Limiares da cartografia

Defendi minha tese de doutorado no último dia 24/09/2018 na PUC-SP. Gostaria de agradecer a todos os amigos, familiares e professores que me apoiaram nesses últimos 4 anos de pesquisa. Essa conquista não teria sido possível sem a força de vocês!

Download do arquivo da tese: Limiares da cartografia: deambulação, arqueologia e montagem no mapeamento de lugares.

RIBEIRO, Daniel Melo. Limiares da cartografia: deambulação, arqueologia e montagem no mapeamento de lugares. 2018. 298 p. Tese (Doutorado em Comunicação e Semiótica) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2018.

Resumo

Esta tese trata de propriedades comunicacionais e semióticas dos mapas. Investigamos práticas alternativas de mapeamento que incentivam outras maneiras de perceber o espaço. Diante dessa motivação, colocamos a seguinte pergunta: Quais aspectos do espaço poderiam ser comunicados em um mapa a partir do questionamento do código e das convenções da cartografia? Como corpus, selecionamos quatro tendências que exploram os limites da linguagem cartográfica: a map art, as mídias locativas, a cartografia literária e o mapeamento profundo. Os exemplos de mapeamento selecionados são analisados à luz da semiótica de Charles S. Peirce. Após essa análise, a pesquisa destaca a área conhecida como mapeamento profundo, a fim de promover uma discussão metodológica sobre mapeamentos de lugares. Propomos um modelo de mapeamento baseado em três etapas: a deambulação, a arqueologia e a montagem. O desenvolvimento dessas etapas foi inspirado na filosofia de Walter Benjamin. Consideramos que a crítica à modernidade desenvolvida por Benjamin está ligada à interpretação da cultura material urbana, cujo potencial narrativo se encontra latente em fragmentos e indícios de caráter arqueológico. O mapeamento desses fragmentos inicia-se por um exercício de deambulação (ou flânerie), passa por uma leitura arqueológica e se consolida num processo de montagem. Portanto, o objetivo principal é propor um modelo que estimule a criação de representações cartográficas evidenciando três propriedades do mapeamento profundo: a experiência corporal com o espaço (deambulação), a dimensão histórica (arqueologia) e a leitura crítica (montagem). Por fim, fundamentados nos argumentos desenvolvidos por Benjamin, defendemos a hipótese de que os mapeamentos alternativos resgatam as experiências limiares, ligadas aos ambientes de transição e hibridismo, apresentando-se como formas de resistência ao dispositivo cartográfico.

Palavras-chave: Mapas. Cartografia. Semiótica. Limiares. Walter Benjamin.

Um breve relato de uma tese

Tese de doutorado de Daniel Melo Ribeiro

Limiares da cartografia: deambulação, arqueologia e montagem no mapeamento de lugares

Acabo de depositar os volumes da minha tese. Formalmente, ainda não terminei o doutorado. É preciso ainda passar pelo ritual da banca, agendado para o próximo dia 24 de setembro, no campus Perdizes da PUC-SP (sinta-se convidado a comparecer! Será um prazer contar com a sua presença)

Literalmente, livrei-me de um peso. Noto, claramente, uma mudança de humor, uma leveza que não sentia há cerca de 4 anos, quando resolvi topar essa encrenca.

Para mim, o doutorado foi muito mais passional que o mestrado. Resolvi, por opção, mergulhar profundamente nessa empreitada. Juntei uma grana, afastei-me do mercado de trabalho e “abracei o capeta”. Posso agora dizer com um pouco mais de clareza que foi a experiência mais intensa e contraditória que já vivi, uma mistura de vaidade, orgulho e autoconhecimento (de um lado) e desgaste emocional, angústia e, principalmente, insegurança (de outro lado). Mas, sem dúvida, é uma conquista pessoal que não tem preço. Escrever uma tese é um marco, ainda mais em tempos tão sombrios quanto esses que estamos vivendo no Brasil. Perseguir um título de doutor, nesse contexto, é quase uma insanidade.

