologia dos saxões, os livros perdidos de Tácito. (BORGES, 2007)

O acervo dessa biblioteca é infinito e supõe registrar nos seus volumes toda a realidade existente. Não há, nesta biblioteca, dois livros idênticos. Há sim, inúmeras referências cruzadas a outros livros.

Quando se proclamou que a biblioteca abrangia todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade. Todos os homens se sentiram senhores de um tesouro intacto e secreto. Não havia problema pessoal ou mundial cuja eloqüente solução não existisse: em algum hexágono. O universo estava justificado, o universo bruscamente usurpou as dimensões ilimitadas da esperança. (…) Também se esperou então o esclarecimento dos mistérios da humanidade: a origem da Biblioteca e do tempo. É verossímil que esses graves mistérios possam ser explicados em palavras: se a linguagem dos filósofos não bastar, a multiforme Biblioteca produzirá o idioma inaudito que for necessário, e os vocabulários e gramáticas desse idioma. (BORGES, 2007)

Como não ficarmos eufóricos diante da possibilidade concreta de se alcançar todo o conhecimento produzido pelo homem? Bastaria apenas localizar a referência certa, em alguma determinada prateleira, para solucionar a inquietude imediata causada pela falta de informação. Não haveria problema caso essa referência não estivesse em um formato adequado para leitura, pois a própria Biblioteca, entendida como um organismo quase vivo, encarregaria-se de indicar a gramática necessária para se compreender a linguagem, para então o leitor retornar à pesquisa inicial. Por outro lado,

À desmedida esperança sucedeu, como é natural, uma depressão excessiva. A certeza de que alguma prateleira em algum hexágono encerrava livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis, pareceu quase intolerável. (…) A certeza de que tudo está escrito nos anula ou faz de nós fantasmas. (BORGES, 2007)

A inacessibilidade de referências precisas, representadas em linguagens muitas vezes incompreensíveis, levou insatisfação aos freqüentadores da Biblioteca. Ao saber que as possibilidades de conhecimento eram quase infinitas, mas que éramos incapazes de absorvê-las, o homem se frustrou. Constatou-se que tal biblioteca não seria capaz de revelar os mistérios do conhecimento humano.

Tal metáfora da Biblioteca de Babel se torna pertinente ao analisarmos a atual condição da informação no ciberespaço, onde o excesso de dados não necessariamente induz novos conhecimentos.

Em plena era da informação, quando o ciberespaço se apresenta a nós como uma grande biblioteca, uma biblioteca com todos os livros e todos os documentos, sistemas de mapeamento lógico tornam-se indispensáveis. Como não nos perderemos e não ficamos exaustos diante de tanta profusão de dados? (LEÃO, 2003)

Como usuários diários do ciberespaço, tornamo-nos dependentes de seu conteúdo, ao estabelecermos fortes laços de relacionamento uns cons outros por meio da comunicação mediada pelo computador. Quantas vezes não nos perdemos em seu labirinto de referências, ou mesmo não conseguimos o conhecimento adequado, mesmo diante de inúmeras bases de dados, a apenas poucos links de distância?

Que conhecimento queremos obter a partir da chamada sociedade da informação? Reconhecemos que a informação em rede ganhou velocidade, fluidez, penetração, mas, principalmente, tornou-se colaborativa, socialmente compartilhada. Por outro lado, o ciberespaço também permitiu a abertura de fissuras, a imposição de barreiras de acessibilidade, a invasão da privacidade, a aceleração do tempo.

Ao nos fazer crer que o acesso à Internet ao “saber universal”, que necessariamente terá sua fonte aos monopólios de saber já existentes, resolveria o problema não apenas da fratura digital, mas também o da fratura social. (…) A sociedade das redes está longe de ter colocado um fim ao etnocentrismo dos tempos imperiais. Em vez de resolver o problema, a tecnologia o desloca. Enquanto permanece a lancinante questão: como conceber e colocar em ação outros modelos de desenvolvimento? (…) A ditadura do tempo curto faz com que se atribua uma patente de novidade, e portanto de mudança revolucionária, àquilo que na verdade é produto de evoluções estruturais e de processos que estão em curso há muito tempo. (…) (devemos) refletir sobre os múltiplos entrecruzamentos das mediações sociais, culturais e educativas pelos quais se constroem os usos do mundo digital e que estão na própria origem da vida democrática. Opor-se ao fetichismo da velocidade neofordista por meio de outras relações com o tempo. (MATTELART, 2002)

Reconhece-se que estamos diante de um cenário de complexidade, independente da leitura que fizermos dos problemas ou das soluções encontradas. O excesso de dados e informações, particularmente, é um desses problemas.

