Uma análise semiótica dos mapas da "Guerra dos Tronos"

Nesta semana, apresentei um artigo no V ComCult, congresso organizado pelos colegas do CISC que ocorreu na Cásper Libero. Vi muitas pesquisas excelentes, pena que não pude acompanhar todo os dias do congresso.

Segue o resumo da minha apresentação. O artigo completo está disponível aqui.

The North of Westeros, by J.E. Fullerton

Cartografia Literária: uma abordagem Cartossemiótica sobre A Guerra dos Tronos

Resumo
A cartografia é a ciência que estuda a representação do espaço, cujo principal objeto de investigação é o mapa. Por sua vez, a cartografia literária é o ramo de estudos que investiga as relações dos mapas com o espaço dos textos literários. Neste artigo, é feita uma breve análise semiótica de um dos mapas da série A Guerra dos Tronos. A metodologia de análise está baseada na teoria dos signos desenvolvida por Charles Peirce. A semiótica de Peirce afirma que os mapas se constituem como um tipo especial de signo que pode revelar analogias estruturais do objeto representado. Assim, parte-se da hipótese de que os mapas literários tornam visíveis as articulações descritas na narrativa e funcionam como dispositivos de raciocínio.

Palavras-chave: Mapas. Semiótica. Literatura. Cartografia. A Guerra dos Tronos.

O limiar extremo, ou a fronteira da morte

The Walter Benjamin Memorial, em Portbou

“A última fronteira nesta viagem é uma fronteira real. Regresso a Port Bou, 26 de Setembro de 1940, ao limiar absoluto perante o qual Benjamin, fugitivo a caminho de uma terra americana prometida, mas não verdadeiramente desejada, se viu na última fronteira, num lugar no qual é possível encontrar hoje uma obra que será uma das mais conseguidas réplicas do pensamento suspenso, da busca de limiares e da permanência neles como terreno mais fértil desse tipo de pensamento num autor como Benjamin.

No memorial do israelita Dani Karavan, suspenso sobre o mar à entrada do cemitério de Port Bou (nos Pirinéus Orientais), onde Benjamin estará enterrado, materializou-se, na fronteira, a ideia do limiar. Aí, limiar e fronteira confundem- se, encontram-se de novo. Benjamin, o pensador dos limiares, transpôs o derradeiro num lugar de fronteira.

O memorial, no adro do cemitério, é basicamente constituído por um túnel inclinado, de secção rectangular, que desemboca sobre o mar, por um muro em frente da entrada que funciona como estela para receber as pedrinhas que encontramos nos cemitérios judeus e, mais acima na encosta, por um caminho que vai dar a uma velha oliveira.” (p. 50)

BARRENTO, João. Walter Benjamin: limiar, fronteira e método. Olho d’água, v. 4, n. 2, 2013.

 

L'image survivante

Prancha do Altas Mnemosyne, de Warburg

“As sobrevivências advêm como imagens: é essa a hipótese warburguiana sobre a longevidade ocidental e sobre as ‘linhas divisórias entre as culturas’ (o que permitiria, por exemplo, reconhecer na substância imagética de um afresco do quattrocento italiano o fantasma ativo e sobrevivente de um antigo astrólogo árabe). As sobrevivências advêm como imagens: é isso que exige de nós algo além de uma simples história da arte. Warburg desenvolveu toda a sua ideia das imagens sobreviventes na óptica – sempre nietzschiana – de uma genealogia das semelhanças, ou seja, de um modo autenticamente crítico de contemplar o devir das formas, contrariando toda sorte de teleologias, positivismos e utilitarismos.” (p. 152)

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: História da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

A técnica do escritor em treze teses – Walter Benjamin

I – Quem quiser lançar-se a escrever uma obra de fôlego, instale-se comodamente e conceda a si próprio ao fim de cada dia de trabalho tudo aquilo que não prejudique a sua continuação.

II – Fale do que escreveu, se quiser, mas não leia nada a ninguém enquanto o trabalho estiver em curso. Toda a satisfação que daí possa retirar retardará o seu ritmo. Seguindo esse regime, o desejo crescente de comunicação acabará por ser um estímulo à conclusão.

III – Quanto às condições de trabalho, procure fugir à mediocridade da vida cotidiana. O meio sossego, acompanhado de ruídos pouco estimulantes, é degradante. Já o ruído de fundo de um estudo musical ou da confusão de vozes pode ser tão importante para o trabalho quanto o silêncio tangível da noite. Se este afina o ouvido interior, aqueles se tornam pedra de toque de uma dicção cuja riqueza consegue absorver em si até esses ruídos excêntricos.

IV – Evite servir-se do primeiro instrumento de trabalho que tenha à mão. É útil o apego pedante a determinados tipos de papel, canetas, tintas. Sem luxos, mas com a indispensável abundância desses utensílios.

V – Não deixe que nenhum pensamento passe por você incógnito, e use o seu bloco de notas com o mesmo rigor com que os serviços oficiais fazem o registro dos estrangeiros.

VI – Torne a sua caneta avessa à inspiração, e ela a atrairá a si com a força de um ímã. Quanto mais refletir antes de passa a escrito uma intuição, tanto mais amadurecida ela se te oferecerá. A fala conquista o pensamento, mas a escrita domina-o.

