Inteligência digital da cartografia

Revista Digital de Tecnologias Cognitivas da PUC-SP

Acaba de ser publicada a edição 19 da revista TECCOGS da PUC-SP. Tive o prazer de ser o editor convidado dessa edição, com o tema “Inteligência digital da cartografia”. O download da edição completa (em pdf) está disponível aqui.

Nesta edição, preparei um dossiê sobre sobre Mapeamento Profundo, que é uma parte da minha pesquisa de doutorado.

Confira os artigos e resenhas publicadas. Selecionamos textos interessantes sobre mídias locativas, cartossemiótica, narrativas cartográficas e realidade aumentada.

Confira também a excelente entrevista com o professor Todd Presner, da UCLA. Nessa entrevista, conversamos sobre Digital Humanities, mapeamento espesso e, claro, sobre Walter Benjamin.

Agradeço a todos que participaram desta edição, em especial aos colegas e professores Tânia do Canto, Juliana Rocha Franco, José Alavez, Sébastien Caquard e Isabel Jungk.

Agradeço também a parceria com Guilherme Cestari, editor executivo, e o convite do prof. Winfried Nöth, diretor científico da revista.

Dialogismo e história

Estou lendo sobre Bakhtin.

Sobre o dialogismo:

“A apreensão do mundo é sempre situada historicamente, porque o sujeito está sempre em relação com outro(s). O sujeito vai constituindo-se discursivamente, apreendendo as vozes sociais que compõem a realidade em que está imerso, e, ao mesmo tempo, suas inter-relações dialógicas. Como a realidade é heterogênea, o sujeito não absorve apenas uma voz social, mas várias, que estão em relações diversas entre si. Portanto, o sujeito é constitutivamente dialógico. Seu mundo interior é formado de diferentes vozes em relações de concordância ou discordância. Além disso, como está sempre em relação com o outro, o mundo interior não está nunca acabado, fechado, mas em constante vir a ser, porque o conteúdo discursivo da consciência vai alterando-se.”

FIORIN, José Luiz. Introdução ao pensamento de Bakhtin. São Paulo: Contexto, 2018. p. 61

Sobre a história:

“A historicidade dos enunciados é captada no próprio movimento linguístico de sua constituição. É na percepção das relações com o discurso do outro que se compreende a História que perpassa o discurso. Com a concepção dialógica, a análise histórica dos textos deixa de ser a descrição de uma época, a narrativa da vida de um autor, para transformar-se numa fina e sutil análise semântica, que vai mostrando aprovações ou reprovações, adesões ou recusas, polêmicas e contratos, deslizamentos de sentido, apagamentos etc. A História não é exterior ao sentido, mas é interior a ele, pois ele é que é histórico, já que se constitui fundamentalmente no confronto, na contradição, na oposição das vozes que se entrechocam na arena da realidade.”

FIORIN, José Luiz. Introdução ao pensamento de Bakhtin. São Paulo: Contexto, 2018. p. 65

Limiares da cartografia

Defendi minha tese de doutorado no último dia 24/09/2018 na PUC-SP. Gostaria de agradecer a todos os amigos, familiares e professores que me apoiaram nesses últimos 4 anos de pesquisa. Essa conquista não teria sido possível sem a força de vocês!

Download do arquivo da tese: Limiares da cartografia: deambulação, arqueologia e montagem no mapeamento de lugares.

RIBEIRO, Daniel Melo. Limiares da cartografia: deambulação, arqueologia e montagem no mapeamento de lugares. 2018. 298 p. Tese (Doutorado em Comunicação e Semiótica) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2018.

Resumo

Esta tese trata de propriedades comunicacionais e semióticas dos mapas. Investigamos práticas alternativas de mapeamento que incentivam outras maneiras de perceber o espaço. Diante dessa motivação, colocamos a seguinte pergunta: Quais aspectos do espaço poderiam ser comunicados em um mapa a partir do questionamento do código e das convenções da cartografia? Como corpus, selecionamos quatro tendências que exploram os limites da linguagem cartográfica: a map art, as mídias locativas, a cartografia literária e o mapeamento profundo. Os exemplos de mapeamento selecionados são analisados à luz da semiótica de Charles S. Peirce. Após essa análise, a pesquisa destaca a área conhecida como mapeamento profundo, a fim de promover uma discussão metodológica sobre mapeamentos de lugares. Propomos um modelo de mapeamento baseado em três etapas: a deambulação, a arqueologia e a montagem. O desenvolvimento dessas etapas foi inspirado na filosofia de Walter Benjamin. Consideramos que a crítica à modernidade desenvolvida por Benjamin está ligada à interpretação da cultura material urbana, cujo potencial narrativo se encontra latente em fragmentos e indícios de caráter arqueológico. O mapeamento desses fragmentos inicia-se por um exercício de deambulação (ou flânerie), passa por uma leitura arqueológica e se consolida num processo de montagem. Portanto, o objetivo principal é propor um modelo que estimule a criação de representações cartográficas evidenciando três propriedades do mapeamento profundo: a experiência corporal com o espaço (deambulação), a dimensão histórica (arqueologia) e a leitura crítica (montagem). Por fim, fundamentados nos argumentos desenvolvidos por Benjamin, defendemos a hipótese de que os mapeamentos alternativos resgatam as experiências limiares, ligadas aos ambientes de transição e hibridismo, apresentando-se como formas de resistência ao dispositivo cartográfico.

