O referente espacial na literatura

Fernando Pessoa

O espectro de Ulisses é próprio ao amanhecer do referente. O herói literário precede o navegador nas regiões mais remotas do mundo, enquanto o imaginário estiver adiantado sobre a realidade. E o referente se projeta e se desenha em função do discurso. O mundo era ainda relativamente vazio (…) Hoje, é o escritor que chega na segunda posição: ele é sempre precedido por aqueles que fixaram o referente, que são, ocasionalmente, os próprios escritores. Como escrever uma linha sobre Lisboa sem os óculos de Pessoa?

WESTPHAL, Bertrand. La Géocritique: réel, fiction, espace. Paris: Les Éditions de Minuit, 2007. P. 138-139

Tradução intersemiótica

“As línguas apresentam parentescos e analogias naquilo que pretendem exprimir e que, para nós, não é outra coisa senão o ícone como medula da linguagem (…) Por se tratarem de códigos de representação, os sistemas de signos podem se aparentar na empresa comum de aludir a um mesmo referencial icônico. Isso porque o próprio pensamento é intersemiótico e essa qualidade se concretiza nas linguagens e sua hibridização (…) O que já é válido para a tradução poética como forma, acentua-se na tradução intersemiótica. A criação neste tipo de tradução determina escolhas dentro de um sistema de signos que é estranho ao sistema do original. Essas escolhas determinam uma dinâmica na construção da tradução, dinâmica esta que faz fugir a tradução do traduzido, intensificando diferenças entre objetos imediatos. A tradução intersemiótica é, portanto, estruturalmente avessa à ideologia da fidelidade.” (p. 29-30)

PLAZA, Julio. Tradução Intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2013

Fico imaginando como seria uma tradução do “Grande Sertão Veredas” para outra língua. Acho que seria o mesmo de tentar ler Ulysses em português.

(obs.: curiosamente, este é o primeiro post que publico com a tag “semiótica”)