Talvez o problema maior da biblioteca não seja o excesso de livros, mas sim a necessidade de novas cartografias. Cartografias mutantes, cartografias reveladoras. Cartografias tão flexíveis e coerentes com as nossas necessidades subjetivas e objetivas que, ao contrário do império borgiano, não as julgaremos inúteis, mas sim vitais para o processo de interação no ciberespaço. (LEÃO, 2003)

BORGES, Jorge Luis. Ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

LEÃO, Lucia. Cartografias em mutação: por uma estética do banco de dados. In: LEÃO, Lucia (org.). Cibercultura 2.0. São Paulo: U.N. Nojosa, 2003.

MATTELART, Armand. História da sociedade da informação. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

June 17, 2008

Redescobrindo Paul Otlet

Filed under: classificação, navegação, conhecimento — Daniel @ 11:06 am

Parece que novos pesquisadores estão redescobrindo o belga Paul Otlet como um dos pensadores que contribuiu de maneira mais relevante com o conceito de compartilhamento de documentos em rede. Em reportagem publicada hoje no New York Times, o jornalista Alex Wright traz uma nova reflexão sobre o autor, confira alguns trechos:

“In 1934, Otlet sketched out plans for a global network of computers (or “electric telescopes,” as he called them) that would allow people to search and browse through millions of interlinked documents, images, audio and video files. He described how people would use the devices to send messages to one another, share files and even congregate in online social networks. He called the whole thing a “réseau,” which might be translated as “network” — or arguably, ‘web.’”

“Although Otlet’s proto-Web relied on a patchwork of analog technologies like index cards and telegraph machines, it nonetheless anticipated the hyperlinked structure of today’s Web. ”

“Otlet’s version of hypertext held a few important advantages over today’s Web. For one thing, he saw a smarter kind of hyperlink. Whereas links on the Web today serve as a kind of mute bond between documents, Otlet envisioned links that carried meaning by, for example, annotating if particular documents agreed or disagreed with each other. That facility is notably lacking in the dumb logic of modern hyperlinks.”

Confira também este link: “International organisation and dissemination of knowledge : selected essays of Paul Otlet

May 31, 2008

A memória coletiva

Filed under: sociedade da informação, comunicação, conhecimento — Daniel @ 11:26 am

“Nascemos dentro de estruturas de aprendizado e comportamento que preexistiam a nós, e as utilizamos para delas extrair informações sobre o mundo e o lugar que nele ocupamos. (…) devemos aos outros membros do nosso contexto cultural, vivos e mortos, as formas como organizamos nossas informações sobre o mundo e as maneiras como pensamos em transformá-los.

Para permitir que seres humanos se beneficiem do conhecimento e das aptidões de outros devemos dispor de algum tipo de sistema de armazenamento para transmitir esses benefícios através dos tempos. Precisamos do equivalente social de nossas próprias memórias, efetivamente, uma memória social ou cultural.

Suponhamos que esta memória coletiva se situe, de algum modo, fora das mentes dos membros individuais do grupo, ou, melhor ainda, que se possa guardar em lugar conveniente, para consultar quando preciso. Suponhamos ainda que esta memória possa ser representada em forma duradoura, de modo que seja compreendida por todos os membros do grupo. Se essas hipóteses se concretizarem, então a memória coletiva não só sobreviverá, mas também todos os membros do grupo se beneficiarão das memórias uns dos outros. Esses fatos positivos vieram a ocorrer, mas não da forma completa e ideal que planejamos. (…) A história desta atividade externalizadora mostra a engenhosidade técnica do homem e o auge de sua atividade e criador de símbolos. Abrange uma longa saga de adaptação, invenção e inovação, dos primeiros rabiscos em pedras, cacos de cerâmica e nas paredes das cavernas até a tecnologia da informação que nos rodeia. ”

McGARRY, Kevin. O contexto dinâmico da informação. Brasília: Briquet de Lemos, 1999.

