O homem histórico

Dezenas de milênios se passaram até que tivéssemos aprendido a tornar transparentes as imagens, a “explicá-las”, a arrancar com os dedos os elementos da superfície das imagens e alinhá-los a fim de contá-los; até que tivéssemos aprendido a rasgar o tecido do contexto imaginado e a enfiar os elementos sobre as linhas, a tornar as cenas “contáveis” (nos dois sentidos do termo), a desenrolar e desenvolver as cenas em processos, vale dizer, a escrever textos e a “conceber o imaginado”. (…) Graças a ele (o gesto abstraidor) o homem transforma a si próprio em homem histórico, em ator que concebe o imaginado.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008. (p. 16-17)

Informatique, informatica, informatik

“Information theory began as a bridge from mathematics to electrical engineering and from there to computing. What English speakers call ‘computer science’ Europeans have know as informatique, informatica and informatik. Now even biology has become an information science, a subject of messages, instructions and code.”

Não havia me ligado que “informática”, um termo tão comum em português, não existe em inglês…

GLEICK, James. A informação: uma história, uma teoria, uma enxurrada. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

Purificação da informação

Neste trecho, Gleick comenta sobre a importância do trabalho de Shannon para a “purificação” to termo informação. Até então, tratava-se de um conceito muito vago. Segundo ele, a Teoria Matemática da Informação foi fundamental para dar força científica ao conceito, permitindo que todo o desdobramento tecnológico decorrente disso pudesse deslanchar.

“For the purposes of science, information had to mean something special. Three centuries earlier, the new discipline of physics could not proceed until Isaac Newton appropriated words that were ancient and vague – force, mass, motion, and even time – and gave them new meanings. Newton made these terms into quantities, suitable for use in mathematical formulas. Until then, motion (for example) had been just a soft and inclusive a term as information. For Aristotelians, motion covered a far-flung family of phenomena: a peach ripening, a stone falling, a child growing, a body deaying. That was too rich. Most varieties of motion had to be tossed out before Newton’s laws could apply and the Scientific Revolution could succeed. In the nineteenth century, energy began to undergo a similar transformation: natural philosophers adapted a word meaning vigor or intensity. They mathematicized it, giving energy its fundamental place in the physicists’ view of nature.

It was the same with information. A rite of purification became necessary.

And then, when it was made simple, distilled, counted in bits, information was found to be everywhere. Shannon’s theory made a bridge between information and entropy; and between information and chaos. It led to compact discs and fax machines, computers and cyberspace, Moore’s law and all the worl’s Siicon Alleys. Information processing was born, along with information storage and information retrieval. People began to name a successor to the Iron Age and the Steam Age.”

Não há dúvida que “simplificar” conceitos e reduzir potenciais interpretantes é uma forma de empobrecer uma palavra tão cheia de possibilidades como “informação”. Por outro lado, é papel das ciêncas exatas isolar variáveis e definir escopo mais claro de pesquisa.

GLEICK, James. A informação: uma história, uma teoria, uma enxurrada. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

A informação

Meu livro chegou. Vamos começar a imersão.

Seguem algumas críticias:

NYTimes de Geoffrey Nunberg (University of California – Berkeley)

Contemplating the problem of turning information into useful knowledge, Gleick sees a similar role for blogs and aggregators, syntheses like Wikipedia, and the “vast, collaborative filter” of our connectivity. Now, as at any moment of technological disruption, he writes, “the old ways of organizing knowledge no longer work.”

(…)

In an evocative final paragraph, he pictures humanity wandering the corridors of Borges’s imaginary Library of Babel, which contains the texts of every possible book in every language, true and false, scanning the shelves in search of “lines of meaning among the leagues of cacophony and incoherence.” If it comes to that, though, we’ll have lots of help identifying the volumes that are worth reading, and not just from social networks and blogs but from libraries, publishers and other bulwarks of the informational old order. Despite some problems, a prodigious intellectual survey like “The Information” deserves to be on all their lists.