VII – Nunca deixe de escrever pelo fato de não o ocorrer mais nada. Um dos mandamentos da honra literária é o de interromper a escrita apenas quando há de respeitar uma hora marcada (uma refeição, um encontro) ou quando damos o trabalho por terminado.

VIII – Preencha os momentos de falta de inspiração passando a limpo o que já escreveu. Entretanto, a inspiração despertará.

IX – Nulla dies sine linea – mas semanas sim.

X – Nunca dê uma obra por acabada sem ter mergulhada nela uma vez mais, desde o serão até o nascer do dia.

XI – Não escreva a conclusão do trabalho no lugar onde habitualmente trabalha. Aí, perderia a coragem de fazê-lo.

XII – Graus da elaboração da obra: pensamento – estilo – escrita. A finalidade do pasar a limpo é a de que agora toda a atenção se concentre na caligrafia. O pensamento mata a inspiração, o estilo aprisiona o pensamento, a escrita recompensa o estilo.

XIII – A obra é a máscara mortuária da sua concepção.

BENJAMIN, Walter. Rua de mão única: infância berlinense: 1900. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.

A lógica do aprendizado

Pollock

“Aprender é adquirir um hábito. O que faz os homens aprenderem? Não meramente a visão daquilo que estão acostumados, mas perpétuas experiências novas, que os lança a um hábito de abandonar velhas ideias e formar novas.” (p. 142)

PEIRCE, Charles S. The New Elements of Mathematics, 4 vols., ed. EISELE, C. The Hague: Mouton, 1976.

Em outras palavras: aprender gera desconforto. A comodidade e o conservadorismo não fazem nada além de reforçar a mediocridade do mundo.

Segue um convite, portanto, a abrirmos os olhos para as qualidades ao nosso redor: uma experiência onde não há passado nem futuro, só o presente. A partir das qualidades, desse estado poroso, alimentamos nossa mente de novos signos para gerar novas conexões.

O crescimento requer o outro.

A iconologia dos intervalos

Atlas Mnemosyne, Aby Warburg

A nossa experiência das imagens, ainda que monstruosas, deve ficar a cargo de uma verdadeira experimentação sobre a mesa de trabalho do pensador, do artista ou do historiador da arte. É isto que justifica um projeto como o atlas Mnemósine: que os monstros da Phantasie sejam ao mesmo tempo reconhecidos e criticados sobre a mesa de trabalho, ou de montagem, de um investigador capaz de fazer coincidir as imagens no laboratório de uma longa iconologia das civilizações. (p. 142)

DIDI-HUBERMAN, Georges. Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta. Lisboa: KKYM+ EAUM, 2013.

Ler o mundo

Paris, capitale du XIX siècle

Ler o mundo é algo demasiado fundamental para ser apenas confiado aos livros, ou a eles confinado: porque ler o mundo é também ligar as coisas do mundo segundo as suas ‘relações íntimas e secretas’, as suas ‘correspondências’ e as suas analogias.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta. Lisboa: KKYM+ EAUM, 2013. p. 15

O conhecimento pela imaginação

Não se lê um atlas como se lê um romance, um livro de história, ou uma dissertação filosófica, da primeira à ultima página. Além disso, um atlas começa amiúde – não tardaremos a verificá-lo – de forma arbitrária ou problemática, muito diferente do início de uma história ou da premissa de uma tese; quanto ao seu final, remete-nos geralmente para o surgimento de uma nova região, de uma nova zona do saber ainda por explorar, de modo que um atlas raramente possui uma forma que se possa tomar por definitiva. Ademais, um atlas dificilmente se constitui por ‘páginas’ no sentido habitual do termo: será antes por tabelas, por pranchas, onde se encontram dispostas imagens, pranchas que consultamos com um fim específico ou que folheamos por prazer, deixando divagar, de imagem em imagem e de prancha em prancha, a nossa ‘vontade de saber’. A experiência demonstra que quase sempre usamos o atlas combinando estes dois gestos, aparentemente tão distintos: começamos por abri-lo à procura de uma informação concreta, mas, uma vez obtida essa informação, não é forçoso que o abandonemos, continuando então a calcorrear as suas bifurcações em todos os sentidos, sem podermos encerrar a coleção de pranchas senão depois de deambular durante algum tempo, de forma errática e na ausência de uma intenção precisa, através de sua floresta, do seu dédalo, do seu tesouro. Até a vez seguinte, igualmente inútil ou fecunda. (p.11)

Nem comecei o livro direito e, logo na primeira página, já vi que vou gostar. 🙂

DIDI-HUBERMAN, Georges. Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta. Lisboa: KKYM+ EAUM, 2013.

A realidade insiste

Desabafo acadêmico: já estou na versão 25 do meu projeto de pesquisa (e contando). Após quase um ano, já visitei alguns amigos por aí: Stuart Hall, Michel Maffesoli, Morin, fui e voltei em Deleuze, Foucault, Didi-Huberman…  Uma hora eu acho um amigo para brincar com Peirce.

“Boy, you gonna carry that weight. For a long time.”