May 13, 2008

A velocidade e a informação

Filed under: sociedade da informação, conhecimento — Daniel @ 11:24 am

Trechos de uma entrevista com Umberto Eco, publicada na Folha do dia 12/05/08.

PERGUNTA - O que é certo é que alguns anos atrás o sr. disse que viveríamos de modo rapidíssimo, e agora vivemos em velocidades supersônicas.
ECO - E tudo o que existe agora será obsoleto dentro de pouco tempo. Até o e-mail será obsoleto, porque tudo será feito com o celular. Talvez as novas gerações se acostumem a isso, mas existe uma velocidade do processo que é de tal calibre que a psicologia humana talvez não consiga adaptar-se. Estamos em velocidade tão grande que não existe nenhuma bibliografia científica americana que cite livros de mais de cinco anos atrás. O que foi escrito antes já não conta, e isso é uma perda também quanto à relação com o passado.

PERGUNTA - A fé cega na internet, por outro lado, cria monstros.
ECO - Sim, parece que tudo é certo, que você dispõe de toda a informação, mas não sabe qual é confiável e qual é equivocada. Essa velocidade vai provocar a perda de memória.
E isso já acontece com as gerações jovens, que já não recordam nem quem foram Franco ou Mussolini! A abundância de informações sobre o presente não lhe permite refletir sobre o passado. Quando eu era criança, chegavam à livraria talvez três livros novos por mês; hoje chegam mil. E você já não sabe que livro importante foi publicado há seis meses. Isso também é uma perda de memória. A abundância de informações sobre o presente é uma perda, e não um ganho.

(…)

PERGUNTA - Tanta informação faz com que os jornais pareçam irrelevantes.
ECO - Esse é um de nossos problemas contemporâneos. A abundância de informação irrelevante, a dificuldade em selecioná-la e a perda de memória do passado -e não digo nem sequer da memória histórica. A memória é nossa identidade, nossa alma. Se você perde a memória hoje, já não existe alma; você é um animal. Se você bate a cabeça em algum lugar e perde a memória, converte-se num vegetal. Se a memória é a alma, diminuir muito a memória é diminuir muito a alma.

PERGUNTA - Qual seria hoje o papel da informação?
ECO - Creio que perdemos muito tempo nos formulando essas perguntas, enquanto as gerações mais jovens simplesmente deixaram de ler jornais e se comunicam por meio de mensagens de texto. Eu não posso me desligar dos jornais. Para mim, sua leitura é a oração matinal do homem moderno. Não posso tomar o café da manhã se não tiver pelo menos dois jornais para ler.
Mas talvez sejamos os resquícios de uma civilização, porque os jornais têm muitas páginas, mas não muita informação. Sobre o mesmo tema há quatro artigos que talvez digam a mesma coisa… Existe abundância de informação, mas também abundância da mesma informação.
Não sei se você se lembra de minha teoria sobre o “Fiji Journal”. Eu estava em Fiji coletando informações sobre os corais para meu livro “A Ilha do Dia Anterior” [ed. Record], e em meu hotel chegava todas as manhãs o “Fiji Journal”, que tinha oito páginas -seis de anúncios, uma de notícias locais e outra de notícias internacionais. No mês que passei ali, a primeira Guerra do Golfo estava prestes a estourar, e, na Itália, o primeiro governo de Berlusconi tinha caído. Inteirei-me de tudo porque em uma única página de notícias internacionais, em três ou quatro linhas, davam-me as notícias mais importantes.

PERGUNTA - Como a internet.
ECO - Vamos à internet para tomar conhecimento das notícias mais importantes. A informação dos jornais será cada vez mais irrelevante, mais diversão que informação. Já não nos dizem o que decidiu o governo francês, mas nos dão quatro páginas de fofocas sobre Carla Bruni e Sarkozy [atual presidente da França]. Os jornais se parecem cada vez mais com as revistas que havia para ler na barbearia ou na sala de espera do dentista.

A íntegra desta entrevista saiu no “El País”. Tradução de Clara Allain

April 21, 2008

Visualização de dados

Filed under: design da informação, conhecimento, TIDD, mapa — Daniel @ 11:10 pm

Enfim, posso decretar que este é o tema do minha dissertação. Segue um trecho do capítulo que iniciei este final de semana (lá embaixo tem uma citação, facilmente identificável pelas aspas).

