Category: sistemas dinâmicos

Ideias que se conectam

“Em geral, somos mais bem-sucedidos ao conectar ideias do que ao protegê-las. Como o próprio livre mercado, a defesa da restrição do fluxo de inovação foi durante muito tempo reforçada por apelos à ordem “natural” das coisas. Mas a verdade é que, ao examinarmos a inovação na natureza e na cultura, percebemos que ambientes que constroem muros em torno de boas ideias tendem a ser menos inovadores que ambientes mais abertos. Boas ideias podem não querer ser livres, mas querem se conectar, se fundir, se recombinar. Querem se reinventar transpondo fronteiras conceituais. Querem tanto se completar umas às outras quanto competir.”

JOHNSON, Steven. De onde vêm as boas ideias. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

Networks: knowlegde in the age of interconnectivity

Excelente video com o Manuel Lima, o cara do Visual Complexity.

Alguns trechos:

We´re really facing a paradigm shift in the sense that trees are no longer able to acomodate the complexity of modern world.

Neste trecho, ele comenta que, historicamente, a metáfora da árvore muitas vezes foi utilizada para representar o conhecimento, sempre de maneira hierárquica e harmônica. Esse conceito começa a mudar no século XX, com a emergência dos estudos da complexidade e do caos.

The network is an alternative concept of beauty.

A beleza não necessariamente deve estar na harmonia ou no reconhecimento de padrões – apesar de ser algo que sempre buscamos. Não é de maneira fortuita que muitos artistas apontaram para esse caminho da abstração (inclusive Pollock, que Manuel cita em um trecho do vídeo).

The hidden influence of social networks

Se tiver um tempo, veja até o final. Aborda muitas coisas interessantes, principalmente a influência das redes sociais em nosso comportamento, nossas emoções ou mesmo em nossa condição física. O que me agrada muito nesses estudos, além disso, são as referências às propriedades emergentes e teoria dos sitemas dinâmicos (o conjunto é maior do que a soma das partes individuais).

Arquiteturas líquidas do ciberespaço

Ontem apresentei um paper no II Simpósio ABCiber. Foi um evento que reuniu os principais pesquisadores brasileiros em Cibercultura.

Arquiteturas Líquidas do Ciberespaço

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Resumo:

Projetos arquitetônicos pressupõem o planejamento de estruturas capazes de ambientalizar, comportar e permitir o trânsito de pessoas, aliando design e funcionalidade. De maneira similar, esse conceito também se aplica a sistemas de informação, em especial aos sistemas articulados em rede, com seus múltiplos nós e intenso fluxos de bits. Para além da idéia de arquitetura no sentido tradicional do termo, relacionado à construção de ambientes físicos, como prédios, casas e edifícios, este estudo pretende discutir de que maneira poderíamos estender a aplicação da metáfora da arquitetura líquida no design de sistemas hipermidiáticos. Ou seja, apropriando-se do conceito de arquitetura no seu sentido mais amplo, como a arquitetura da informação e o design de interação podem se valer de conceitos líquidos para projetar estruturas menos rígidas, adaptáveis às ações da coletividade no ciberespaço, especialmente na Internet?

Palavras-chave: Ciberespaço, Arquitetura da informação, Design de interação; Web semântica;
Folksonomia; Sistemas dinâmicos.

Arquiteturas líquidas do ciberespaço

“No ciberespaço, qualquer informação e dados podem se tornar arquitetônicos e habitáveis, de modo que o ciberespaço e a arquitetura do ciberespaço são uma só e mesma coisa. Entretanto, trata-se de uma arquitetura líquida, que flutua. Por isso, o ciberespaço altera as maneiras pelas quais se concebe e percebe a arquitetura, de modo que torne nossa concepção da arquitetura cada vez mais musical. Pela primeira vez, o arquiteto não desenha um objeto, mas os princípios pelos quais o objeto é gerado e varia no tempo. (…) Uma arquitetura desmaterializada, dançante, difícil, etérea, temperamental, transmissível a todas as partes do mundo simultaneamente, só indiretamente tangível, feita de presenças sempre mutáveis, líquidas.”