Guardian, Alok Jha

So the story behind the human mastery of information deserves its day in the sun, in as much detail as possible. The most remarkable thing, perhaps, is just how fast it has happened

GLEICK, James. A informação: uma história, uma teoria, uma enxurrada. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

Imagens técnicas

Somos testemunhas, colaboradores e vítimas da revolução cultural cujo âmbito apenas adivinhamos. Um dos sintomas dessa revolução é a emergência das imagens técnicas em nosso torno. Fotografias, filmes, imagens de TV, de vídeo e dos terminais de computador assumem o papel de portadores de informação outrora desempenhado por textos lineares. Não mais vivenciamos, conhecemos e valorizamos o mundo graças a linhas escritas, mas agora graças a superfícies imaginadas. Como a estrutura da mediação influi sobre a mensagem, há mutação na nossa vivência, nosso conhecimento e nossos valores. O mundo não se apresenta mais enquanto linha, processo, acontecimento, mas enquanto plano, cena, contexto – como era o caso na pré-história e como ainda é o caso para iletrados. No entanto, o presente ensaio procurará demonstrar que não se trata de retorno a situação pré-alfabética mas de avanço ruma a situação nova, pós-histórica, sucessora da história e da escrita. Nossa tese: as novas imagens não ocupam o mesmo nível ontológico das imagens tradicionais, porque são fenômenos sem paralelo no passado. As imagens tradicionais são superfícies abstraídas de volume, enquanto as imagens técnicas são superfícies construídas por pontos.

A leitura que tenho feito dos textos do Flusser tem bastante afinidade com o que eu já havia lido do Castells, sobre as mudanças de paradigma da sociedade a partir do desenvolvimento das tecnologias da informação e das comunicações em rede. Porém, Castells fala de aspectos econômicos e sociais. O que estou achando muito interessante do Flusser é a interpretação do mesmo contexto histórico sob o ponto de vista da filosofia da imagem. Ambos olham para o mesmo objeto (a sociedade pós-industrial), porém usam repertórios e argumentos diferentes. Legal também que o Flusser dialoga com o McLuhan (“o meio é a mensagem”).

Resgatei alguns links sobre Castells que eu coloquei por aqui há algum tempo (há 6 anos!!). Vejam:

a) Este trecho é bacana: segundo ele, não custa lembrar que a tecnologia não determina a sociedade, muito embora seja um elemento essencial em nossa história.

b) Reforçando esta mesma opinião, “a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas.

c) Opa, olha aí ele chamando o McLuhan pra roda.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008. (p. 15)

Aparelho-arma

Pope - Vatican Square

Pope - Vatican Square

O aparelho é brinquedo sedento por fazer sempre mais fotografias. Exige de seu possuidor (quem por ele está possesso) que aperte constantemente o gatilho. Aparelho-arma. Fotografar pode virar mania, o que evoca o uso de drogas. Na curva desse jogo maníaco, pode surgir um ponto a partir do qual o homem-desprovido-de-aparelho se sente cego. Não sabe mais olhar, a não ser através do aparelho. De maneira que não está face ao aparelho (como o artesão frente ao instrumento), nem está rodando em torno do aparelho (como o proletário roda a máquina). Está dentro do aparelho, engolido por sua gula. Passa a ser prolongamento automático do seu gatilho. Fotografa automaticamente.

A mania fotográfica resulta em torrente de fotografias. Uma torrente memória que a fixa. Eterniza a automaticidade inconsciente de quem fotografa. Quem contemplar álbum de fotógrafo amador, estará vendo a memória de um aparelho, não a de um homem. Uma viagem para a Itália, documentada fotograficamente, não registra as vivências, os conhecimentos, os valores do viajante. Registra os lugares onde o aparelho o seduziu para apertar o gatilho. Álbuns são memórias privadas apenas no sentido de serem memórias de aparelho. Quanto mais eficientes se tornam os modelos dos aparelhos, tanto melhor atestarão os álbuns, a vitória do aparelho sobre o homem.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma Futura Filosofia da Fotografia. São Paulo: Annablume, 2011. (P. 78-79)