O convívio com os dados é parte significativa do cotidiano dos indivíduos e se intensifica quando sua própria comunicação em sociedade é intensamente mediada por dispositivos de processamento de dados digitais. Claramente percebemos que lidar de maneira direta com esses dados será uma tarefa ingrata e desgastante, a menos que tenhamos instrumentos mais adequados de agregar algum sentido interpretativo a esses dados. A interpretação dos dados gera informação, que, trabalhada na experiência individual, torna-se insumo para gerar conhecimento.

Um caminho para instrumentalizar o indivíduo a conviver melhor nesse ambiente de saturação de dados é desenvolver ferramentas que auxiliem na sua interpretação. Há inúmeras possibilidades de filtragem e recombinação, mas que, sem uma forma adequada de exibição, dificilmente suas relações serão percebidas ou farão qualquer sentido ao indivíduo comum.

“Os artistas da visualização de dados transformam o caos informacional de pacotes de dados que se locomovem através da rede em formas claras e ordenadas. (…) A visualização de dados nos permite enxergar padrões e estruturas por detrás do vasto e aparente fortuito conjunto de dados. (…) Os dados quantitativos são reduzidos a seus padrões e estruturas, os quais, a seguir, explodem em inúmeras imagens visuais ricas e concretas.”

MANOVICH, Lev. Visualização de dados como uma nova abstração e anti-sublime. In: LEÃO, Lucia. (org.). Derivas: cartografias do ciberespaço. São Paulo: Annablume, 2004, 225p.

Se você também se interessa pelo assunto, recomendo uma visita ao meu delicious. Estive coletando coisas muito boas nos últimos dias.

April 13, 2008

Os filtros de informação

Leia mais sobre Douglas Engelbart.

O mundo digital “é o planeta nativo dos filtros de informação (…) Informação digital sem filtros é coisa que não existe, por razões que ficarão cada vez mais claras. À medida que parte cada vez maior da cultura se traduzir na linguagem digital de zeros e uns, esses filtros assumirão importância cada vez maior, ao mesmo tempo que seus papéis culturais se diversificarão cada vez mais, abrangendo entretenimento, política, jornalismo, educação e mais. O que se segue é uma tentativa de ver esses vários desenvolvimentos como exemplos de uma idéia mais ampla, uma nova forma cultural que paira em algum lugar entre meio e mensagem, uma metaforma que vive no submundo entre o produtor e o consumidor de informação. A interface é uma maneira de mapear esse território novo e estranho, um meio de nos orientarmos num ambiente desnorteante. Décadas atrás, Doug Engelbart e um punhado de outros visionários reconheceram que a explosão da informação poder ser tanto libertadora quanto destrutiva – e sem uma metaforma para nos guiar por esse espaço-informação, correríamos o risco de nos perder no excesso de informação.” (p. 33)

JOHNSON, Steven. Cultura da interface: como o computador transforma nossa maneira de criar e comunicar. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

April 7, 2008

Tecnologia e cultura

Filed under: design da informação, comunicação, conhecimento — Daniel @ 1:32 pm

“O primeiro pintor de cavernas era artista ou engenheiro? Era ambas as coisas, é claro, como o foram, em sua maior parte, os artistas e engenheiros desde então. Mas temos o hábito - cultivado por muito tempo - de imaginá-los como separados, os dois grandes afluentes correndo incessantemente para o mar da modernidade e dividindo, em seu curso, o mundo em dois campos: os que habitam nas margens da tecnologia e os que habitam na margem da cultura. (…)

Qualquer analista profissional de tendências nos dirá que os mundos da tecnologia e da cultura estão colidindo. Mas o que surpreende não é a própria colisão - é o fato de ela ser considerada novidade.”

JOHNSON, Steven. Cultura da interface: como o computador transforma nossa maneira de criar e comunicar. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

March 30, 2008

Um pouco de etimologia

Filed under: sociedade da informação, comunicação, conhecimento — Daniel @ 3:09 pm

Informação - A raiz do termo vem de formatio e forma, que transmitem a idéia de moldar algo ou formar um molde. O termo se tornou popular a partir da invenção da imprensa, que organizava as palavras e frases em uma forma.

Cálculo - Latin calculus, pedra. Origem remete ao ábaco, calculadora dos povos antigos. Algarismos e operações eram representados em pequenas pedras presas à varetas de madeira.

Digital - digitus, dedo em latin. Os caras usavam justamente sua habilidade com os dedos para fazer cálculos.