Em breve, publicarei fotos da banca. Também irei fazer uma lista de agradecimentos, afinal, não foram poucos os que seguraram a minha mão nesta jornada.

Coloquei uma parcela significativa da minha vida em 300 páginas. Mas, nada disso teria sido possível sem o apoio da minha esposa, Letícia. Foi ela que segurou a corda, caso contrário eu estaria, certamente, à deriva.

O cinema e o espírito do tempo

Kracauer, analisando o contexto cinematográfico alemão que antecedeu a ascensão do nazismo.

Aquí se plantea una contradicción. Por un lado, una mayoría de alemanes – en particular de la clase media – trataban de rechazar las nociones socialistas, insistiendo en el concepto idealista del individuo autónomo. Por otro lado, esa misma gente estaba ansiosa de renunciar a la autonomía individual a favor de una total dependencia del gobernante autocrático, siempre que – claro está – evitara cualquier intrusión en la propiedad privada. Esta paradoja, nacida del interés en salvaguardar privilegios vitales, parecía ser inevitable (p. 115)

KRACAUER, Siegfried. De Caligari a Hitler: Una historía psicológica del cine alemán Barcelona: Ediciones Paidós, 1985.

A semelhança com o nosso contexto brasileiro atual não poderia ser mais escancarada. Enquanto isso, notamos, perplexos, a história se repetir.

A arqueologia benjaminiana para iluminar o presente midiático

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Artigo que escrevi junto com a profa. Lucia Santaella sobre a arqueologia em Walter Benjamin. O artigo foi publicado no livro da Compós, edição de 2017.

Aprendi muito ao escrever esse artigo. Sinto-me cada vez mais envolvido com a filosofia de Walter Benjamin. Espero que gostem!

Resumo:

Entende-se a arqueologia como a ciência das ruínas que recupera fragmentos soterrados em busca de novas interpretações da história. A investigação arqueológica pode nos conduzir a uma reconstrução do nosso próprio presente, uma vez que estabelece novas conexões com o passado. Segundo Benjamin, essas conexões surgem como um “lampejo” a partir de uma tensão dialética de caráter temporal. A esse “lampejo”, Benjamin deu o nome de “imagem dialética”. Assim, defendemos a hipótese de que as imagens podem ser instrumentos heurísticos de representação da realidade, evidenciando propriedades anacrônicas da cultura. Dessa maneira, reforçamos que a postura crítica de Benjamin em relação à história gera profundas implicações para os estudos da comunicação.

SANTAELLA, Lucia. RIBEIRO, Daniel Melo. A arqueologia benjaminiana para iluminar o presente midiático. In: MUSSE, Christina Ferraz; SILVA, Herom Vargas; NICOLAU, Marcos Antonio. Comunicação, mídias e temporalidades. Edufba; Brasília, Compós, 2017. ISBN 978-85-232-1592-7.

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Documentos de cultura, documentos de barbárie

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PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO QUE LÊ
Brecht, 1935

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?

A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam
gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou?

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou,
quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.

 

Imagem dialética, imagem sobrevivente

Rue Jeanne d'Arc, 13ème arrondissement, Paris

Rue Jeanne d’Arc, 13ème arrondissement, Paris

“A imagem dialética à qual nos convida Benjamin consiste, antes, em fazer surgirem os momentos inestimáveis que sobrevivem, que resistem a tal organização de valores, fazendo-a explodir em momentos de surpresa. Busquemos, então, as experiências que se transmitem ainda para além de todos os espetáculos comprados e vendidos a nossa volta (…) Somos ‘pobres em experiência’? Façamos dessa mesma pobreza – dessa semiescuridão – uma experiência.(…) O valor da experiência caiu de cotação, mas cabe somente a nós, em cada situação particular, erguer essa queda à dignidade, à nova beleza de uma coreografia, de uma invenção de formas. Não assume a imagem, em sua própria fragilidade, em sua intermitência de vaga-lume, a mesma potência, cada vez que ela nos mostra sua capacidade de reaparecer, de sobreviver?”

DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. P. 127

Uma análise semiótica dos mapas da "Guerra dos Tronos"

Nesta semana, apresentei um artigo no V ComCult, congresso organizado pelos colegas do CISC que ocorreu na Cásper Libero. Vi muitas pesquisas excelentes, pena que não pude acompanhar todo os dias do congresso.

Segue o resumo da minha apresentação. O artigo completo está disponível aqui.

The North of Westeros, by J.E. Fullerton

Cartografia Literária: uma abordagem Cartossemiótica sobre A Guerra dos Tronos

Resumo
A cartografia é a ciência que estuda a representação do espaço, cujo principal objeto de investigação é o mapa. Por sua vez, a cartografia literária é o ramo de estudos que investiga as relações dos mapas com o espaço dos textos literários. Neste artigo, é feita uma breve análise semiótica de um dos mapas da série A Guerra dos Tronos. A metodologia de análise está baseada na teoria dos signos desenvolvida por Charles Peirce. A semiótica de Peirce afirma que os mapas se constituem como um tipo especial de signo que pode revelar analogias estruturais do objeto representado. Assim, parte-se da hipótese de que os mapas literários tornam visíveis as articulações descritas na narrativa e funcionam como dispositivos de raciocínio.

Palavras-chave: Mapas. Semiótica. Literatura. Cartografia. A Guerra dos Tronos.

O limiar extremo, ou a fronteira da morte

The Walter Benjamin Memorial, em Portbou

“A última fronteira nesta viagem é uma fronteira real. Regresso a Port Bou, 26 de Setembro de 1940, ao limiar absoluto perante o qual Benjamin, fugitivo a caminho de uma terra americana prometida, mas não verdadeiramente desejada, se viu na última fronteira, num lugar no qual é possível encontrar hoje uma obra que será uma das mais conseguidas réplicas do pensamento suspenso, da busca de limiares e da permanência neles como terreno mais fértil desse tipo de pensamento num autor como Benjamin.

No memorial do israelita Dani Karavan, suspenso sobre o mar à entrada do cemitério de Port Bou (nos Pirinéus Orientais), onde Benjamin estará enterrado, materializou-se, na fronteira, a ideia do limiar. Aí, limiar e fronteira confundem- se, encontram-se de novo. Benjamin, o pensador dos limiares, transpôs o derradeiro num lugar de fronteira.

O memorial, no adro do cemitério, é basicamente constituído por um túnel inclinado, de secção rectangular, que desemboca sobre o mar, por um muro em frente da entrada que funciona como estela para receber as pedrinhas que encontramos nos cemitérios judeus e, mais acima na encosta, por um caminho que vai dar a uma velha oliveira.” (p. 50)

BARRENTO, João. Walter Benjamin: limiar, fronteira e método. Olho d’água, v. 4, n. 2, 2013.

 

L'image survivante

Prancha do Altas Mnemosyne, de Warburg

“As sobrevivências advêm como imagens: é essa a hipótese warburguiana sobre a longevidade ocidental e sobre as ‘linhas divisórias entre as culturas’ (o que permitiria, por exemplo, reconhecer na substância imagética de um afresco do quattrocento italiano o fantasma ativo e sobrevivente de um antigo astrólogo árabe). As sobrevivências advêm como imagens: é isso que exige de nós algo além de uma simples história da arte. Warburg desenvolveu toda a sua ideia das imagens sobreviventes na óptica – sempre nietzschiana – de uma genealogia das semelhanças, ou seja, de um modo autenticamente crítico de contemplar o devir das formas, contrariando toda sorte de teleologias, positivismos e utilitarismos.” (p. 152)

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: História da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

A realidade insiste

Desabafo acadêmico: já estou na versão 25 do meu projeto de pesquisa (e contando). Após quase um ano, já visitei alguns amigos por aí: Stuart Hall, Michel Maffesoli, Morin, fui e voltei em Deleuze, Foucault, Didi-Huberman…  Uma hora eu acho um amigo para brincar com Peirce.

“Boy, you gonna carry that weight. For a long time.”