SANTAELLA, Lucia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007. P. 17

Há algum tempo venho pensando na metáfora da “arquitetura líquida” para tratar dessas formas fluidas de navegação, sustentadas pela colaboração e personalização. Segue abaixo um trecho de um material que escrevi. (e pretendo publicá-lo em alguma revista científica… alguma sugestão para um periódico legal?)

A própria metáfora dos conceitos líquidos somente poderia ser aplicada ao design dos sistemas de informação quando consideramos a interferência do usuário na construção do conteúdo coletivo. Tal como analisado nos sistemas emergentes, é necessário basear-se em uma massa crítica de dados gerada pela ação de cada indivíduo localmente a partir de regras e instrumentos simples. Essa lógica produz algo maior, um conhecimento que, enfim, começa a concretizar os ideais da inteligência coletiva, mas que ainda encontrará muitos desdobramentos com o desenvolvimento das ciências cognitivas e da inteligência artificial.

Emergência e Caos

Na última quinta-feira, assisti a uma palestra excelente no Itaú Cultural com um (artista? matemático? designer?) colombiano chamado Santiago Ortiz. Trata-se do evento Emoção Art.ficial 4.0 com o tema “emergência”, com exposição de obras digitais, simpósio e workshops.

O cara é muito bom. Apresentou de maneira muito clara, sempre com exemplos, os conceitos básicos da teoria do caos e complexidade. Ele utiliza princípios básicos da emergência em sistemas dinâmicos, tais como a a interação local entre componentes simples para gerar padrões gerais de comportamento, para construir interfaces interativas (disponíveis na internet).

O mais legal é perceber que as pesquisas em teorias da complexidade são transdiciplinares e conseguem transitar tranquilamente entre a biologia, a matemática, a física, a linguística e o design. Os exemplos trazidos na palestra, basicamente, consistiam em visualizações não-lineares de fenômenos complexos, sejam redes sociais, evolução genética de bactérias ou comportamento de partículas. O cara se apóia na visualização de dados para demonstrar todos esses fenômenos. Interessante também registrar o objetivo de construir interfaces que sejam úteis aos indivíduos para compreender melhor alguma situação complexa, e não simplesmente criar projetos experimentais.

Alguns modelos:

6pli

6pli – um sistema de visualização para o Del.icio.us

mitozoos.gif

Mitozoos –  modelo interativo que simula a vida artificial de criaturas criadas digitalmente. O modelo contempla evolução genética, competição por alimento, reprodução e mutação.

social.gif

Automatas – um modelo bastante didático, que ilustra muito bem o comportamento de elementos dentro de um sistema dinâmico. Com apenas duas variáveis (amor x ódio), somos capazes de estabelecer regras de funcionamento de atração e repulsa mútua entre os componentes, tal como uma telenovela.

O Mapa Fantasma: cartografia e pesquisa científica

No trecho a seguir, Johnson desevolve um pouco melhor o tema do seu mais recente livro.

Gostaria de destacar dois aspectos que eu gostei bastante neste livro.

a) o primeiro (já era esperado) diz respeito ao uso de informação local e o cruzamento de dados para construção de representações visuais para gerar novos conhecimentos. Na sua narrativa, o autor apresenta um problema de saúde pública que ocorreu em Londres na metade do século XIX, onde uma epidemia de cólera matou centenas de pessoas num curtíssimo intervalo de tempo. Naquela ocasião, dois indivíduos, a partir do profundo conhecimento local da região de Soho em Londres, venceram a batalha contra a doença por meio da identificação de padrões de contágio entre os moradores. Usaram, para isso, uma base de dados pública e, a partir de uma hipótese até então revolucionária que defendia a transmissão do cólera pela água, cruzaram esses dados com um mapa para criar uma representação visual que sustentasse o argumento proposto. O caso acabou por se tornar uma referência clássica nos estudos do Design da Informação, e o mapa proposto por John Snow (o cientista que liderou a pesquisa) inaugurou uma nova forma de investigação científica, onde o uso de mapas, gráficos e diagramas se tornou poderoso instrumento de descoberta.