Possíveis interpretrações estranhas:

Cálculo renal
- dói muito.

Impressão digital - recentemente tirei segunda-via da minha carteira de indentidade e, ao me dirigir à sala para registrar minhas ‘impressões digitais’, por impulso veio à minha cabeça as gráficas rápidas… Em seguida, pensei em uma tecnologia de armazenamento das marcas dos dedos no computador por meio de leitores ópticos, tipo aqueles leitores de códigos de barras nos caixas eletrônicos. Saí com os dedos pretos de tinta, rindo sozinho. Mas pelo menos eles fornecem uns papéis úmidos para limpeza das mãos.

March 19, 2008

Ciberespaço: informação tátil

Filed under: sociedade da informação, comunicação, conhecimento — Daniel @ 9:43 am

“Cyberspace is a new form of perspective. It does not coincide with the audio-visual perspective which we already know. It is a fully new perspective, free of any previous reference: it is a tactile perspective. To see at a distance, to hear at a distance: that was the essence of the audio-visual perspective of old. But to reach at a distance, to feel at a distance, that amounts to shifting the perspective towards a domain it did not yet encompass: that of contact, of contact-at-a-distance: tele-contact.”

Paulo Virilio

March 13, 2008

Jenkins and Johnson

Henry Jenkins and Steven Johnson Keynote

Veja a imagem toda aqui: Henry Jenkins and Steven Johnson keynote

Blog do Jenkins

Blog do Johnson

March 2, 2008

O Mapa Fantasma: cartografia e pesquisa científica

Filed under: sistemas dinâmicos, design da informação, conhecimento, TIDD, mapa — Daniel @ 5:49 pm

No trecho a seguir, Johnson desevolve um pouco melhor o tema do seu mais recente livro.

Gostaria de destacar dois aspectos que eu gostei bastante neste livro.

a) o primeiro (já era esperado) diz respeito ao uso de informação local e o cruzamento de dados para construção de representações visuais para gerar novos conhecimentos. Na sua narrativa, o autor apresenta um problema de saúde pública que ocorreu em Londres na metade do século XIX, onde uma epidemia de cólera matou centenas de pessoas num curtíssimo intervalo de tempo. Naquela ocasião, dois indivíduos, a partir do profundo conhecimento local da região de Soho em Londres, venceram a batalha contra a doença por meio da identificação de padrões de contágio entre os moradores. Usaram, para isso, uma base de dados pública e, a partir de uma hipótese até então revolucionária que defendia a transmissão do cólera pela água, cruzaram esses dados com um mapa para criar uma representação visual que sustentasse o argumento proposto. O caso acabou por se tornar uma referência clássica nos estudos do Design da Informação, e o mapa proposto por John Snow (o cientista que liderou a pesquisa) inaugurou uma nova forma de investigação científica, onde o uso de mapas, gráficos e diagramas se tornou poderoso instrumento de descoberta.

Mapa de Soho utilizado pelo Dr. John Snow para identificar padroes de contágio do cólera em Londres

Trazendo a questão pro lado da minha pesquisa de mestrado, (aham… preciso fazer o Jabá) trata-se de um excelente exemplo que confirma a hipótese que proponho: o uso de representções visuais (mais especificamente de mapas) é um instrumento de descoberta heurística e favorece a emergência de novos conhecimentos. Em tempos de Google Maps e API’s, nada mais oportuno do que discutir dados públicos e suas aplicações que utilizam a internet como plataforma de divulgação.

b) O que também me empolgou no livro (e que eu não esperava) foi o convencimento do valor do método científico de pesquisa, questionamento de paradigmas e subversão de valores consolidados. O conhecimento humano e o progresso das civilizações é diretamente proporcional à capacidade mental de cada um de nós de duvidar de conceitos pré-estabelecidos pela tradição ou pelo senso-comum. O raciocínio crítico, no sentido de estabelecer hipóteses a partir de um problema e investigá-las na sua fonte, é o procedimento básico de todo bom pesquisador. Já falei isso aqui algum tempo atrás, mas gostaria de lembrar: o mais legal do mestrado nem é o tema da pesquisa em si, mas o aprender a pesquisar, a amadurecimento do olhar investigativo para as questões do cotidiano.

