O papel do livro sem papel

kindle

Muito tem sido discutido nas listas na internet sobre o “lançamento” do Kindle, o leitor portátil de livros da Amazon. Em paralelo às opiniões sobre o design do aparelho (para alguns, “quadrado e angular demais, semelhante a eletrônicos japoneses dos anos 80″), a restrição de formatos e até mesmo questões ambientais suscitadas pela redução do consumo de celulose, gostaria de debater o papel do livro (trocadilho proposital) em tempos de mobilidade e ubiqüidade.

Como podem notar, essas últimas semanas estou profundamente contaminado pelas reflexões trazidas pela Santaella no seu livro novo. Seguem alguns trechos:

“Depois da invenção de Gutenberg, durante pelo menos quatro séculos, a cultura do livro e do texto impresso reinou soberana. Estendendo-se do século XV ao XIX, essa foi a era das letras, na qual o texto escrito dominou como produtor e difusor do saber e da cultura. O livro impresso, feitos de registros facilmente duplicáveis e transmissíveis, transformou a informação em objeto transportável, rompendo com os mistérios do conhecimento reservado a poucos privilegiados, eruditos religiosos e nobres, e expandindo a capacidade de leitura.”

Bom, a questão mais superficial que aparece quando se fala em livros eletrônicos e leitura no computador, é a de que o livro tradicional tende a acabar ou ser substítuido por gadgets. Acho que todos sabemos que não é bem assim… Mais um trecho legal:

“Vale lembrar, ademais, que a perda da hegemonia do livro não significa que qualquer mídia possa substituí-lo. Se pudesse, o livro já teria desaparecido. Justamente porque não pode, os livros continuaram não só a existir, mas a se multiplicar. Na realidade, quando surge um novo meio de comunicação, ele não substitui o anterior ou os anteriores, mas provoca um refuncionalização no papel cultural que era desempenhado pelos meios precedentes. Via de regra, um período inicial de impacto é seguido por uma readaptação gradativa até que um novo desenho de funções se instale.”

SANTAELLA, Lucia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007.

A pintura não desapareceu com o advento da fotografia, que também não desapareceu com o surgimento do cinema, que também não desapareceu com a televisão e o vídeo. O livro está aí, e tais invenções (como o próprio Kindle), só reforçam o poder da mobilidade e a intensiva intimidade das interfaces computacionais em nosso cotidiano (quem já teve a oportunidade de brincar um pouco com o Iphone já sentiu isso de maneira muito evidente), mas, no entanto, sem a pretensão de engolir o hábito de ler no papel. Por outro lado, se os inventores do Kindle forem pretensiosos a esse ponto, logo o produto cairá em desuso.

Os gadgets introduzem novos comportamentos culturais para lidar com a informação. O foco, falando como arquiteto de informação, deve estar voltado justamente para identificar esses movimentos para pensar sempre em propostas mais adequadas de navegação e organização da informação.

Acho que não me sinto desconfortável em ler no computador.

Obs. pós-post: não deixem de ler abaixo o comentário do Thiago.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *