Telemática – comunicação digital

La photographie electrique à distance - Georges Méliès

A revolução cultural da atualidade iniciou-se nos meados do século XIX por duas tendências distintas, embora convergentes. A primeira tendência visava a computação de elementos pontuais sobre superfícies e o termo “informática” pode servir para rotulá-la. (…) A segunda tendência visava irradiar os elementos pontuais e pode ser rotulada pelo termo “telecomunicação” (…) Essas duas tendências convergem atualmente para formar uma única, designada pelo termo “telemática”. A convergência é recente. Graças a tal amálgama técnico dos conceitos “informação” e “comunicação”, as imagens técnicas começam a revelar seu verdadeiro caráter.

Segundo Flusser, foi necessário um período considerável para que as pessoas percebessem que a fotografia poderia ser “telegrafável”, e o cinema poderia ser “telefonável”, embora tais invenções tenham surgido mais ou menos na mesma época. Ou seja, somente após a invenção do video e das linhas de transmissão a cabo é que a consciência da junção entre computação e transmissão foi despertada. Embora o termo “telemática” não tenha vingado, essa convergência de tendências ilustra bem as origens da comunicação digital.

Pensando melhor, a transmissão de imagens à distância já era sonhada por alguns artistas contemporâneos das invenções do cinema e do telégrafo. Méliès, por exemplo, em 1908, já propunha uma máquina de “fotografia elétrica à distância.” Porém, vários anos foram necessários para que essa convergência de tecnologia sugerida por Flusser pudesse ser viabilizada comercialmente.

Em seguida, ele se refere à característica de “encapsulamento” da tecnologia digital, dizendo que qualquer criança, por exemplo, será capaz de gerar de sintetizar imagens no computador ignorando completamente a complexidade dos processos por trás do software e do hardware.

O que caracteriza a revolução cultural atual é precisamente o fato de que os participantes da cultura ignoram o interior das “caixas pretas” que manejam. A situação cultural precedente exigia dos seus participantes que aprendessem cultura (ler, escrever, fazer imagens);  a situação cultural emergente elimina a aprendizagem e se contenta com a programação dos seus participantes. (…) O desprezo pela técnica que sustenta a nova situação cultural está inscrito no seu programa.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008. P. 83-84