Informações indicativas, imperativas e optativas

Todas as informações podem ser subdivididas em classes. Por exemplo, informações indicativas (“A é A”); imperativas (“A deve ser A”); optativas (“que A seja A”). O ideal clássico dos indicativos é a verdade; dos imperativos, a bondade; dos optativos, a beleza. Na realidade, porém, a classificação é insustentável. Todo indicativo científico tem aspectos políticos e estéticos; todo imperativo político tem aspectos científicos e estéticos; todo gesto optativo (obra de arte) tem aspectos científicos e políticos. De maneira que toda classificação de informação é mera teoria.

As antíteses dos ideiais clássicos dos indicativos, imperativos e optativos seriam, portanto, a trapaça, a imposição e incoerência?

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma Futura Filosofia da Fotografia. São Paulo: Annablume, 2011. (P. 72-73)

Objetos pós-industriais neoimperialistas

A fotografia enquanto objeto tem valor desprezível. Não tem muito sentido querer possuí-la. Seu valor está na informação que transmite. Com efeito, a fotografia é o primeiro objeto pós-industrial: o valor se transferiu do objeto para a informação. Pós-industria é precisamente isso: desejar informações e não mais objetos. Não mais possuir e distribuir propriedades (capitalismo ou socialismo). Trata-se de dispor de informações (sociedade informática). Não mais um par de sapato, mais um móvel, porém, mais uma viagem, mais uma escola. Eis a meta. Transformação de valores. (…)

A distribuição da fotografia ilustra, pois, a decadência do conceito de propriedade. Não mais quem possui tem poder, mas sim quem programa informação e as distribui. Neoimperialismo.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma Futura Filosofia da Fotografia. São Paulo: Annablume, 2011. (P. 70-71)

Quatro estruturas do discurso

Há quatro estruturas fundamentais de discurso:

  1. os receptores cercam o emissor em forma de semicírculo, como no teatro;
  2. o emissor distribui as informações entre retransmissores, que a purificam de ruídos, para retransmiti-la a receptores, como no exército ou no feudalismo;
  3. o emissor distribui a informação entre círculos dialógicos, que a inserem em sínteses de informação nova, como na ciência;
  4. o emissor emite a informação rumo ao espaço vazio, para ser captada por quem nele se encontra, como no rádio.

A todo método discursivo, corresponde determinada situação cultural: o primeiro método exige situação “responsável”; o segundo “autoritária”; o terceiro, “progressista”; o quarto, “massificada”.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma Futura Filosofia da Fotografia. São Paulo: Annablume, 2011. (P. 68-69)

Diálogo e Discurso

Mas o homem parece ser o único fenômeno capaz de produzir informações com o propósito deliberado de se opor à entropia. Capaz de transmitir e guardar informações não apenas herdadas, mas adquiridas. (…)

O processo de manipulação dessas informações é a comunicação que consiste de duas fases: na primeira, informações são produzidas; na segunda, informações são distribuídas para serem guardadas. O método da primeira fase é o diálogo, pelo qual informações já guardadas na memória são sintetizadas para resultarem em novas (há também diálogo interno que ocorre em memória isolada). O método da segunda fase é o discurso, pelo qual informações adquiridas no diálogo são transmitidas a outras memórias, a fim de serem armazenadas.

Nunca havia parado para pensar que os conceitos de produção de informação e distribuição de informação pudessem, de maneira tão clara, serem classificados como diálogo e discurso. Ultimamente, estou tão imerso no contexto da linguagem computacional que eu, superficialmente, pensaria em coisas como banco de dados, redes, bits, etc. A forma como o Flusser cria definições e conceitua seu pensamento é algo genial: sintético e, ao mesmo tempo, inesperado, quase poético.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma Futura Filosofia da Fotografia. São Paulo: Annablume, 2011. (P. 68)