JOHNSON, Steven. O Mapa Fantasma. Como a luta de dois homens contra o cólera mudou o destino de nossas metrópoles. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

March 1, 2008

Cibercepção

Filed under: sociedade da informação, conhecimento — Daniel @ 6:40 pm

Um trecho interessante de Roy Ascott, de 1994. (apesar do exagero nos neologismos…)

“A cibercepção envolve uma convergência de processos conceituais e perceptivos em que a conectividade de redes telemáticas desempenha um papel formativo. A percepção é estar ciente dos elementos ambientais através das sensações físicas. A cibernet, a soma de todos os sistemas de mediação computadorizada interativa e de redes telemáticas do mundo, é parte de nosso aparelho sensorial. Redefine nosso corpo individual da mesma maneira que conecta todos os nossos corpos em um todo planetário. A percepção é uma sensação física interpretada à luz da experiência. A experiência é agora telematicamente compartilhada: a tecnologia das telecomunicações computadorizadas permite que mudemos dentro e fora de cada um de nós a consciência e a telepresença no fluxo mediático global. Por concepção entendemos os processos de origem, formação ou de compreensão de idéias. As idéias vêm das interações e das negociações das mentes. (…) Estamos vendo o aumento da nossa capacidade de pensar e de conceitualizar, e a ampliação e o refinamento de nossos sentidos: uma conceitualização mais rica e uma percepção mais total tanto dentro quanto além de nossas limitações anteriores de ver, pensar e construir. (…)

Até agora pensamos e vimos coisas de uma maneira linear, uma coisa depois da outra, uma coisa escondida atrás de outra, levando a esta ou àquela finalidade, e pelo caminho dividindo o mundo em categorias e classes de coisas: objetos com limites impermeáveis, superfícies com interiores impenetráveis, simplicidades superficiais de visão que ignoravam as complexidades infinitas. Mas a cibercepção significa incorporar o senso do todo, adquirir uma visão panorâmica dos fatos como o olhar de um pássaro, a visão da Terra por parte do astronauta, a visão dos sistemas do cibernauta. (…) A cibercepção é a antítese da visão do túnel ou do pensamento linear. É uma percepção simultânea de uma multiplicidade de pontos de vista, uma extensão em todas as dimensões do pensamento associativo, um reconhecimento da transitoriedade de todas as hipóteses, a relatividade de todo o conhecimento, a impermanência de toda percepção. ”

ASCOTT, Roy. A Arquitetura da cibercepção. IN: LEÃO, Lucia (org.). Interlab: labirintos do pensamento contemporâneo. São Paulo: Iluminuras, 2002.

February 24, 2008

As cidades e as redes

Filed under: sociedade da informação, comunicação, vida urbana, conhecimento — Daniel @ 10:04 pm

Este post aborda uma breve reflexão sobre três aspectos:

a) a crescente aglomeração de pessoas nas grandes metrópoles;
b) a aparente contradição entre essa tendência e as possibilidades de trabalho à distância proporcionadas pelas tecnologias de informação em rede;
c) Afinal, por que diabos fui sair do aconchego do lar materno, cercado de reagalias e iguarias (quem conhece o rango da D. Leila sabe o que estou dizendo) e me mudei para São Paulo.

Vamos começar pelo CASTELLS (1999), com sua visão mais econômica e influenciada pelos movimentos de globalização à época do seu Sociedade em Rede.

As megacidades – maiores aglomerações urbanas do mundo, segundo a ONU – em especial, se tornam palco de contradições: articulam a economia global, integrando as redes de informação. Por outro lado, abrigam outros segmentos da população em áreas negligenciadas pelas tecnologias de comunicação e ao conhecimento. Se por um lado, estão conectadas a centros globais externos, internamente evidenciam a ruptura de estruturas sociais. Ainda sim, as megacidades continuarão a crescer, pois se constituem como pólos de desenvolvimento econômico, de inovação cultural e política e de conexão às redes globais. Em sua análise da influência das tecnologias da informação no espaço urbano, também coloca que, embora os recursos de telecomunicações e transações à distância estejam proporcionando novas possibilidades econômicas, as aglomerações e a proximidade física ainda são realidade. Ou seja, o trabalho ainda é presencial e não será substituído pelo trabalho à distância num curto prazo de tempo. O problema dos transportes é crescente, uma vez que requer maior mobilidade física da força de trabalho entre centros e periferia, incentivada pela compressão temporal das empresas em rede (muito mais atividades são realizadas numa mesma jornada de trabalho). O comércio eletrônico não elimina as grandes redes de varejo físicas. Pelo contrário, hipermercados e centros de compra se expandem cada vez mais, ao mesmo tempo em que inauguram suas versões também para a Internet. Idem para os complexos de saúde e as instituições de ensino, que passam a combinar funções locais e sistemas on-line.