Mapa de Soho utilizado pelo Dr. John Snow para identificar padroes de contágio do cólera em Londres

Trazendo a questão pro lado da minha pesquisa de mestrado, (aham… preciso fazer o Jabá) trata-se de um excelente exemplo que confirma a hipótese que proponho: o uso de representções visuais (mais especificamente de mapas) é um instrumento de descoberta heurística e favorece a emergência de novos conhecimentos. Em tempos de Google Maps e API’s, nada mais oportuno do que discutir dados públicos e suas aplicações que utilizam a internet como plataforma de divulgação.

b) O que também me empolgou no livro (e que eu não esperava) foi o convencimento do valor do método científico de pesquisa, questionamento de paradigmas e subversão de valores consolidados. O conhecimento humano e o progresso das civilizações é diretamente proporcional à capacidade mental de cada um de nós de duvidar de conceitos pré-estabelecidos pela tradição ou pelo senso-comum. O raciocínio crítico, no sentido de estabelecer hipóteses a partir de um problema e investigá-las na sua fonte, é o procedimento básico de todo bom pesquisador. Já falei isso aqui algum tempo atrás, mas gostaria de lembrar: o mais legal do mestrado nem é o tema da pesquisa em si, mas o aprender a pesquisar, a amadurecimento do olhar investigativo para as questões do cotidiano.

JOHNSON, Steven. O Mapa Fantasma. Como a luta de dois homens contra o cólera mudou o destino de nossas metrópoles. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

A interface gráfica bottom-up

“Os princípios do design por trás da interface gráfica basearam-se em previsões a cerca das faculdades gerais dos sistemas humanos cognitivos e perceptuais. Por exemplo, nossa memória espacial é mais poderosa do que a textual; portanto, as interfaces gráficas enfatizam ícones em detrimento de comandos. Temos um talento natural para pensamento associativo, graças às formidáveis habilidades da rede distribuída do cérebro em comparar padrões; portanto a interface gráfica tomou emprestadas as metáforas visuais do mundo real: áreas de trabalho, pastas e arquivos, lixeiras. Assim como algumas drogas são projetadas especificamente para desbloquear a neuroquímica de nossa massa cinzenta, a interface gráfica foi desenhada para explorar os talentos inatos da mente humana e confiar o mínimo possível em nossas deficiências. (…)

Na verdade, os talentos da leitura de mentes da interface gráfica são impiedosamente genéricos. Janelas rolantes e metáforas de áreas de trabalho são baseadas em previsões sobre a mente humana, não a mente de um usuário específico. São teorias de tamanho-único-para-todos e lhes falta qualquer mecanismo real de feedback que as torne mais familiarizadas com as aptidões específicas de um usuário específico. Além disso, suas previsões são decididamente um produto de engenharia top-down. O software não aprendeu sozinho que somos uma espécie visual; pesquisadores na Xerox-PARC e no MIT já tinham conhecimento de nossa memória visual e usaram esse conhecimento para criar a primeira geração de metáforas espaciais. Essas limitações, porém, logo terão o destino dos tubos a vácuo dos cartões perfurados. Nosso software desenvolverá modelos evoluídos e com nuances dos nossos estados mentais, e esse conhecimento emergirá de um sistema bottom-up.”

JOHNSON, Steven. Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. P. 154

Convergência, metadados e auto-organização

“O papel mais significativo da Web em tudo isso não envolverá sua capacidade de escoar imagens de vídeo de alta qualidade o ecoar estrondos de som surround; de fato é bem possível que o conteúdo real da revolução da convergência chegue por meio de alguma outra plataforma de transmissão. Por sua vez, a Web contribuirá com os metadados que permitirão a auto-organização desses grupos. Ela será o armazém central e o mercado para todos os nossos padrões de comportamento mediado. (…) os consumidores poderão explorar por si mesmos esse monte de produtos, para criar mapas comunitários de todos os entretenimentos e dados disponíveis on-line. (…) O grupo construirá uma teoria de sua mente, e essa teoria será um projeto de grupo, reunido pela Web a partir de um inimaginável número de decisões isoladas. Cada teoria e cada grupo serão mais especializados do que qualquer coisa que já tenhamos experimentado no mundo top-down dos meios de comunicação. Essas habilidades de leitura de mentes surgirão porque, pela primeira vez, nossos padrões de comportamento serão expostos – como as calçadas com que começamos – para o espaço público compartilhado da própria Web.” (p. 165)

JOHNSON, Steven. Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. P. 164-165