A lógica do aprendizado

Pollock

“Aprender é adquirir um hábito. O que faz os homens aprenderem? Não meramente a visão daquilo que estão acostumados, mas perpétuas experiências novas, que os lança a um hábito de abandonar velhas ideias e formar novas.” (p. 142)

PEIRCE, Charles S. The New Elements of Mathematics, 4 vols., ed. EISELE, C. The Hague: Mouton, 1976.

Em outras palavras: aprender gera desconforto. A comodidade e o conservadorismo não fazem nada além de reforçar a mediocridade do mundo.

Segue um convite, portanto, a abrirmos os olhos para as qualidades ao nosso redor: uma experiência onde não há passado nem futuro, só o presente. A partir das qualidades, desse estado poroso, alimentamos nossa mente de novos signos para gerar novas conexões.

O crescimento requer o outro.

A iconologia dos intervalos

Atlas Mnemosyne, Aby Warburg

A nossa experiência das imagens, ainda que monstruosas, deve ficar a cargo de uma verdadeira experimentação sobre a mesa de trabalho do pensador, do artista ou do historiador da arte. É isto que justifica um projeto como o atlas Mnemósine: que os monstros da Phantasie sejam ao mesmo tempo reconhecidos e criticados sobre a mesa de trabalho, ou de montagem, de um investigador capaz de fazer coincidir as imagens no laboratório de uma longa iconologia das civilizações. (p. 142)

DIDI-HUBERMAN, Georges. Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta. Lisboa: KKYM+ EAUM, 2013.

Ler o mundo

Paris, capitale du XIX siècle

Ler o mundo é algo demasiado fundamental para ser apenas confiado aos livros, ou a eles confinado: porque ler o mundo é também ligar as coisas do mundo segundo as suas ‘relações íntimas e secretas’, as suas ‘correspondências’ e as suas analogias.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta. Lisboa: KKYM+ EAUM, 2013. p. 15

O conhecimento pela imaginação

Não se lê um atlas como se lê um romance, um livro de história, ou uma dissertação filosófica, da primeira à ultima página. Além disso, um atlas começa amiúde – não tardaremos a verificá-lo – de forma arbitrária ou problemática, muito diferente do início de uma história ou da premissa de uma tese; quanto ao seu final, remete-nos geralmente para o surgimento de uma nova região, de uma nova zona do saber ainda por explorar, de modo que um atlas raramente possui uma forma que se possa tomar por definitiva. Ademais, um atlas dificilmente se constitui por ‘páginas’ no sentido habitual do termo: será antes por tabelas, por pranchas, onde se encontram dispostas imagens, pranchas que consultamos com um fim específico ou que folheamos por prazer, deixando divagar, de imagem em imagem e de prancha em prancha, a nossa ‘vontade de saber’. A experiência demonstra que quase sempre usamos o atlas combinando estes dois gestos, aparentemente tão distintos: começamos por abri-lo à procura de uma informação concreta, mas, uma vez obtida essa informação, não é forçoso que o abandonemos, continuando então a calcorrear as suas bifurcações em todos os sentidos, sem podermos encerrar a coleção de pranchas senão depois de deambular durante algum tempo, de forma errática e na ausência de uma intenção precisa, através de sua floresta, do seu dédalo, do seu tesouro. Até a vez seguinte, igualmente inútil ou fecunda. (p.11)

Nem comecei o livro direito e, logo na primeira página, já vi que vou gostar. 🙂

DIDI-HUBERMAN, Georges. Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta. Lisboa: KKYM+ EAUM, 2013.

A realidade insiste

Desabafo acadêmico: já estou na versão 25 do meu projeto de pesquisa (e contando). Após quase um ano, já visitei alguns amigos por aí: Stuart Hall, Michel Maffesoli, Morin, fui e voltei em Deleuze, Foucault, Didi-Huberman…  Uma hora eu acho um amigo para brincar com Peirce.

“Boy, you gonna carry that weight. For a long time.”

O embate teórico

Stuart Hall

“A única teoria que vale a pena reter é aquela que você tem de contestar, não a que você fala com profunda fluência.”