Palavras-chave: Mapas. Cartografia. Semiótica. Limiares. Walter Benjamin.

Cartossemiótica

Saiu mais um artigo meu na revista Dispositiva da PUC-Minas. Agradeço, em especial, ao prof. Winfried Nöth, sem o qual este artigo não poderia ter sido concebido.

CARTOSSEMIÓTICA: uma abordagem peirciana dos mapas e da cartografia

RIBEIRO, D. M.. Cartossemiótica: uma abordagem peirciana dos mapas e da cartografia. Dispositiva – Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, v. 6, p. 1-18, 2017.

Download do pdf do artigo.

Resumo

O objetivo deste estudo é apresentar uma síntese da cartossemiótica – ramo da semiótica aplicada ao estudo dos mapas e da cartografia. Vamos enfatizar a cartossemiótica de origem peirciana, tomando como referência o trabalho de Winfried Nöth. Entendida como sinônimo de lógica, a semiótica de Peirce parte de categorias fenomenológicas primordiais para propor uma gramática que explica o funcionamento geral dos signos. Defendemos que a tríade signo, objeto e interpretante, proposta por Peirce, contempla os elementos fundamentais que envolvem o processo de representação e interpretação dos mapas. Neste estudo, os fundamentos da semiótica serão utilizados para esclarecer os seguintes aspectos da cartografia: (a) os mapas e seus dois objetos; (b) o mapa como representação; (c) o aspecto comunicacional dos mapas; (d) as propriedades icônicas, indiciais e simbólicas dos mapas; (e) o mapa como um diagrama.

Walter Benjamin e os mapas

Segue abaixo o resumo da minha apresentação realizada no Benjaminiana 2017 – I Encontro dos Pesquisadores de Walter Benjamin. Trata-se de um trecho da minha tese de doutorado. Em breve o artigo deve ser publicado nos anais do evento.

Mesa Experiência, tempo e história I – Benjaminiana 2017, UFRJ

 

Walter Benjamin e os mapas: o olhar cartográfico sobre a cidade

Daniel Melo Ribeiro – Comunicação e Semiótica PUC-SP

Este estudo explora o interesse de Walter Benjamin pelos mapas e pela cartografia. Segundo Willi Bolle, “o mapa como gênero foi um dos recursos prediletos de Benjamin para falar do espaço urbano enquanto lugar público e referência afetiva”. Partindo dessa aproximação, sugerimos que, embora o tema dos mapas não tenha sido desenvolvido em profundidade por Benjamin, sua obra pode ser entendida como uma espécie de mapeamento ou cartografia da modernidade.

O interesse de Benjamin pelo assunto pode ser identificado em diversos fragmentos de suas publicações, de maneira notória em trechos de Rua de mão única e no livro das Passagens. Essas menções estão ligadas, por exemplo, ao mapeamento de aspectos aparentemente banais de uma cidade. Benjamin sugere mapear não ruas, avenidas e igrejas – temas típicos de um mapa convencional – mas bancos de parque, cemitérios e bordéis – elementos da cidade que funcionam como índices diretamente ligados à sua memória subjetiva, às recordações da infância e à transição da modernidade no início do século XX. Benjamin também associa esse mapeamento à ação do flâneur, o caminhante da cidade que vagueia pelas ruas observando detalhes inusitados. Dessa maneira, Benjamin reforça a relevância do próprio processo de mapeamento na leitura da cidade, um procedimento que envolve tanto a ação do tempo quanto o deslocamento no espaço.

Para além de meras menções aos mapas e às metáforas topográficas, argumentamos que a afinidade de Benjamin pelo assunto acaba por se refletir na própria postura metodológica do autor, baseada principalmente na coleta de registros e na montagem de fragmentos, tendo a cidade como cenário de pesquisa. Assim, podemos levantar algumas questões: como o pensamento desse filósofo pode nos ajudar a refletir sobre a linguagem cartográfica? Quais seriam os critérios para se pensar um mapeamento capaz de contemplar uma visão crítica da cidade? Nosso objetivo principal é argumentar que o pensamento de Benjamin fornece caminhos metodológicos que podem ser utilizados na própria concepção de processos de mapeamento.

Identificamos que essa postura de Benjamin dialoga com uma vertente da cartografia conhecida como mapeamento profundo (deep mapping), tema que se encontra em debate no contexto tanto da geografia como da área conhecida como spatial humanities. Trata-se de uma abordagem emergente que se situa no cruzamento entre as áreas da cartografia e das ciências humanas, cujo objetivo é estudar lugares em profundidade através da mobilização de um conjunto mais amplo de informações geográficas, incluindo ficção, artes, narrativas e memórias. O grande desafio do mapeamento profundo consiste em traduzir tanto experiências qualitativas ligadas ao espaço – sensórias e mnêmicas – quanto conexões históricas temporalmente fragmentadas.

