Cérebros, cidades e softwares

Um trecho longo, mas, seu eu fosse você, não deixava de ler.

“A seleção natural nos dotou com ferramentas cognitivas equipadas unicamente para lidar com a complexidade social dos grupos da Idade da Pedra nas savanas da África, mas, quando a revolução da agricultura introduziu as primeiras cidades ao longo das margens dos rios Tigre e Eufrates, a mente do Homo sapiens naturalmente se ressentiu, diante do tamanho dessas populações. Uma mente equipada para lidar com os feitos de menos de duzentos indivíduos encontrou-se de repente imersa em uma comunidade de 10 ou 20 mil indivíduos. Para resolver esse problema, de novo nos apoiamos nos poderes da emergência, embora a solução tenha acontecido num nível acima do cérebro humano individual: em vez de olhar para enxames de neurônios para lidar com a complexidade social, olhamos para enxames de seres humanos. (…) Administrar a complexidade tornou-se um problema a ser resolvido no nível da própria cidade.

Durante a última década, passamos a experimentar um outro patamar. Atualmente, estamos conectados a centenas de milhões de pessoas através do vasto labirinto da World Wide Web. Uma comunidade dessa escala requer uma nova solução, além de nossos cérebros e de nossas calçadas, mas novamente procuramos na auto-organização as ferramentas, desta vez construídas a partir de conjuntos de instruções de programas de software. (…)A cidade nos permitiu ver padrões de comportamento de grupo, registrando e expondo esses padrões sob a forma de comunidades. Atualmente, o mais moderno programa percorre a Web procurando padrões de atividade online, usando feedback e ferramentas que comparam padrões equivalentes para encontrar vizinhos em uma população inacreditavelmente vasta. À primeira vista, essas três soluções – cérebros, cidades e software – pareceriam pertencer a ordens de experiência completamente diferentes. Porém, são somente instâncias da auto-organização funcionando, interações locais levando à ordem global.”

JOHNSON, Steven. Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. P. 152

O nível da rua

“Aqui, o elemento chave é a importância das calçadas, não porque proporcionem uma alternativa ecológica confiável às rodovias (embora isso seja verdade), nem porque andar é um exercício melhor do que dirigir um automóvel (o que também é verdade, aliás), nem porque as cidades centradas em pedestres sejam graciosamente antiquadas (o que é mais uma questão de moda do que uma evidência empírica). (…) O que importa é que elas são as condutoras primárias do fluxo de informações entre os habitantes. Os vizinhos aprendem uns com os outros porque passam uns pelos outros – e pelas lojas e moradia dos outros – nas calçadas. Elas permitem uma banda de comunicação relativamente larga entre totais estranhos e misturam grande número de indivíduos em configurações acidentais. Sem as calçadas as cidades seriam como formigas sem o sentido do olfato ou uma colônia com um número muito reduzido de operárias. As calçadas suprem o tipo correto e o número correto das interrelações locais. Elas são as junções da vida da cidade.”

Um complemento sobre o problema das cidades centradas em automóveis:

“o potencial para interações locais é tão limitado pela velocidade e distância percorrida pelo automóvel que nenhuma ordem superior pode emergir. Por tudo o que sabemos, deve haver algum alargamento psicológico em olhar as favelas de dentro de seu Ford Explorer, mas essa experiência nada fará para melhorar a saúde da cidade, pois a informação transmitida entre os agentes é esquálida e efêmera demais. A vida da cidade depende da interação acidental entre os estranhos que muda o comportamento individual. (…) Encontrar a diversidade nada faz pelo sistema global da cidade, a menos que esse encontro tenha alguma chance de alterar um comportamento. É necessário haver feedback entre agentes, células que mudam em resposta a outras células. A 100 quilômetros por hora, a informação transmitida entre os agentes é limitada demais para interações sutis.”

JOHNSON, Steven. Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. p. 69-70

Talvez a redução da velocidade dos automóveis em São Paulo devido aos constanstes congestionamento possa gerar um efeito positivo a longo prazo: uma interação maior e mais rica entre os agentes circulantes.

Dinâmicas urbanas

Um tema que, só aparentemente, foge ao que costumo colocar aqui.

“A própria cidade é construída de uma maneira peculiar, de modo que uma pessoa pode morar nela durante anos, entrar e sair dela diariamente sem ter contato com um bairro popular e nem mesmo com operários – quer dizer, contanto que a pessoa se limite aos seus próprios negócios ou a passear por puro prazer. Isto decorre principalmente das circunstâncias de que, através de um acordo tácito e inconsciente, assim como de uma intenção explícita e consciente, mantêm os bairros populares totalmente separados das partes reservadas à classe média… Nunca vi em outro lugar ocultar-se com tão fina sensibilidade tudo o que pudesse ofender os olhos e os nervos da classe média.”

Engels (aquele mesmo), analisando a cidade de Manchester. Claro, poderia muito bem ser São Paulo.

ENGELS, Friedrich. A situação da classe operária na Inglaterra, São Paulo: Global, 1986

A questão envolvida neste trecho que nos interessa diretamente é a seguinte: as cidades, como outros sistemas auto-organizáveis, muitas vezes crescem “ao acaso”, sem uma política ou ordem deliberada de cima para baixo. E, ainda sim, adapta-se de acordo com uma lógica funcional.

“A cidade é complexa porque surpreende, sim, mas tambémporque tem uma personalidade coerente, uma personalidade que se auto-organiza a partir de milhões de decisões individuais, uma ordem global, construída a partir de interações locais.”

JOHNSON, Steven. Emergência: a dinâmica de rede em formigas, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. 231 p.

Complexidade, emergência e sistemas dinâmicos

Em breve, um post mais elaborado sobre esse tema. Seguem algumas coisas que estive lendo do Manovich.

“The new paradigm begins to emerge across a number of scientific and technical fields, eventually reaching popular culture as well. It includes a number of distinct areas, approaches, and subjects: chaos theory, complex systems, self-organization, autopoiesis, emergence, artificial life, the use of the models and metaphors borrowed from evolutionary biology (genetic algorithms, “memes”), neural networks. While distinct from each other, most of them share certain basic assumptions. They all look at complex dynamic and non-linear systems and they model the development and/or behavior of these systems as the interaction of a population of simple elements. This interaction typically leads to emergent properties – a priori unpredictable global behavior. In other words, the order that can be observed in such systems emerges spontaneously; it can’t be deduced from the properties of elements that make up the system. (…)

What is important is that having realized the limits of linear top-down models and reductionism, we are prepared to embrace a very different approach, one which looks at complexity not as a nuisance which needs to be quickly reduced to simple elements and rules, but instead as the source of life – something which is essential for a healthy existence and evolution of natural, biological, and social systems.”

MANOVICH, Lev. Abstraction and complexity. Disponível em <http://www.manovich.com>. Acessado em 10/01/2008. 2004