“Lembro-me de ter lutado com Althusser. Lembro-me de, ao ver a ideia de ‘prática teórica’ em Lendo o Capital, pensar: ‘já li o suficiente’. Disse a mim mesmo: não cederei um milímetro a esta tradução pós-estruturalista mal feita do marxismo clássico, a não ser que ela consiga me vencer, a não ser que consiga me derrotar no espírito. Terá que caminhar sobre o meu cadáver para me convencer. Declarei-lhe guerra, até a morte.”

HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. (p. 204)

O trecho acima foi retirado de um ensaio de Hall sobre os legados teóricos dos estudos culturais. Hall descreve como as pesquisas do CCCS de Birmingham haviam herdado marcos conceituais do marxismo, como as noções de poder e exploração, classe social, política e teoria econômica. Por outro lado, o próprio marxismo foi motivo de questionamento por parte dos pesquisadores do centro, principalmente por seu caráter doutrinário, determinista e eurocentrista.

A citação demonstra, ao mesmo tempo, uma postura interessante do autor para com seus “anjos”: um respeito que convive com uma contestação crítica quase “petulante.”

Taí uma postura que ainda preciso desenvolver: olhar para uma obra e um autor com a devida consideração, mas, ao mesmo tempo, desejar derrubá-la e criticá-la.

Em fevereiro de 2014, ele faleceu, aos 82 anos.

E aí, já encontrou seu ’embate teórico’?

Codificação e decodificação

“A realidade existe fora da linguagem, mas é constantemente mediada pela linguagem ou através dela: e o que nós podemos saber e dizer tem de ser produzido no discurso e através dele. O ‘conhecimento’ discursivo é o produto não da transparente representação do ‘real’ na linguagem, mas da articulação da linguagem em condições e relações reais. Assim, não há discurso inteligível sem a operação de um código. Os signos icônicos são, portanto, signos codificados também – mesmo que aqui os códigos trabalhem de forma diferente daquela de outros signos. Não há grau zero em linguagem. Naturalismo e ‘realismo’ – a aparente fidelidade da representação à coisa ou ao conceito representado – é o resultado, o efeito, de uma certa articulação específica da linguagem sobre o ‘real’. É o resultado de uma prática discursiva.”

HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

Neste trecho, Hall dialoga, de maneira explícita, com a Semiótica de Peirce para descrever seu modelo de codificação e decodificação dos meios de comunicação.

Fiquei um pouco aliviado em saber disso… Estava um pouco aflito em usar ambos os autores na minha tese, pois achava que se tratava de duas correntes bem disconexas.

Conhecendo um pouco melhor o histórico de Hall, isso parece começar a fazer algum sentido. Afinal, sua formação acadêmica foi na área linguística.

Autor e criatividade

Toda informação se produz como síntese de informações precedentes, por diálogo que troca bits de informação para conseguir informação nova. O mito do autor pressupõe que o “fundador” (o gênio, o Grande Homem) produz informação nova a partir do nada (da “fonte”). (…) Atualmente, a massa das informações disponíveis adquiriu dimensões astronômicas: não cabe mais em memórias individuais, por mais “geniais” que sejam. Por mais “genial” que seja, a memória individual não pode armazenar senão parcelas das informações disponíveis. E tais parcelas armazenas aumentaram, elas também, de modo que o consumidor médio detém atualmente mais informações que o “gênio” renascentista. Tais parcelas de informação exigem processamento de dados para serem sintetizadas em informação nova: a memória humana se revela lenta demais para poder processar semelhante quantidade de dados. O diálogo interno e solitário se tornou inoperante.