Em sintonia com o pesquisador Todd Presner, acreditamos na possibilidade de se pensar no processo de mapeamento profundo fundamentado na filosofia materialista e crítica desenvolvida por Walter Benjamin. Portanto, ao associarmos o pensamento de Benjamin à cartografia, buscamos um embasamento conceitual para propormos uma discussão sobre os processos que envolvem o mapeamento de lugares.

Mapas medievais

Mapa T, Isidoro de Sevilha

Pietro Vesconte mappamundi

“O mapa compreende qualitativamente o espaço. Ele se funda sobre ideias de hierarquia, de correspondência, de oposição; ele provoca uma leitura tendenciosa – à maneira, diz-se, da heráldica. Ele é assim peregrinação interior. A riqueza da tradição cartográfica medieval não resulta menos de sua extrema diversidade: por vez na visão da representação, e na forma geral que lhe é dada. Ela manifesta a variedade de pontos de vista determinando a percepção como também a concepção do espaço. Em outros termos, entre os diversos tipos de mapas medievais, a diferença é mais semântica do que formal. A figuração tende menos a uma veracidade absoluta que a uma utilidade particular, relativa a uma situação. Essa instabilidade aparece tão natural ao espírito desse tempo que os manuscritos onde a mesma mão desenha mapas de aparência contraditória não são raros.” (p. 322)

ZUMTHOR, Paul. La mesure du monde: representation de l’espace au moyen âge. Paris: éditions du seuil, 1993.

O caráter narrativo dos mapas medievais foi suprimido pela emergência de uma linguagem cartográfica com pretensões científicas. Creio que a arte contemporânea tenha resgatado um pouco dessa abertura narrativa, resgatando, portanto, o imaginário ficcional sobre o espaço que foi reprimido por tanto tempo.

Imagem dialética, imagem sobrevivente

Rue Jeanne d'Arc, 13ème arrondissement, Paris

Rue Jeanne d’Arc, 13ème arrondissement, Paris

“A imagem dialética à qual nos convida Benjamin consiste, antes, em fazer surgirem os momentos inestimáveis que sobrevivem, que resistem a tal organização de valores, fazendo-a explodir em momentos de surpresa. Busquemos, então, as experiências que se transmitem ainda para além de todos os espetáculos comprados e vendidos a nossa volta (…) Somos ‘pobres em experiência’? Façamos dessa mesma pobreza – dessa semiescuridão – uma experiência.(…) O valor da experiência caiu de cotação, mas cabe somente a nós, em cada situação particular, erguer essa queda à dignidade, à nova beleza de uma coreografia, de uma invenção de formas. Não assume a imagem, em sua própria fragilidade, em sua intermitência de vaga-lume, a mesma potência, cada vez que ela nos mostra sua capacidade de reaparecer, de sobreviver?”

DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. P. 127

Uma análise semiótica dos mapas da "Guerra dos Tronos"

Nesta semana, apresentei um artigo no V ComCult, congresso organizado pelos colegas do CISC que ocorreu na Cásper Libero. Vi muitas pesquisas excelentes, pena que não pude acompanhar todo os dias do congresso.

Segue o resumo da minha apresentação. O artigo completo está disponível aqui.

The North of Westeros, by J.E. Fullerton

Cartografia Literária: uma abordagem Cartossemiótica sobre A Guerra dos Tronos

Resumo
A cartografia é a ciência que estuda a representação do espaço, cujo principal objeto de investigação é o mapa. Por sua vez, a cartografia literária é o ramo de estudos que investiga as relações dos mapas com o espaço dos textos literários. Neste artigo, é feita uma breve análise semiótica de um dos mapas da série A Guerra dos Tronos. A metodologia de análise está baseada na teoria dos signos desenvolvida por Charles Peirce. A semiótica de Peirce afirma que os mapas se constituem como um tipo especial de signo que pode revelar analogias estruturais do objeto representado. Assim, parte-se da hipótese de que os mapas literários tornam visíveis as articulações descritas na narrativa e funcionam como dispositivos de raciocínio.

Palavras-chave: Mapas. Semiótica. Literatura. Cartografia. A Guerra dos Tronos.

A lógica do aprendizado

Pollock

“Aprender é adquirir um hábito. O que faz os homens aprenderem? Não meramente a visão daquilo que estão acostumados, mas perpétuas experiências novas, que os lança a um hábito de abandonar velhas ideias e formar novas.” (p. 142)

PEIRCE, Charles S. The New Elements of Mathematics, 4 vols., ed. EISELE, C. The Hague: Mouton, 1976.

Em outras palavras: aprender gera desconforto. A comodidade e o conservadorismo não fazem nada além de reforçar a mediocridade do mundo.

Segue um convite, portanto, a abrirmos os olhos para as qualidades ao nosso redor: uma experiência onde não há passado nem futuro, só o presente. A partir das qualidades, desse estado poroso, alimentamos nossa mente de novos signos para gerar novas conexões.

O crescimento requer o outro.