A iconologia dos intervalos

Atlas Mnemosyne, Aby Warburg

A nossa experiência das imagens, ainda que monstruosas, deve ficar a cargo de uma verdadeira experimentação sobre a mesa de trabalho do pensador, do artista ou do historiador da arte. É isto que justifica um projeto como o atlas Mnemósine: que os monstros da Phantasie sejam ao mesmo tempo reconhecidos e criticados sobre a mesa de trabalho, ou de montagem, de um investigador capaz de fazer coincidir as imagens no laboratório de uma longa iconologia das civilizações. (p. 142)

DIDI-HUBERMAN, Georges. Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta. Lisboa: KKYM+ EAUM, 2013.

Ler o mundo

Paris, capitale du XIX siècle

Ler o mundo é algo demasiado fundamental para ser apenas confiado aos livros, ou a eles confinado: porque ler o mundo é também ligar as coisas do mundo segundo as suas ‘relações íntimas e secretas’, as suas ‘correspondências’ e as suas analogias.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta. Lisboa: KKYM+ EAUM, 2013. p. 15

O conhecimento pela imaginação

Não se lê um atlas como se lê um romance, um livro de história, ou uma dissertação filosófica, da primeira à ultima página. Além disso, um atlas começa amiúde – não tardaremos a verificá-lo – de forma arbitrária ou problemática, muito diferente do início de uma história ou da premissa de uma tese; quanto ao seu final, remete-nos geralmente para o surgimento de uma nova região, de uma nova zona do saber ainda por explorar, de modo que um atlas raramente possui uma forma que se possa tomar por definitiva. Ademais, um atlas dificilmente se constitui por ‘páginas’ no sentido habitual do termo: será antes por tabelas, por pranchas, onde se encontram dispostas imagens, pranchas que consultamos com um fim específico ou que folheamos por prazer, deixando divagar, de imagem em imagem e de prancha em prancha, a nossa ‘vontade de saber’. A experiência demonstra que quase sempre usamos o atlas combinando estes dois gestos, aparentemente tão distintos: começamos por abri-lo à procura de uma informação concreta, mas, uma vez obtida essa informação, não é forçoso que o abandonemos, continuando então a calcorrear as suas bifurcações em todos os sentidos, sem podermos encerrar a coleção de pranchas senão depois de deambular durante algum tempo, de forma errática e na ausência de uma intenção precisa, através de sua floresta, do seu dédalo, do seu tesouro. Até a vez seguinte, igualmente inútil ou fecunda. (p.11)

Nem comecei o livro direito e, logo na primeira página, já vi que vou gostar. 🙂

DIDI-HUBERMAN, Georges. Atlas ou a Gaia Ciência Inquieta. Lisboa: KKYM+ EAUM, 2013.

Narrativas cartográficas

Westeros map

“A associação dos conceitos de mapa e narrativa pressupõe a expansão da definição amplamente aceita de narrativa como expressão da natureza temporal da experiência humana em um tipo de significado que envolve as quatro dimensões do espaço-tempo continuum. A dimensão temporal da narrativa não se manifesta de forma pura, tal como na música, mas em conjunção com o ambiente espacial. A mente do leitor seria incapaz de imaginar eventos narrativos sem relacioná-los aos participantes, e sem situá-los num espaço concreto. O processamento cognitivo da narrativa, portanto, envolve a criação de uma imagem mental de um mundo narrativo, uma atividade que requer o mapeamento de características relevantes desse mundo. Mas a relação entre narrativas e mapas não está limitada à pura formação de imagens mentais.”

RYAN, Marie-Laure. Narrative cartography: Toward a visual narratology. In: KINDT, Tom; MÜLLER, Hans-Harald (org.). What is narratology? Questions and answers regarding the status of a theory. Walter de Gruyter, 2003. p. 333-364

Eu diria que taí 70% do que pretendo estudar em minha tese. 🙂

O referente espacial na literatura

Fernando Pessoa

O espectro de Ulisses é próprio ao amanhecer do referente. O herói literário precede o navegador nas regiões mais remotas do mundo, enquanto o imaginário estiver adiantado sobre a realidade. E o referente se projeta e se desenha em função do discurso. O mundo era ainda relativamente vazio (…) Hoje, é o escritor que chega na segunda posição: ele é sempre precedido por aqueles que fixaram o referente, que são, ocasionalmente, os próprios escritores. Como escrever uma linha sobre Lisboa sem os óculos de Pessoa?

WESTPHAL, Bertrand. La Géocritique: réel, fiction, espace. Paris: Les Éditions de Minuit, 2007. P. 138-139

Globo terrestre

“Avant de savoir faire le tour de la terre, de circonscrire en jours et en heures la sphère de l’habitat human, nous avions mis le globe terrestre au salon pour le tâter et le faire pivoter sus nos yeaux.”
ARENDT, Hannah. Vita Activa: condition de l’homme moderne. Paris: Pocket, 1994, p. 317-318.
O globo terrestre é uma ficção cartográfica que permite ter sob as mãos, em casa, à escala que nos convém, uma imagem tridimensional do planeta sobre a qual fomos colocados. O globo oferece uma visão da terra como se estivéssemos situados em seu exterior, em pleno espaço sideral, a uma altura considerável. É a terra vista do alto, de um universo, por sua vez, desprovido de alto e baixo
Representar o real em uma outra escala é verdadeiramente acessar à realidade?
MONSAINGEON, Guillaume. Mappamundi: art et cartographie. Marseille: Éditions Parenthèses, 2013.