Agora, o nosso amigo JOHNSON (2008), aquele mesmo que veio ao Campus Party e que fui ver, na primeira fila. (o cara é bom hein, até comprei o livro novo na hora, só para trocar uma idéia pessoalmente com ele e ganhar uma dedicatória)

“A ironia, é claro, é que as redes digitais supostamente deveriam tornar as cidades menos atrativas, não mais. O poder da telecomunicação e da conectividade instantânea tornaria a idéia de núcleos urbanos densamente povoados tão obsoleta quanto as cidades muradas da Idade Média. Por que as pessoas se espremeriam em agressivos meios superpovoados quando poderiam de uma forma igualmente simples trabalhar a distância em suas próprias casas? Porém, como se comprovou, muitas pessoas, na verdade, apreciam a densidade dos meios urbanos, precisamente por oferecer a densidade de confeitarias e cinemas de arte. À medida que as tecnologias aumentam nossa capacidade de encontrar esses nichos de interesse, esse tipo de densidade simplesmente se tornará cada vez mais atrativo. Esses mapas amadores oferecem um antídoto contra a grandiosidade, a complexidade e a intimidação das grandes cidades. Fazem com que todos se sintam em casa, precisamente porque se baseiam no conhecimento dos verdadeiros moradores da região.(…)

Há um motivo para que as pessoas mais ricas do mundo – que ao escolher o local no qual desejam constituir seus lares, têm opções praticamente infinitas – escolham reiteradamente viver nas áreas mais densamente povoadas do planeta. Em última instância, vivem nesses locais pelos mesmos motivos que os favelados de São Paulo: porque é na cidade que as coisas acontecem. As cidades são centros de oportunidades, tolerância, produção de riqueza, redes sociais, saúde, controle populacional e criatividade. Embora, é claro, ao longo das próximas décadas, a Internet e seus sucedâneos continuem a exportar alguns desses valores para as comunidades rurais, sem dúvida continuarão igualmente a reforçar a experiência de vida urbana. Os transeuntes nas calçadas se beneficiam tanto, se não mais, da Internet quanto os fazendeiros.”

(Sobre os mapas que ele se referiu no texto, será tema do próximo post.)

E então, como vai a minha vida em São Paulo? Bom, por exemplo, descobri uma tal de Starbucks que está me consumindo uma grana excessiva. Mas, como diriam os críticos, “relaxa, deixa de ser munheca-de-samambaia e aproveita o que a cidade tem de melhor”.

CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. A era da informação: economia, sociedade e cultura. 6ª. Edição. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

JOHNSON, Steven. O Mapa Fantasma. Como a luta de dois homens contra o cólera mudou o destino de nossas metrópoles. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

February 11, 2008

Sobre a arquitetura líquida do ciberespaço

Estou finalizando um texto sobre “Arquiteturas líquidas do ciberespaço”. Em breve colocarei aqui, na íntegra. Enquanto isso, vou colocando alguns trechos que já escrevi.

Metodologias de construção de sistemas de informação se constituem como verdadeiros guias para os arquitetos e designers, ao sistematizar as melhores práticas consolidadas por seus praticantes e estudiosos, registradas a partir de experiências prévias. Porém, como se fundamentar em metodologias que, por estarem inseridas em um cenário de mudanças constantes, necessitam de revisões e contextualizações? Em tempos de “informação líquida”, há o perigo iminente de se basear em regras consolidadas (e portanto “sólidas”, por etimologia) que ainda não amadureceram o suficiente para compreender o potencial dos sistemas de informação hipermidiática em rede. Por outro lado, conseguiríamos hoje compreender suficientemente os princípios de variação e expansão da hipermídia no tempo, a fim de projetar arquiteturas líquidas capazes de dar maior fluidez à informação circulante? Esse é o desafio que se impõe a esses estudiosos, que, da mesma maneira, são exigidos a exercitar sua capacidade de análise num contexto de muitas incertezas, mas de rápido amadurecimento.

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