Walter Benjamin e os mapas

Segue abaixo o resumo da minha apresentação realizada no Benjaminiana 2017 – I Encontro dos Pesquisadores de Walter Benjamin. Trata-se de um trecho da minha tese de doutorado. Em breve o artigo deve ser publicado nos anais do evento.

Mesa Experiência, tempo e história I – Benjaminiana 2017, UFRJ

 

Walter Benjamin e os mapas: o olhar cartográfico sobre a cidade

Daniel Melo Ribeiro – Comunicação e Semiótica PUC-SP

Este estudo explora o interesse de Walter Benjamin pelos mapas e pela cartografia. Segundo Willi Bolle, “o mapa como gênero foi um dos recursos prediletos de Benjamin para falar do espaço urbano enquanto lugar público e referência afetiva”. Partindo dessa aproximação, sugerimos que, embora o tema dos mapas não tenha sido desenvolvido em profundidade por Benjamin, sua obra pode ser entendida como uma espécie de mapeamento ou cartografia da modernidade.

O interesse de Benjamin pelo assunto pode ser identificado em diversos fragmentos de suas publicações, de maneira notória em trechos de Rua de mão única e no livro das Passagens. Essas menções estão ligadas, por exemplo, ao mapeamento de aspectos aparentemente banais de uma cidade. Benjamin sugere mapear não ruas, avenidas e igrejas – temas típicos de um mapa convencional – mas bancos de parque, cemitérios e bordéis – elementos da cidade que funcionam como índices diretamente ligados à sua memória subjetiva, às recordações da infância e à transição da modernidade no início do século XX. Benjamin também associa esse mapeamento à ação do flâneur, o caminhante da cidade que vagueia pelas ruas observando detalhes inusitados. Dessa maneira, Benjamin reforça a relevância do próprio processo de mapeamento na leitura da cidade, um procedimento que envolve tanto a ação do tempo quanto o deslocamento no espaço.

Para além de meras menções aos mapas e às metáforas topográficas, argumentamos que a afinidade de Benjamin pelo assunto acaba por se refletir na própria postura metodológica do autor, baseada principalmente na coleta de registros e na montagem de fragmentos, tendo a cidade como cenário de pesquisa. Assim, podemos levantar algumas questões: como o pensamento desse filósofo pode nos ajudar a refletir sobre a linguagem cartográfica? Quais seriam os critérios para se pensar um mapeamento capaz de contemplar uma visão crítica da cidade? Nosso objetivo principal é argumentar que o pensamento de Benjamin fornece caminhos metodológicos que podem ser utilizados na própria concepção de processos de mapeamento.

Identificamos que essa postura de Benjamin dialoga com uma vertente da cartografia conhecida como mapeamento profundo (deep mapping), tema que se encontra em debate no contexto tanto da geografia como da área conhecida como spatial humanities. Trata-se de uma abordagem emergente que se situa no cruzamento entre as áreas da cartografia e das ciências humanas, cujo objetivo é estudar lugares em profundidade através da mobilização de um conjunto mais amplo de informações geográficas, incluindo ficção, artes, narrativas e memórias. O grande desafio do mapeamento profundo consiste em traduzir tanto experiências qualitativas ligadas ao espaço – sensórias e mnêmicas – quanto conexões históricas temporalmente fragmentadas.

Em sintonia com o pesquisador Todd Presner, acreditamos na possibilidade de se pensar no processo de mapeamento profundo fundamentado na filosofia materialista e crítica desenvolvida por Walter Benjamin. Portanto, ao associarmos o pensamento de Benjamin à cartografia, buscamos um embasamento conceitual para propormos uma discussão sobre os processos que envolvem o mapeamento de lugares.

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