Flusser “decreta” o fim do conceito de autor, como aquele criador solitário, genial e único. A criação de informações novas é sempre fruto de recombinações de informações precedentes. O criativo, portanto, seria aquele indivíduo que domina a técnica de melhor combinar as peças para formar algo inesperado, tal como um jogador.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

Os novos filhos da revolução

A revolução cultural atual, a que vai acabar com as formas sagradas, é revolução “técnica”, não política, e é isto que nos confunde. Mas o mesmo pode ser afirmado a respeito de todas as revoluções culturais precedentes. A revolução neolítica, por exemplo, surge a partir de novas técnicas da pecuária e da agricultura, e a revolução industrial surge a partir de novas técnicas apoiadas em teorias. Ambas as revoluções acabaram com o que se tinha previamente por sagrado. Os revolucionários “políticos” vieram depois dos técnicos para injetar “valores”, para “sacralizar” as formas sociais emergentes. Por exemplo, os fundadores das religiões neolíticas, os jacobinos e os bolchevistas. Os verdadeiros revolucionários eram os “inventores” da vaca e da máquina, mas eles não se consideraram revolucionários nem foram assim considerados. O mesmo vale a para a atulidade. São os inventores das imagens técnicas (e dos demais produtos revolucionários) que derrubaram o sagrado, e Daguerre e Niepce são mais perigosos para os nossos valores que Robespierre ou Lenin.

Quem se engaja politicamente na atualidade deve se haver não com as formas sagradas, mas com as novas técnicas. Seu engajamento deve ser o de “valores” nas formas emergentes. E, para fazê-lo, precisa analisar criticamente tais novas formas. (…)

O novo engajamento político, entretanto, não se dirige contra as imagens. Ele procura inverter a função das imagens, mas admite que elas continuaram a formar o centro da sociedade por todo o futuro previsível. Ele procura fazer com que as imagens sirvam a diálogos mais que a discursos, mas não pretende aboli-las. O novo engajamento político nasceu no interior da revolução técnica atual, ele não se opõe a ela. (…) É que os novos revolucionários são “imaginadores”, eles produzem e manipulam as imagens, eles procuram utilizar sua nova imaginação em função da reformulação da sociedade. Os novos revolucionários são fotógrafos, filmadores, gente do vídeo, gente do software, e técnicos, programadores, críticos, teóricos e outros que colaboram com os produtores de imagens. Toda essa gente procura injetar valores, “politizar” as imagens, a fim de criar sociedade digna de homens.

(…) Tal reformulação revolucionária da sociedade informática, na qual as imagens deixariam de ser imperativas e passariam a ser dialógicas, seria ainda sociedade “informática”, mas com um significado novo para o termo.

Flusser escreveu isso em um contexto onde a efervescência das novas tecnologias de comunicação se tornava cada vez mais evidente. Os mass media, tal como foram idealizados no modelo de broadcast começavam a sofrer abalos estruturais pelos fluxos laterais proporcionados pelas tecnologias de comunicação em rede e pela informática. De fato, como foi possível constatar após esses anos, os verdadeiros revolucionários desse período (as últimas 3 décadas do século XX), não foram aqueles que berraram contra a TV e os jornais nas ruas, com megafones, cartazes, bombas e golpes de estado. Mas sim os técnicos que se aprofundaram na tecnologia para usar a informação (a “imagem” no caso do Flusser) para revirar o balaio. Foram os pesquisadores americanos inventores da internet, uma rede descentralizada justamente construída sobre uma plataforma mantida por uma das entidades “sagradas”: o exército. Essa visão “otimista” sugerida pelo Flusser foi muito bem captada por outros autores mais contemporâneos, como Castells e Levy. A “sociedade em rede” e a “cibercultura” de fato sintetizavam o espírito revolucionário da virada do século. (eu adoro esses textos!)

Após alguns anos, o otimismo esfriou? Quando vemos a inundação de dados (selfies, foodies, check-ins, tags, tweets) gerada pelas câmeras dos smartphones, GPS e outros dispositivos hiperconectados não estaríamos diante de uma nova da massificação desestimulante? Qual é o sentido dessa profusão? Os gênios revolucionários da tecnologia (Steve Jobs e Google) criaram os novos monstros engolidores de dados do momento. Tais revolucionários visionários, assim como os burgueses jacobinos e os bolchevistas, foram astutos e espertos o suficiente para fazer a revolução, mudar as peças do jogo e tomar a champagne no final.

Talvez a alternativa esteja dentro do próprio sistema, como por exemplo a cultura do software livre as iniciativas dos dados abertos.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.